Londres, 1972. Um grupo de importadores europeus de equipamentos de áudio se reuniu com uma frustração em comum: eles vendiam aparelhos de som excelentes, mas caríssimos, e aparelhos baratos, mas medíocres. O meio-termo — som realmente bom a um preço que pessoas normais pudessem pagar — simplesmente não existia. Daquela insatisfação coletiva nasceu a NAD, sigla para New Acoustic Dimension. E o homem que chamaram para transformar essa ideia em realidade foi o Dr. Martin L. Borish, um físico americano com doutorado e um currículo que já incluía a presidência da lendária Acoustic Research.
O Físico e o Engenheiro
Borish não era um empresário qualquer. Antes de fundar a NAD, ele já havia aberto sua primeira loja de hi-fi em Nova Jersey em 1956 — uma época em que a alta fidelidade ainda era território de engenheiros e excêntricos. Ele entendia tanto a ciência do som quanto o mercado consumidor. E tinha uma convicção inabalável: a tecnologia necessária para reproduzir música com excelência já existia. O que faltava era a vontade de aplicá-la em produtos acessíveis.
Para o lado técnico, Borish encontrou seu parceiro ideal: o engenheiro norueguês Bjørn Erik Edvardsen. Enquanto Borish definia a filosofia e a estratégia, Edvardsen projetava os circuitos. Juntos, eles estabeleceram os quatro pilares que guiariam a NAD por décadas: inovação, desempenho, valor e simplicidade. Nada de painéis frontais cheios de botões inúteis. Nada de potência inflacionada nas especificações. Nada de gabinetes luxuosos que encareciam o produto sem melhorar o som.
O 3020: Uma Revolução Silenciosa
Em 1978, Edvardsen entregou o projeto que mudaria a história da NAD — e, pode-se argumentar, a história do áudio doméstico. O amplificador integrado NAD 3020 era, à primeira vista, tudo o que o mercado hi-fi desprezava: um aparelho pequeno, feio até, com apenas 20 watts por canal e um painel frontal tão austero que parecia incompleto. Em uma era de receivers japoneses reluzentes com VU meters dançantes e centenas de watts declarados, o 3020 era quase uma provocação.
Então as pessoas ligaram o aparelho.
O som que saía do 3020 era simplesmente extraordinário para o preço. Edvardsen havia projetado um circuito que priorizava a qualidade do sinal em vez da potência bruta. Os 20 watts eram honestos — e soavam como muito mais, graças a um projeto que entregava corrente generosa e mantinha baixíssima distorção. Críticos especializados ficaram boquiabertos. A revista Stereophile e outras publicações despejaram elogios. O público, que pela primeira vez podia comprar um amplificador audiófilo sem precisar de um segundo emprego, respondeu com as carteiras abertas.
O NAD 3020 tornou-se o amplificador de áudio mais vendido da história. Não de um ano. Não de uma década. Da história. Mais de um milhão de unidades foram comercializadas ao longo de sua vida produtiva, de 1978 a 1983. Ele provou, de forma irrefutável, que som excelente não precisa custar uma fortuna.
O 3020 não vendeu porque era barato. Vendeu porque era honesto. Ele entregava exatamente o que prometia — e prometia apenas o que podia entregar.
Sobre a filosofia de projeto de Bjørn Erik Edvardsen
Depois da Lenda
O sucesso do 3020 deu à NAD a credibilidade e o fôlego financeiro para expandir. A empresa lançou o deck de cassete 6100, um dos primeiros com Dolby C, e o CD player 5200, que aplicava a mesma filosofia de valor ao novo formato digital. Cada produto seguia a mesma receita: engenharia séria, design discreto, preço justo.
Mas a NAD não se acomodou no legado do 3020. Ao longo das décadas seguintes, a empresa continuou inovando com uma consistência rara no mercado de áudio. O amplificador digital M2, lançado em parceria com a empresa dinamarquesa Purifi, redefiniu o que amplificação digital poderia soar. A série Masters — encabeçada por modelos como o M33 e o M10 — levou a marca ao território do áudio de referência, sem abandonar a filosofia de oferecer o máximo de desempenho pelo dinheiro investido.
De Londres ao Canadá
Em 1999, a NAD foi adquirida pelo Lenbrook Group, sediado em Pickering, Ontario, no Canadá. A mudança de mãos poderia ter diluído a identidade da marca — é o que acontece com a maioria das aquisições no mundo do áudio. Mas o Lenbrook entendeu que o valor da NAD estava justamente na sua filosofia, não apenas nos seus produtos. A sede mudou para as proximidades de Toronto, mas os princípios de Borish e Edvardsen permaneceram intactos.
Uma das jogadas mais inteligentes sob a gestão do Lenbrook foi o desenvolvimento da plataforma de streaming BluOS, compartilhada com a Bluesound — outra marca do grupo. O BluOS transformou amplificadores tradicionais em hubs de streaming de alta resolução, com suporte a serviços como Tidal, Qobuz, Spotify e Deezer, além de reprodução de arquivos em rede. A integração foi tão bem-sucedida que o M33, amplificador streaming da série Masters, recebeu o prestigioso prêmio EISA de melhor amplificador inteligente.
O Legado da Simplicidade
Hoje, o catálogo da NAD continua fiel às suas origens. O C 399, amplificador híbrido digital da linha Classic, oferece 180 watts por canal com DAC integrado de 32 bits — tecnologia que, há duas décadas, custaria dez vezes mais. O receiver T 778, com Dolby Atmos e correção de sala Dirac Live, é uma das opções mais completas para home theater sem o preço extravagante dos concorrentes. Cada produto carrega o DNA do 3020: a crença de que a sofisticação verdadeira está na simplicidade.
Bjørn Erik Edvardsen faleceu, mas seu legado ecoa em cada circuito que a NAD projeta. Martin Borish provou que um físico com convicções poderia desafiar uma indústria inteira. E o 3020 permanece como um lembrete permanente de que, no áudio, o que importa não é quanto você gasta — é o que você recebe em troca.
Mais de cinquenta anos depois da fundação, a NAD continua fazendo exatamente o que prometeu naquela reunião em Londres: áudio excelente a um preço que faz sentido. Não é uma fórmula complicada. Mas, como provou o 3020, as melhores ideias raramente são.