Música & Cultura 25 SET 2026

A história da RØDE: do quase fim à marca dos criadores de conteúdo

Como uma pequena empresa de sonorização de Sydney, salva por um microfone apelidado de "Rodent-1", virou o grupo que equipa podcasters e videomakers no mundo todo.

MÚSICA & CULTURA

Poucas marcas de áudio mudaram tanto a vida de quem grava em casa quanto a RØDE. Se você tem um podcast, faz vídeos para o YouTube ou já prendeu um microfone de lapela sem fio na camisa de alguém, é bem provável que um produto da empresa australiana tenha passado pelas suas mãos. O curioso é que essa potência global nasceu de uma pequena oficina de som num subúrbio de Sydney e de uma aposta quase desesperada, feita por um filho que herdou um negócio à beira da falência.

Da Suécia para Sydney

A história começa com Henry Freedman, engenheiro de som nascido em Londres, e sua esposa sueca, Astrid. O casal vivia em Estocolmo desde 1952 e, em 1966, emigrou para a Austrália com o filho, Peter. No ano seguinte, em 1967, fundaram a Freedman Electronics, com uma loja no subúrbio de Ashfield, em Sydney, onde projetavam e fabricavam equipamentos de áudio e prestavam serviços de sonorização.

O trabalho era essencialmente de som ao vivo. A própria RØDE gosta de lembrar que, em 1968, Henry Freedman fez a mixagem de Tom Jones durante a turnê do cantor pela Austrália. Esse passado de palco ajuda a entender uma decisão tomada mais de meio século depois, como veremos adiante.

A crise e o “Rodent-1”

Henry morreu em 1987, e Peter Freedman assumiu a empresa. Faltava experiência em gestão, e o fim dos anos 1980 foi economicamente duro na Austrália. A Freedman Electronics chegou muito perto da falência. A saída veio de uma viagem: numa feira na China, Peter encontrou um microfone condensador de diafragma largo e decidiu importá-lo e modificá-lo para o mercado australiano.

O apelido informal do produto era “Rodent-1”. Dele saiu o nome definitivo: RØDE NT1, lançado em 1990, ano que marca oficialmente o nascimento da marca. O “Ø” no lugar do “O” foi uma homenagem às raízes escandinavas da família e, de quebra, deu um ar europeu a um produto de uma empresa australiana. O NT1 se tornou, nas palavras da própria RØDE, um dos microfones mais vendidos de todos os tempos, e o NT2 chegou logo depois, em 1992.

O mais importante nessa virada não foi o microfone em si, mas o que ele permitiu. Com o caixa recuperado, a empresa passou a trazer a fabricação para dentro de casa, investindo pesado em usinagem de precisão e controle de qualidade próprios em Sydney. Essa integração vertical, rara num mercado em que muita gente apenas terceiriza e coloca a marca, virou o principal argumento da RØDE: preço de microfone de entrada com construção e consistência de produto profissional.

A marca que previu os criadores de conteúdo

Se os anos 1990 foram do home studio musical, os anos 2000 mostraram que a RØDE tinha faro para o que vinha pela frente. No fim de 2004 veio o VideoMic, apresentado pela empresa como o primeiro microfone shotgun compacto para montar em cima da câmera. Parece trivial hoje, mas na época resolveu o problema de quem filmava com câmeras cujo microfone embutido era, para dizer o mínimo, sofrível. A família VideoMic virou praticamente sinônimo de áudio para vídeo independente.

Em 2007, meses depois de a palavra “podcasting” ganhar popularidade, a RØDE lançou o Podcaster, um microfone dinâmico USB pensado para quem gravava direto no computador. Em 2015 a empresa apresentou o sistema digital sem fio RØDELink, e em 2018 fez talvez sua jogada mais ousada: o RØDECaster Pro, anunciado como o primeiro console dedicado à produção de podcasts, com canais para vários microfones, pads de efeitos e gravação direta em cartão.

Em 2019 veio o Wireless GO, um transmissor minúsculo com microfone embutido que dava para prender na roupa. Ele e os sucessores Wireless GO II e Wireless PRO transformaram o áudio sem fio em algo acessível para youtubers, jornalistas e videomakers, e ajudaram a definir a estética de milhões de vídeos gravados com celular. Não é exagero dizer que a RØDE entendeu o criador de conteúdo antes de muita gente dar esse nome a ele.

De fabricante de microfones a grupo de áudio

Com o crescimento, a Freedman Electronics passou a comprar outras marcas. Em 2006 incorporou a Event Electronics, fabricante de monitores de estúdio. Também passou a controlar a americana Aphex, conhecida por processadores de áudio como o Aural Exciter. Em novembro de 2016 comprou a britânica SoundField, referência em microfones ambisônicos (captação em 360 graus), da TSL Products.

O movimento mais simbólico veio em dezembro de 2023, com a aquisição da Mackie, a marca americana de mesas de som ProFX e caixas amplificadas Thump. Peter Freedman fez questão de citar o próprio passado em sonorização ao vivo para justificar o negócio, fechando um ciclo que começou com o pai mixando shows nos anos 1960. Em maio de 2025, o Freedman Group anunciou a compra da Lectrosonics, pioneira americana de sistemas sem fio profissionais fundada em 1971, incluindo sua fábrica em Rio Rancho, no Novo México. A motivação declarada foi ter produção nos Estados Unidos em meio às disputas de tarifas de importação.

A RØDE hoje

A sede continua em Sydney, agora no bairro de Silverwater, e a empresa informa mais de 800 funcionários e presença em 119 países. Peter Freedman, que recebeu o título AM (Membro da Ordem da Austrália), segue como fundador e figura pública da marca, enquanto Damien Wilson ocupa o cargo de CEO do grupo.

O que torna a trajetória interessante não é só o sucesso comercial. É a coerência: a RØDE sempre apostou em democratizar ferramentas que antes eram de estúdio profissional, do condensador acessível dos anos 1990 ao sistema sem fio de bolso dos anos 2020. Dá para discutir se esse ou aquele produto é o melhor da categoria, mas é difícil negar que o áudio de criadores independentes soaria bem pior sem ela.

O microfone que salvou a empresa começou como um apelido de brincadeira: “Rodent-1”.

Origem do nome RØDE NT1

⌬ FIM · 5 min de leitura

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