Música & Cultura 29 AGO 2026

Ultimate Ears: o Monitor de Palco Improvisado para o Van Halen que Virou Império de Caixas Bluetooth

Jerry Harvey criou monitores in-ear com peças de marca-passo para resolver um problema do baterista do Van Halen. Três décadas depois, a marca que ele fundou vende milhões de caixinhas Bluetooth coloridas — e ele não faz mais parte dela.

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A história da Ultimate Ears começa com um problema prático num palco ensurdecedor. Estamos em 1995, e Jerry Harvey é o engenheiro de monitoração da turnê do Van Halen. O baterista Alex Van Halen simplesmente não consegue ouvir os outros músicos por cima do volume brutal dos monitores de palco — aquelas caixas de som gigantes apontadas para os músicos. Aumentar o volume não resolvia: só piorava o caos sonoro. Harvey, então, teve uma ideia que mudaria a indústria da música ao vivo para sempre. Ele moldou peças de silicone no formato exato do canal auditivo do baterista e inseriu dois pequenos drivers — um para graves, outro para agudos — separados por um crossover passivo. O driver de graves? Retirado de um componente de marca-passo fabricado pela Knowles, um dos poucos transdutores miniaturizados resistentes o bastante para aguentar o impacto de um bumbo.

Do Palco do Van Halen para o Rock Mundial

O resultado foi transformador. Alex Van Halen finalmente ouvia tudo com clareza, isolado do ruído do palco. Os outros membros da banda pediram o mesmo. E quando a banda Skid Row comprou seis pares por US$ 3.000, Harvey percebeu que tinha um negócio nas mãos. Junto com sua então esposa Mindy Harvey, ele fundou a Ultimate Ears em Las Vegas, Nevada. Mindy, mais tarde, descreveria a empresa com uma frase memorável: “A Ultimate Ears é o filho que nunca tivemos” — o casal se divorciou durante o processo de criação da empresa, mas continuou trabalhando junto.

A fama se espalhou boca a boca pelo circuito de turnês. Até o ano 2000, os monitores in-ear da Ultimate Ears já estavam nos ouvidos dos Rolling Stones, Faith Hill, Enrique Iglesias e Red Hot Chili Peppers. O modelo UE-5, lançado em 1998, marcou o primeiro grande salto de lucratividade. Em 2003, com apenas cinco funcionários, a Ultimate Ears controlava cerca de 80% do mercado profissional de monitores in-ear.

O Salto para o Consumidor — e a Saída de Jerry Harvey

A virada veio quando Harvey, em turnê com o Linkin Park, observou a explosão do iPod e enxergou uma oportunidade no mercado de consumo. Em janeiro de 2004, a empresa lançou o UE-5c, uma versão customizada voltada para consumidores a US$ 550. O produto dobrou o faturamento da empresa. Para escalar o negócio, os Harveys trouxeram Bob Allison, da Innovate Partners, como CEO. A empresa se mudou para Irvine, Califórnia. A produção foi expandida para a China, e em 2006 o faturamento já ultrapassava US$ 10 milhões.

Mas o crescimento teve um custo pessoal. Jerry Harvey — o inventor, o engenheiro que moldava monitores com as próprias mãos — foi se afastando da empresa que criou. Depois de projetar o UE-10 Pro (o primeiro monitor in-ear de três vias do mundo) e o UE-11 (o primeiro de quatro vias), Harvey deixou a Ultimate Ears em 2007, alegando ter sido forçado a sair por Allison. Foi um divórcio corporativo tão doloroso quanto o matrimonial que o precedeu.

Jerry Harvey não parou. Fundou a JH Audio, onde continua até hoje projetando monitores in-ear customizados de altíssima performance para músicos profissionais — essencialmente, o mesmo trabalho que começou nos bastidores do Van Halen, mas agora sob seu próprio nome.

A Logitech Entra em Cena: US$ 34 Milhões e uma Nova Identidade

Em agosto de 2008, a Logitech adquiriu a Ultimate Ears por US$ 34 milhões, comprando a participação de Mindy Harvey e absorvendo a marca como subsidiária. Era o primeiro passo da Logitech no mercado de áudio pessoal. Nos anos seguintes, a linha de monitores in-ear profissionais foi mantida, mas a grande aposta estava em outra direção.

Em 21 de maio de 2013, a Ultimate Ears lançou o UE Boom — uma caixa de som Bluetooth portátil cilíndrica com som em 360°. Era colorida, resistente a água, compacta e tinha um som surpreendentemente encorpado para o tamanho. O produto transformou completamente a identidade da marca. De fabricante de nicho para engenheiros de som e audiófilos, a Ultimate Ears se tornou sinônimo de caixas Bluetooth divertidas e resilientes.

Boom, Megaboom, Wonderboom: o Império das Caixinhas Coloridas

Após o sucesso do primeiro Boom, a linha se expandiu agressivamente. O Megaboom trouxe mais volume e certificação IPX7 contra imersão em água. O Wonderboom — menor, mais barato, praticamente indestrutível — democratizou a marca para um público jovem que queria som na praia, na piscina e no churrasco. O Hyperboom atacou o segmento de caixas maiores com projeção de 270°. E o recurso PartyUp, que permite conectar mais de 150 caixas UE a partir de um único dispositivo, virou uma funcionalidade icônica da marca.

A evolução dos modelos acompanhou tendências de sustentabilidade — o Wonderboom 3 utiliza 30% de plástico reciclado — e integração com assistentes de voz, como nos modelos Blast e Megablast com Amazon Alexa embutida (descontinuados desde então). A série Boom chegou à quarta geração, refinando design, autonomia de bateria e qualidade sonora a cada iteração.

Duas Almas, Dois Caminhos

A Ultimate Ears de hoje é, na prática, duas empresas com o mesmo nome. A divisão profissional ainda fabrica monitores in-ear customizados de altíssimo nível — como o UE 18+ Pro e o UE Live, um híbrido com múltiplos drivers de armadura balanceada que custa mais de US$ 1.500. São produtos feitos sob medida, moldados a partir de impressões do canal auditivo de cada cliente, usados nos maiores palcos do mundo.

Já a divisão de consumo é pura Logitech: caixas Bluetooth em cores vibrantes, vendidas em grandes varejistas, projetadas para resistir a quedas, água e areia. É uma desconexão fascinante — como se a Ferrari também vendesse patinetes elétricos. Mas funciona, porque a marca construiu credibilidade nos dois extremos.

Jerry Harvey, o homem que começou tudo com peças de marca-passo e moldes de silicone, segue trabalhando em sua JH Audio, fiel à missão original. A Ultimate Ears que ele fundou tomou um caminho que ele jamais imaginou — mas a ideia central permanece intacta: colocar o melhor som possível o mais perto possível dos ouvidos de quem escuta. Seja num palco lotado ou numa caixa de som flutuando na piscina.

⌬ FIM · 5 min de leitura

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