Música & Cultura 08 JUL 2026

Philips: A Fábrica Holandesa que Inventou Como o Mundo Ouve Música

Da Compact Cassette ao CD, a Philips não apenas fabricou aparelhos de som — ela criou os formatos que definiram décadas inteiras de consumo musical.

MÚSICA & CULTURA

Poucas empresas na história da tecnologia podem reivindicar ter mudado a forma como a humanidade inteira ouve música — não uma, mas duas vezes. A Philips, fundada em 1891 em Eindhoven, na Holanda, por Gerard Philips e seu pai Frederik, começou fabricando lâmpadas incandescentes. Mas ao longo do século XX, a empresa holandesa se tornaria a maior força criativa por trás dos formatos de áudio que definiram gerações: a fita cassete e o compact disc.

Dos Rádios aos Laboratórios de Som

O salto da Philips para o áudio começou nos anos 1920. O primeiro receptor de rádio Philips apareceu em 1927, e em apenas seis anos a empresa se tornou a maior fabricante de rádios e válvulas do mundo. O Philips NatLab — o lendário laboratório de pesquisa da empresa, fundado em 1914 — foi o berço de inovações que iam de materiais magnéticos a cerâmicas avançadas, passando por gramofones e aparelhos auditivos no pós-guerra.

Mas foi na década de 1960 que a Philips fez sua primeira revolução no áudio.

A Compact Cassette: Uma Fita que Mudou Tudo

Em 28 de agosto de 1963, na Funkausstellung (Feira de Rádio) de Berlim, a Philips apresentou ao mundo um pequeno dispositivo que caberia no bolso de um casaco: a Compact Cassette. Desenvolvida por uma equipe liderada pelo engenheiro Lou Ottens na fábrica de Hasselt, na Bélgica, a cassete compacta venceu um design concorrente de fita com um único carretel, produzido pela filial de Viena.

O primeiro gravador, o Philips EL 3300, chegou ao mercado junto com as fitas. Nos Estados Unidos, o produto foi lançado em novembro de 1964 sob a marca Norelco, com o modelo aprimorado EL 3301, batizado de “Norelco Carry-Corder 150”.

A jogada mais brilhante da Philips não foi inventar a cassete — foi licenciá-la gratuitamente. Essa decisão estratégica garantiu que o formato se tornasse padrão mundial antes que qualquer concorrente pudesse reagir.

Análise histórica

Pressionada pela Sony, a Philips optou por um licenciamento aberto e gratuito do formato. O resultado foi devastador para a concorrência: até 1966, mais de 250 mil gravadores de cassete compacta haviam sido vendidos apenas nos EUA. O formato rival DC-International, da Grundig, foi descontinuado em 1967. A cassete Philips reinaria por mais de três décadas.

O Compact Disc: A Revolução Digital

A segunda grande invenção da Philips no áudio começou de forma modesta em 1969, quando o engenheiro Kees Wols iniciou pesquisas sobre armazenamento óptico no laboratório Philips ELA, trabalhando com Hajo Meyer e Eddy de Haan. Em 1972, Lou Ottens — o mesmo criador da cassete — encomendou um estudo de viabilidade sobre armazenamento óptico de música.

O projeto ganhou força ao longo dos anos 1970. A equipe migrou de lasers a gás para lasers semicondutores, adotou modulação digital de pulso de 14 bits e implementou o código de correção de erros CIRC (Cross-Interleaved Reed-Solomon Code). Em 1977, Joop van Tilburg rebatizou o projeto de “ALP” para “Compact Disc”, e Joop Sinjou foi nomeado para liderar o laboratório dedicado ao CD.

Em 8 de março de 1979, a Philips apresentou o primeiro protótipo funcional — apelidado carinhosamente de “Pinkeltje” — em uma coletiva de imprensa em Eindhoven. Logo depois, em abril de 1979, Akio Morita, da Sony, procurou a Philips para propor uma colaboração. Entre agosto de 1979 e junho de 1980, seis reuniões estratégicas em Eindhoven e Tóquio definiram as especificações do formato. Em abril de 1981, uma demonstração conjunta em Salzburgo, com o maestro Herbert von Karajan, selou a aliança.

O CD chegou ao mercado do Japão e da Europa no outono de 1982, e aos Estados Unidos na primavera de 1983. O Philips CD-100 foi o primeiro player da marca, lançado em março de 1983. O formato que Philips e Sony criaram juntas dominaria a indústria musical por mais de duas décadas.

DCC, SACD e os Formatos que Não Vingaram

A Philips tentou repetir a mágica. Em 1992, lançou a Digital Compact Cassette (DCC) — uma fita digital retrocompatível com cassetes analógicas, co-desenvolvida com a Matsushita. Mas a DCC enfrentou a concorrência direta do MiniDisc da Sony e nunca conquistou o mercado. Foi silenciosamente descontinuada em outubro de 1996.

Philips e Sony se reuniram mais uma vez em 1999 para lançar o Super Audio CD (SACD), um formato de alta resolução descrito no chamado “Scarlet Book”. O primeiro player SACD chegou ao mercado norte-americano em dezembro de 1999, custando impressionantes US$ 8.000. Apesar da qualidade sonora superior, o SACD permaneceu um nicho audiófilo.

O Adeus ao Áudio

Em janeiro de 2013, a Philips tentou vender sua divisão de áudio e vídeo para a japonesa Funai Electric por 150 milhões de euros, mas o acordo foi rompido por violação de contrato. Em abril de 2014, a divisão de eletrônicos de consumo — então chamada WOOX Innovations — foi vendida para a Gibson Brands por US$ 135 milhões, com licenciamento da marca Philips por um período inicial de sete anos.

Hoje, a Philips se concentra em tecnologia médica e saúde. Os produtos de áudio que levam seu nome são fabricados e comercializados por licenciados. Mas o legado é inapagável: cada vez que alguém pressiona play em qualquer formato de mídia física, está, de alguma forma, usando uma invenção que nasceu em Eindhoven. Lou Ottens, que faleceu em 2021, deixou ao mundo não um, mas dois formatos que mudaram para sempre a forma como ouvimos música.

⌬ FIM · 5 min de leitura

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