A Ultimate Ears construiu sua reputação em cima de uma ideia simples e boa: caixas cilíndricas que tocam em 360 graus, aguentam qualquer maus-tratos e flutuam. A Everboom, lançada em 26 de junho de 2024, é a tentativa de encaixar mais um degrau entre a Megaboom e a Epicboom. Ela cumpre a parte da robustez com folga. Mas quando a What Hi-Fi e a SoundGuys ouviram música de verdade nela, chegaram à mesma conclusão desconfortável — e é uma conclusão que vale entender antes de importar uma.
Construção: aqui a UE não erra
São dois transdutores full-range ativos de 56,6 x 56,2 mm e dois radiadores passivos de 49,4 x 87 mm, dispostos para som omnidirecional. A UE informa que os ímãs usam praseodímio-neodímio 100% pós-consumo reciclado, e que o corpo é feito com 58% de plástico reciclado.
A proteção é IP67 — poeira total e 30 minutos submersa a um metro — com teste de queda de 1 metro e flutuação confirmada em banheira por TechRadar e What Hi-Fi. Vem com mosquetão (marcado, com humor involuntário, “não usar para escalada”) e base de borracha que brilha no escuro. São 960 g em 205 x 110 x 85 mm, e a garantia é de dois anos.
A bateria dura até 20 horas, medidas pela UE a 42% de volume. Carrega só por USB-C — e o cabo não vem na caixa, uma economia mesquinha num produto que estreou a US$ 249,99.
Um detalhe importante sobre o que ela não tem: sem entrada auxiliar, sem reprodução por USB, sem microfone, sem Wi-Fi e sem função power bank. Bluetooth 5.3 com alcance de até 55 metros e pareamento NFC por toque em Android. O codec é da classe SBC — nem aptX, nem LDAC, nem AAC declarado.
O que ela faz de bom
Volume, para começar. A UE especifica 90 dBC de máximo (91 com Outdoor Boost) e a TechRadar a chamou de “monstruosamente alta”, com vocais “brilhantes e nítidos”, grave “enfático embora não avassalador” e camadas de jazz que ficam distintas em vez de brigarem entre si. Deu 4 de 5 em som.
O PartyUp conecta a Everboom com Boom 3, Megaboom 3, Epicboom, Hyperboom e outras Everbooms; duas Everbooms formam um par estéreo real. O app BOOM traz EQ de 5 bandas com quatro presets, o recurso Megaphone (você fala pela caixa, com cerca de 1 segundo de atraso) e o Magic Button, que dispara playlists de Spotify, Apple Music ou Amazon Music com um toque. Note: não há Auracast.
Onde a crítica bateu forte
A What Hi-Fi resumiu em uma frase: som “ousado e potente, mas sem refinamento”. Os elogios foram para a baixa distorção no volume máximo e para a projeção ao ar livre. As críticas foram específicas e severas: o Clair de Lune de Debussy soou “artificial, mecânico”, com o piano parecendo “um sintetizador elétrico”. Tool ficou “alto e na sua cara, mas, no fim, estranhamente sem alma”. A revista apontou espacialidade e leveza pobres, timing e dinâmica fracos, e um caráter “de bordas duras”. Deu 3 de 5 em som — e observou que a JBL Charge 5, muito mais barata, revelava bem mais textura de guitarra.
Aumentar o volume também revela alguma distorção perto do máximo, e mesmo assim ela não fica tão alta — você ainda consegue gritar por cima de qualquer música.
SoundGuys, review da UE Everboom (nota 6,0 de 10)
A SoundGuys foi ainda mais dura, com 6,0 de 10 e nota 4 em custo-benefício. O grave é “aceitável”, mas “você não vai exatamente chacoalhar nenhuma janela”. E identificaram o efeito colateral do formato omnidirecional: de frente para a caixa, você perde o detalhe dos agudos — o ataque percussivo da baqueta no prato de condução simplesmente não aparece. De lado, os agudos ficam mais claros, mas aí você ouve só um canal. É um compromisso inerente ao projeto 360°, e a Everboom não o resolve tão bem quanto deveria.
A conclusão da SoundGuys foi a mais dura de todas: a Everboom fica próxima demais da Megaboom, mais barata, para justificar o prêmio.
E no Brasil?
Aqui vem a informação prática mais importante: a Everboom não é vendida oficialmente no Brasil. A loja Logitech Brasil, revendedora oficial da UE, lista Miniroll, Wonderboom, Boom e Megaboom — e nenhuma Everboom. Comparadores de preço nacionais não retornam nenhuma oferta do modelo. No lançamento, o Canaltech já registrava “sem previsão de vendas no Brasil”.
Nos Estados Unidos ela estreou a US$ 249,99 e hoje está na loja oficial da UE por US$ 149,99 — uma queda de 40% que diz bastante sobre como o mercado a recebeu. Em conversão direta, isso dá cerca de R$ 780; com imposto de importação, ICMS e frete, uma unidade cinza realista sai entre R$ 1.400 e R$ 1.900.
E é exatamente nessa faixa que a conta não fecha. Por R$ 1.259 você compra uma JBL Xtreme 4 lacrada, com nota fiscal, garantia nacional, IP67, Auracast, bateria trocável e agudos francamente melhores. Por menos ainda, a UE Megaboom 4 chega oficialmente ao Brasil.
A Everboom é uma caixa honesta para quem valoriza som 360°, resistência absurda e o ecossistema PartyUp — e que ouve principalmente música eletrônica, pop e podcast ao ar livre, onde o refinamento importa menos que a projeção. Para escuta atenta, ou para quem vai pagar o preço de uma importação, existem escolhas melhores no próprio Brasil.