Música & Cultura 27 OUT 2026

Peavey: como Hartley Peavey fez de Meridian, no Mississippi, uma potência do som ao vivo

Do primeiro amplificador de 1957 ao 5150 de Van Halen, da Crest Audio ao MediaMatrix: os 60 anos da fabricante que continua independente e com sede na cidade natal do fundador.

Músico carrega pela alça um amplificador combo Peavey Bandit 112 preto, com uma guitarra Peavey ao fundo
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Poucas marcas de áudio carregam o nome da cidade natal com tanta teimosia quanto a Peavey. Fundada em 1965 por Hartley Peavey em Meridian, no Mississippi, ela nunca saiu de lá: atravessou seis décadas de amplificadores de guitarra, sistemas de PA, guitarras feitas em máquinas guiadas por computador, a parceria com Eddie Van Halen e uma virada para o processamento digital em rede. Fez tudo isso, segundo a própria empresa, como “a maior fabricante independente do setor”.

Do balcão da loja do pai ao primeiro amplificador

Hartley Peavey nasceu em 1941 em Meridian. Segundo a linha do tempo oficial da empresa, herdou as primeiras ferramentas do avô, J.L. Peavey, e foi o aluno mais jovem a se matricular na escola vocacional Ross Collins. Trabalhava na Peavey’s Melody Music, a loja de instrumentos do pai, quando um show de Bo Diddley o convenceu a ser guitarrista de rock. Em 1957 eletrificou o próprio violão e construiu o primeiro amplificador Peavey.

O marcador oficial da Mississippi Blues Trail, instalado em frente à sede, completa a cronologia: o primeiro amplificador com a marca Peavey é de 1961, a primeira patente saiu em 1964 e a produção artesanal de amplificadores de guitarra e baixo começou em 1965, quando a empresa abriu como, nas palavras da Peavey, um negócio de um homem só.

O PA que pagou as contas

A virada não veio da guitarra. Em entrevista à Guitar World em março de 2025, Courtland Gray, hoje CEO e genro do fundador, contou que as lojas recusavam mais um amplificador e pediam sistemas de PA. “Então o Hartley olhou alguns dos principais que já existiam, como o Shure Vocal Master”, disse Gray. A conclusão foi que dava para fabricar algo parecido e vender bem mais barato. A Peavey entrou em PA em 1968, e esse é, segundo Gray, o produto que de fato lançou a empresa.

Guitarras feitas por computador

Em 1977 a Peavey começou a produzir a guitarra T-60 e o baixo T-40. Segundo o marcador da Blues Trail, no ano seguinte ela já estava entre as maiores fabricantes de guitarras dos Estados Unidos, e as técnicas de produção em massa guiadas por computador que usava “logo foram adotadas em toda a indústria”. Em 1988 Hartley entrou para o Hall da Fama da NAMM, a associação do varejo de instrumentos musicais. Em 1989 nasceu a divisão Architectural Acoustics, voltada a sonorização instalada. Em 1990, nos 25 anos da empresa, foi inaugurada a sede internacional em Meridian.

5150, Wolfgang e o rompimento com Van Halen

O capítulo mais famoso começou em 1992, com o amplificador 5150, assinatura de Eddie Van Halen. Em 1996 veio a guitarra Wolfgang. Sobre o fim da parceria, Gray deu à Guitar World a versão da empresa: a Peavey lançou um amplificador assinado por Joe Satriani, o JSX, e “o Eddie ficou incomodado porque tínhamos outro superstar na nossa lista”. O guitarrista saiu levando o nome 5150. A Peavey manteve o projeto e o rebatizou de 6505, referência a 1965 e ao aniversário de 40 anos em 2005. A Wolfgang deu lugar à HP 2. É a versão de quem ficou.

Crest, MediaMatrix e o lado que pouca gente vê

Longe dos palcos de metal, a Peavey construía um negócio menos visível. Em 1993, no AES Show de Nova York, lançou o MediaMatrix, que a empresa descreve como o primeiro sistema de áudio distribuído configurado e controlado digitalmente. Em entrevista à revista SCN/AVNetwork em março de 2026, Gray contou que a tecnologia veio de uma startup que procurou a Peavey para distribuí-la. Parte da casa resistiu, por ver a Peavey como fabricante de hardware, mas Hartley bancou a aposta. Em 1999 a Peavey comprou a Crest Audio, de amplificadores de potência para turnês. As duas marcas formam hoje a Peavey Commercial Audio, presente, segundo a empresa, em mais de 10 mil instalações. O portfólio inclui ainda Budda, comprada em 2009 segundo a Guitar.com, e Trace Elliot.

Globalização, leilão e encolhimento

A independência teve custo. Em 2014 a empresa anunciou uma reorganização global da manufatura: fábricas americanas dedicadas a produtos premium e o restante da produção mais perto dos mercados. “No mercado global de hoje, é imperativo operarmos da forma mais eficiente possível”, disse Hartley à FOH na época. Em 2019, a audioXpress noticiou um leilão de mais de US$ 12 milhões em máquinas, peças e estoque, resultado do fechamento e da consolidação de fábricas nos EUA. A justificativa da empresa foi direta: “Simplesmente não dá para despachar caixas grandes pelo mundo e ser competitivo”. Sede e engenharia continuaram em Meridian.

O reconhecimento local veio na mesma época. Em 2013, a Peavey ganhou um marcador na Mississippi Blues Trail, o único da rota dedicado a um fabricante. O texto cita Luther Dickinson, do North Mississippi Allstars: “Peavey é o som do juke joint do Mississippi”.

Como está a Peavey em 2026

A empresa completou 60 anos em 2025 e, segundo comunicado reproduzido pela ProSoundWeb, distribui mais de 2.000 produtos em 136 países e soma mais de 180 patentes. Não encontramos registro público de venda, aquisição ou mudança de controle até outubro de 2026. O que mudou foi a gestão: a página institucional lista Hartley D. Peavey como fundador e presidente do conselho, Mary Peavey como presidente e Courtland Gray como CEO. Gray, há 24 anos na casa, foi COO e CFO e explica o título com humor: segundo ele, o fundador passou a chamá-lo de CEO “em alguns e-mails”, e ele adotou o cargo.

O ano de 2026 trouxe o Scion, terceira geração de processadores MediaMatrix, e uma série de pedais de pré-amplificação que recriam circuitos antigos da casa. Também trouxe um sinal de cautela: em maio, a Peavey Commercial Audio cancelou sua participação na InfoComm 2026, citando a situação econômica e geopolítica. Para quem acompanha a trajetória de marcas como a Marshall e a Mackie, ambas hoje sob outros donos, a Peavey segue sendo exceção: a empresa de família que ainda responde a Meridian.

Fontes

⌬ FIM · 6 min de leitura

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