Música & Cultura 17 OUT 2026

Tivoli Audio: como Henry Kloss saiu da aposentadoria para reinventar o rádio de mesa

Da KLH ao Model One, a história da marca de Boston que fez do rádio analógico de madeira um ícone de design em plena era do streaming.

Rádio de mesa Tivoli Audio Model One com gabinete de madeira, dial de sintonia e botões de volume e fonte
MÚSICA & CULTURA

No ano 2000, quando o mercado já falava em MP3 e o rádio parecia coisa do passado, um engenheiro de 70 anos saiu da aposentadoria para desenhar justamente um rádio de mesa. Henry Kloss, o homem por trás da Acoustic Research, da KLH, da Advent e da Cambridge SoundWorks, se juntou ao amigo e sócio de longa data Tom DeVesto para fundar a Tivoli Audio em Massachusetts. O primeiro produto, o Model One, tinha um botão de volume, um seletor e um dial de sintonia. Vinte e seis anos depois, ele ainda está no catálogo.

O engenheiro que não sabia se aposentar

Para entender a Tivoli é preciso voltar a Kloss. Formado pelo MIT, ele entrou na Acoustic Research em 1952 e, ao lado de Edgar Villchur, ajudou a desenvolver a AR-1, a primeira caixa bookshelf de suspensão acústica, segundo o obituário publicado pela TNT-Audio em 2002. Contamos essa fase em detalhes na história da Acoustic Research.

Na KLH, Kloss lançou o Model 8, um rádio de mesa de boa seletividade que viraria a referência estética e técnica da Tivoli décadas depois. Na Advent, criou as caixas Small e Large Advent, o primeiro tape deck cassete com redução de ruído Dolby (o Advent 201, de 1971) e o projetor VideoBeam, que lhe rendeu um Emmy. Nos anos 1980 fundou com DeVesto a Cambridge SoundWorks, pioneira em sistemas subwoofer/satélite vendidos direto da fábrica. Kloss deixou a empresa em 1997, e ela passou ao controle da Creative Technology.

Model One: um botão a menos

A ideia da Tivoli era recriar e melhorar o rádio KLH monofônico com componentes modernos. Segundo a Wikipedia (fonte secundária), o Model One foi pensado para receber FM em áreas urbanas congestionadas e estações distantes, usando circuitos integrados comerciais com tecnologia MOSFET para aumentar a seletividade.

A ficha atual do Model One no site da Tivoli resume a filosofia: AM/FM, um alto-falante full range de 3 polegadas com potência de saída de 6 W, gabinete com duto de graves em madeira folheada, entrada auxiliar de 3,5 mm, saída de fone, saída de linha REC OUT e um dial de sintonia com redução de 5:1 para pegar até as estações mais fracas. A empresa descreve um circuito de contorno de frequência que ajusta a saída em incrementos de meia oitava. Nada de tela, presets ou aplicativo.

Um botão para a fonte, um botão para o volume e um dial de sintonia com relação de 5:1 para ajudar a trazer até as estações mais fracas.

Tivoli Audio, página oficial do Model One (tradução livre)

Kloss não viu a marca crescer: morreu em 31 de janeiro de 2002, em Cambridge, aos 72 anos. DeVesto seguiu adiante e a Tivoli construiu um catálogo inteiro em cima do Model One.

De um rádio a um catálogo

A cronologia compilada pela Wikipedia lista o Model Two estéreo em 2001, o portátil PAL (Portable Audio Laboratory) em 2002, o rádio-relógio Model Three em 2003, o SongBook em 2004 e o Music System, um sistema compacto completo, em 2006. Naquele ano, a marca já vendia em mais de 30 países. A virada para o streaming veio em etapas: Model One BT e PAL BT com Bluetooth em 2012, a coleção ART com Wi-Fi e Spotify Connect em 2016 e o Model One Digital em 2017. Em 2019, a empresa abriu uma loja-conceito na Newbury Street, em Boston.

O design ficou como assinatura: gabinete de madeira, painel frontal simétrico, botões grandes. As parcerias com hotéis como Ritz-Carlton, Marriott e Ace e colaborações com marcas como Supreme e Coach mostram que o Model One virou objeto de decoração tanto quanto aparelho de som.

Troca de comando

Em fevereiro de 2015, a publicação do setor Strata-gee noticiou a saída de Tom DeVesto do comando; ele ficaria como consultor de design, e Lisa Kaufman, sócia da Levy Capital Partners, assumiu como CEO interina. No mesmo ano, segundo a PE Professional, a canadense Serruya Private Equity comprou a empresa, que mais tarde passou por uma aquisição liderada pela própria gestão, de acordo com a Strata-gee. Hoje, o CEO é Paul De Pasquale, que assina textos de design no blog oficial da marca, como o que explica a criação do Model One+ com DAB.

A página institucional da Tivoli diz que a empresa “nasceu em Boston em 2000 com apenas um rádio” e lista escritórios em Boston, Utrecht (Holanda), Melbourne (Austrália) e Tóquio.

A Tivoli de 2026

O catálogo atual mantém o Model One analógico ao lado de versões conectadas. O Model One BT acrescenta Bluetooth 5.1 ao mesmo alto-falante de 3 polegadas e 6 W. O Model One Digital Generation 3 traz Wi-Fi com AirPlay e Google Cast, DAB+/FM nos mercados onde há DAB, Bluetooth 5.2, tela, controle remoto e alarme, com um alto-falante de 3 polegadas e 20 W segundo a marca.

A família SongBook, renovada em 2023, mostra a marca indo além do rádio. A ficha do SongBook MAX lista três alto-falantes (subwoofer de 4″, médio de 4″ e tweeter de 0,75″), 50 W de potência de saída, Bluetooth 5.3, rádio FM/DAB+, equalizador analógico de três faixas (±6 dB) e entrada de 6,35 mm com pré-amplificador comutável para guitarra, além de bateria de até 10 horas e proteção IPX4, segundo a Tivoli.

Por que a Tivoli importa

A Tivoli não inventou o rádio de mesa, mas provou que dava para vender um aparelho mono, analógico e caro em plena era digital, apostando em sintonia bem resolvida, gabinete de madeira e controles que qualquer pessoa entende. Num mercado em que caixas inteligentes se parecem cada vez mais umas com as outras, a marca segue fiel à ideia de Kloss: fazer menos coisas e fazê-las bem. No Brasil, os produtos chegam principalmente por importação; antes de comprar, confira a faixa de FM e a voltagem da fonte do modelo.

Fontes

⌬ FIM · 5 min de leitura

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