Música & Cultura 07 OUT 2026

TEAC e TASCAM: a história da marca que levou o estúdio multipista para dentro de casa

Dos gravadores de rolo dos irmãos Tani, em 1953, ao Portastudio 144 que gravou Nebraska, passando pelo DA-88, pela hi-end Esoteric e pelos anos sob controle da Gibson: como a TEAC democratizou a gravação.

Mixer, gravador e interface TASCAM Model 12 com laterais de madeira, herdeiro atual do conceito do Portastudio
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Se você já gravou uma demo em casa, sobrepondo voz, violão e uma linha de baixo sem pisar num estúdio, deve um pedaço disso a uma empresa japonesa que começou fazendo gravadores de rolo para um público que mal existia. A TEAC, e sobretudo sua divisão profissional TASCAM, transformou a gravação multipista de privilégio de estúdio em ferramenta de quarto. Sete décadas depois, a empresa sobreviveu à morte da fita, à passagem pelas mãos da Gibson e à guerra de preços das interfaces USB.

Duas empresas, dois irmãos

A história oficial, no histórico corporativo da TEAC, começa em agosto de 1953, quando é fundada em Musashino, Tóquio, a Tokyo Television Acoustic (東京テレビ音響), dedicada a equipamentos semiprofissionais de gravação e reprodução. O nome por trás dela era Katsuma Tani, engenheiro com formação em aeronáutica. Vale corrigir uma confusão comum: Katsuma é o nome do fundador, não de uma “Katsuma Electric”.

Em dezembro de 1956 nasce a segunda peça, a Tokyo Electro-Acoustic (東京電気音響), em Sumida, voltada a equipamentos de medição, ópticos e aplicações de fita magnética. A ligação era familiar: segundo relatos históricos, o irmão Tomoma Tani teria levado para casa um gravador estéreo artesanal de três motores e três cabeças que acendeu em Katsuma a ideia de fazer algo melhor. Em 1959 as duas empresas passam a fabricar gravadores juntas; em 1962 adotam os nomes TEAC Audio e TEAC Corporation; em outubro de 1964 se fundem sob o nome que ficou, sigla de Tokyo Electro-Acoustic Company.

Detalhe pouco lembrado: em 1961 a TEAC assinou acordo técnico com a IBM para produzir no Japão unidades de memória em fita magnética. Dados e áudio caminhariam juntos na empresa por décadas, de drives de disquete a gravadores de dados.

A era do rolo e do cassete

Em 1963 sai do papel uma fábrica em Iruma dedicada a gravadores de rolo de alto padrão, e em 1967 a empresa abre a TEAC Corporation of America. Nos anos 1970, decks de rolo de quatro pistas com sincronização para overdub, como os da linha A-3340 e A-3440, chegaram às casas de músicos que queriam gravar uma parte por cima da outra. Paralelamente, a marca virou presença constante nas estantes hi-fi com seus tape decks cassete.

TASCAM: a ponte para o músico

No fim dos anos 1960, os irmãos Tani e o engenheiro Dr. Abe montaram um grupo de pesquisa chamado TASC (TEAC Audio Systems Corporation) para aplicar a tecnologia de gravação da empresa a músicos e estúdios. Em 1971 surge a TASCAM, sigla de TASC AMerica Corp., para distribuir esses produtos nos EUA; a própria marca lembra 1971 como seu ano de nascimento nas comemorações de 50 anos, em 2021. Segundo a cobertura do aniversário, em 1974 TASCAM passou a ser o nome de todos os produtos de gravação da TEAC voltados a músicos e estúdios.

Portastudio 144: o estúdio cabe na mesa

O momento decisivo veio em 22 de setembro de 1979, na convenção da AES em Nova York: o TEAC 144 Portastudio, primeiro gravador de quatro pistas baseado em fita cassete comum, com mixer 4×2 integrado. Ele rodava a 3¾ polegadas por segundo, o dobro da velocidade normal do cassete, o que melhorava a qualidade, mas impedia tocar a fita num deck comum. Custava US$ 899 nos EUA, segundo registros da época, fortuna para um amador, mas uma fração do preço de um multipista de rolo.

O impacto foi enorme. Bruce Springsteen gravou num 144 as demos que viraram o álbum Nebraska (1982), lançado praticamente como saiu daquele cassete. O Victoria and Albert Museum, em Londres, guarda no acervo o TEAC 144 que pertenceu a David Bowie. Em 2006 o Portastudio entrou para o TECnology Hall of Fame da revista Mix. Na nossa opinião, poucos aparelhos mudaram tanto quem pode fazer música.

Do digital ao bolso: DA-88 e gravadores portáteis

Em 1993 a TASCAM lançou o DA-88, multipista digital de oito canais que gravava em fitas Hi8 no formato DTRS e podia ser sincronizado com outras unidades. Ele virou padrão em pós-produção de TV e cinema e rendeu à empresa um Emmy técnico em 1995. A mesma lógica de levar gravação séria a mais gente reaparece nos portáteis: a linha DR (o DR-40 e o atual DR-40X) e o Portacapture X8, que segundo o fabricante grava em 32 bits de ponto flutuante, dispensando o ajuste prévio de nível, com até oito pistas. Falamos dessas técnicas no nosso guia de gravação portátil e field recording.

Esoteric: o lado hi-end

Em 1987 a TEAC lançou a marca Esoteric para o público audiófilo, estreando com o transporte de CD P-1 e o mecanismo VRDS, que prende o disco para reduzir vibração, segundo a imprensa especializada. Pelo histórico oficial, a divisão virou empresa separada em 2004, adotou o nome Esoteric Corporation em 2008 e foi reincorporada à TEAC em abril de 2024.

Gibson, independência e o presente

O histórico da TEAC confirma: em março de 2013 a empresa fechou acordo de capital com a Gibson Guitar e, em maio, após oferta pública, tornou-se subsidiária da fabricante de guitarras. A participação anunciada na época era de 54,4%. Depois da recuperação judicial da Gibson em 2018, o controle mudou de novo: em junho de 2020 a Global Acoustic Partners concluiu oferta pela TEAC e repassou as ações ao EVO FUND, que as vendeu em julho, quando a TEAC deixou de ter controlador majoritário. Hoje ela é listada no segmento Standard da Bolsa de Tóquio e também atua em gravadores de dados, imagem médica e entretenimento de bordo.

No catálogo de áudio, o DAC e streamer UD-701N usa conversor discreto próprio, o TRDD 7, segundo a TEAC. Na TASCAM, as interfaces US-1x2HR, US-2x2HR e US-4x4HR trabalham até 24 bits/192 kHz com pré-amplificadores Ultra-HDDA, e o Model 12 combina mixer, gravador de 12 pistas em cartão SD e interface USB 12×10, herdeiro direto da ideia do Portastudio. Para comparar com a concorrência, veja nosso ranking de interfaces de áudio.

Fontes

⌬ FIM · 6 min de leitura

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