Sidney N. Shure tinha 23 anos e uma ideia simples: vender kits de peças para montar rádios AM pelo correio. Em 25 de abril de 1925, ele abriu a Shure Radio Company em Chicago com pouco mais que um catálogo e uma mesa. Ninguém — muito menos o próprio Sidney — imaginava que aquele negócio de uma pessoa se tornaria a fabricante dos microfones mais usados da história, presentes em púlpitos presidenciais, palcos de rock, cabines de estúdio e campos de batalha.
Da crise do rádio ao primeiro microfone
O negócio de kits de rádio prosperou rapidamente. Em 1928, a empresa já empregava mais de 75 pessoas e ganhou um novo sócio: Samuel, irmão de Sidney, que batizou a firma como Shure Brothers Company. Mas quando a Grande Depressão chegou em 1929 e rádios prontos de fábrica ficaram baratos o suficiente para tornar os kits obsoletos, Sidney precisou reinventar o negócio.
A saída foi distribuir microfones para a Ellis Electrical Laboratories — e rapidamente Sidney percebeu que fabricar seria mais lucrativo que revender. Em 1932, o engenheiro Ralph Glover projetou o Model 33N, o primeiro microfone Shure, posicionando a empresa entre apenas quatro fabricantes de microfones nos Estados Unidos.
O Unidyne 55: o microfone que mudou tudo
Em 1939, o engenheiro Ben Bauer criou para a Shure o Model 55 Unidyne — o primeiro microfone unidirecional com um único elemento dinâmico. Antes dele, microfones direcionais exigiam dois elementos e eram caros e frágeis. O Unidyne democratizou a captação direcional e se tornou um dos microfones mais reconhecíveis do mundo, com sua carcaça cromada art déco que apareceu nas mãos de Elvis Presley, Martin Luther King Jr. e Harry Truman.
O formato do Unidyne 55 é tão icônico que até hoje é usado como símbolo universal de microfone em emojis, placas e ilustrações.
Segunda Guerra Mundial: da música ao campo de batalha
Quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra Mundial, a Shure foi contratada pelas Forças Armadas para produzir microfones militares. O T-17B se tornou o microfone mais usado pelo Exército e pela Marinha americanos — um contrato que deu à empresa escala industrial e reputação de durabilidade que seriam fundamentais nas décadas seguintes.
Ao mesmo tempo, a Shure diversificou para cápsulas de toca-discos, chegando a produzir 28 mil unidades por dia em meados dos anos 1940 — tornando-se a maior fabricante de cápsulas dos EUA.
SM57 e SM58: os microfones que se recusam a morrer
Em 1959, a Shure lançou a cápsula Unidyne III no microfone 545, que seria a base para as duas criações mais importantes da empresa. O SM57 chegou em 1965, seguido pelo SM58 em 1966 — ambos projetados para uso em estúdio de broadcast, com acabamento fosco não reflexivo e sem chave on/off.
O detalhe irônico é que o SM58 foi um fracasso inicial. Estúdios de rádio e TV já tinham seu microfone padrão e não estavam interessados. A Shure quase descontinuou o modelo até que um gerente de vendas sugeriu levá-lo para os engenheiros de som ao vivo em Las Vegas. Os artistas de Vegas adotaram o SM58 imediatamente, e o resto é história.
Desde então, o SM57 está em cada púlpito presidencial americano — de Lyndon Johnson a todos os que vieram depois — e o SM58 se tornou o microfone vocal de palco mais usado do planeta. Paul McCartney, Bruce Springsteen, Beyoncé, Roger Daltrey: todos cantaram num SM58. A Shure produz ambos os modelos ininterruptamente há 60 anos, com mudanças mínimas no design original.
A era moderna: wireless, earphones e conferência
A Shure acompanhou cada transformação do áudio profissional. Em 1953, lançou seu primeiro sistema de microfone wireless. Em 1989, introduziu a série Beta com padrão supercardioide. Nos anos 2000, entrou no mercado de fones in-ear com a série SE — os SE215 se tornaram referência para músicos em palco e audiófilos de entrada. A linha AONIC expandiu a presença da marca no mercado de fones com cancelamento de ruído e fones wireless.
Em 2020, a Shure adquiriu a Stem Audio para entrar no mercado de conferência corporativa — uma aposta no áudio profissional que vai além do palco e do estúdio.
100 anos como empresa familiar
Sidney N. Shure morreu em 1995, aos 93 anos. Sua esposa, Rose L. Shure, assumiu a presidência do conselho e manteve a empresa independente e familiar. Em 2016, Christine Schyvinck se tornou presidente e CEO — a primeira pessoa fora da família Shure a liderar a empresa.
Em 2025, a Shure completou 100 anos. Continua sediada na região de Chicago (Niles, Illinois), num edifício projetado pelo arquiteto Helmut Jahn, e continua fabricando os mesmos SM57 e SM58 que seu engenheiro desenhou em 1965. Poucas empresas de áudio — ou de qualquer indústria — podem dizer o mesmo.