Num mercado de IEMs cada vez mais obcecado por empilhar drivers — três, cinco, doze armaduras balanceadas e um planar por via das dúvidas — a Sennheiser faz uma aposta ousada com o IE 900: um único driver dinâmico de 7 mm. E funciona. Funciona assustadoramente bem.
Design e construção
A carcaça é inteiramente usinada em alumínio, com acabamento acetinado que transmite qualidade imediata ao toque. É compacta, leve e ergonômica. O sistema de encaixe por MMCX gira com suavidade, e o cabo incluso em para-aramida trançada é um dos melhores que já acompanharam um IEM de fábrica — não enrosca, não transmite microfonia e tem presilha de camisa.
Na caixa vêm três pares de tips em silicone (S/M/L), três pares em espuma, um adaptador 4,4 mm balanceado, um estojo rígido em couro e um limpador de cera. O pacote é completo e à altura do preço.
O segredo: câmaras de ressonância
Por dentro da carcaça, a Sennheiser posiciona três câmaras acústicas que funcionam como ressonadores de Helmholtz em miniatura. Elas absorvem frequências indesejadas e suavizam picos que um driver dinâmico nu apresentaria. O resultado é uma curva de resposta notavelmente plana para um single-driver — sem o crossover phase issue que sistemas multi-driver inevitavelmente introduzem.
Som
Os graves do IE 900 são seu cartão de visita. Sub-bass desce com autoridade até 5 Hz, com textura e camadas que você sente fisicamente. Não é um grave de IEM consumer inflado — é bass audiófilo, onde cada nota de contrabaixo tem corpo e cada kick tem impacto sem borrar o que vem acima.
Os médios são límpidos, com leve recessão na região de 1-3 kHz que afasta vocais meio milímetro do ouvido. Isso cria uma apresentação menos “in your face” e mais de palco, o que favorece orquestras e bandas com muitos instrumentos.
Os agudos sobem até 48 kHz e na prática entregam extensão e ar impressionantes. Pratos de bateria cintilam, cordas de violino têm aquele brilho sedoso sem nunca chegar perto da sibilância. É uma das assinaturas de agudo mais refinadas que já ouvimos em IEM.
O soundstage é surpreendentemente amplo para um IEM — a sensação é de ouvir monitores de campo próximo, não algo plugado dentro do ouvido.
Amplificação
Com apenas 18 Ω e sensibilidade generosa, o IE 900 roda bem até em celulares. Mas um bom dongle como o FiiO KA5 ou o iFi GO bar extrai mais dinâmica e controle de grave.
Para quem é
O IE 900 é para o audiólogo que quer o máximo de um IEM sem a complexidade e os artefatos de sistemas multi-driver. É caro? É. Mas é um daqueles produtos que você compra uma vez e para de procurar.
Se você precisa de um único IEM para o resto da vida, o Sennheiser IE 900 é candidato fortíssimo. A coerência de um driver só, aliada à engenharia acústica da Sennheiser, resulta em algo especial.
Marcelo Ribeiro, Guia do Áudio