Em 1978, um amplificador de aparência modesta, sem medidores VU brilhantes, sem acabamento em alumínio escovado e sem potência exagerada no papel, chegou ao mercado e vendeu mais de um milhão de unidades. O NAD 3020 não apenas se tornou o amplificador integrado mais vendido da história do hi-fi — ele redefiniu o que significava fazer áudio sério por um preço honesto. E a filosofia que o criou continua viva quase cinco décadas depois.
A fundação: frustração europeia com o hype japonês
A NAD — originalmente New Acoustic Dimension — nasceu em dezembro de 1972 de uma ideia simples e poderosa: um grupo de importadores europeus de áudio estava farto. Os produtos japoneses que dominavam o mercado nos anos 70 eram cheios de recursos chamativos — medidores, botões, potência inflada nas especificações — mas o som real nem sempre correspondia ao marketing.
Para mudar esse cenário, os importadores contrataram dois americanos com experiência profunda em áudio: Dr. Martin L. Borish, um físico que já havia sido presidente da Acoustic Research (AR), e o engenheiro norueguês Bjorn Erik Edvardsen, um dos projetistas de amplificadores mais talentosos de sua geração.
A missão era radical na sua simplicidade: criar produtos que soassem excepcionalmente bem, custassem o mínimo possível e eliminassem tudo que não contribuísse diretamente para a qualidade sonora. Sem firulas, sem vaidade industrial — só som.
O 3020: o amplificador que mudou tudo
Em 1978, Edvardsen entregou o NAD 3020. No papel, era um amplificador modesto: 20 watts por canal, caixa plástica simples, design espartano. Mas Edvardsen fez algo que poucos engenheiros ousavam na época: otimizou cada centavo do custo para performance sonora, não para aparência.
O resultado surpreendeu o mundo do hi-fi. Revistas especializadas compararam o 3020 a amplificadores que custavam cinco vezes mais — e ele não perdia. A seção de phono era excepcionalmente boa, a potência dinâmica superava em muito os 20 watts nominais, e o som tinha uma musicalidade que equipamentos mais caros não alcançavam.
O 3020 se tornou um fenômeno. Mais de um milhão de unidades foram vendidas em diversas iterações ao longo das décadas seguintes. O Stereophile o incluiu na lista dos produtos mais importantes da história do hi-fi. E a filosofia que o criou — performance acima de tudo, a preço justo — se tornou o DNA da NAD.
Evolução: de amplificadores a ecossistemas
Ao longo dos anos 80 e 90, a NAD expandiu sua linha mantendo a mesma filosofia. Receivers, CD players, amplificadores de potência e pré-amplificadores carregavam o mesmo princípio: gastar o orçamento em componentes que afetam o som, economizar em tudo mais.
A virada moderna veio quando a NAD foi adquirida pela Lenbrook Industries, uma empresa familiar canadense que também controla a PSB Speakers e a Bluesound. Essa aquisição trouxe dois recursos transformadores: a plataforma de streaming BluOS e a tecnologia de amplificação Purifi Eigentakt.
Masters Series e o M33: hi-fi encontra streaming
O NAD Masters M33 representa o ponto de convergência de toda a história da marca. É um amplificador integrado com 200 watts por canal (380 em 4 ohms) usando módulos Purifi — a tecnologia de amplificação classe D mais limpa e silenciosa do mercado — combinado com DAC ESS Sabre, streaming BluOS integrado e suporte a Roon Ready, AirPlay 2, Spotify Connect e TIDAL Connect.
Na prática, o M33 substitui receiver, DAC, streamer e amplificador numa única caixa. Conecte um par de caixas passivas, conecte ao Wi-Fi e pronto — você tem um sistema hi-fi de referência sem pilha de componentes.
Em 2025, a NAD lançou o M33 V2, com DAC ESS ES9039PRO e tecnologias FOQUS e QRONO da MQA Labs, consolidando o produto como o amplificador integrado com streaming mais avançado do mercado.
A herança de Borish e Edvardsen
Martin Borish faleceu em 2017 e Bjorn Erik Edvardsen em 2018. Mas antes de partir, ambos construíram não apenas uma marca — construíram uma filosofia que permanece relevante meio século depois. A equipe global que hoje conduz a NAD foi formada diretamente por eles, e o princípio fundador nunca mudou: inovação a serviço do som, não do marketing.
Num mercado onde muitas marcas competem por quem tem o acabamento mais luxuoso ou as especificações mais impressionantes no papel, a NAD continua provando que o que importa é o que sai dos alto-falantes. O 3020 provou isso em 1978. O M33 prova a mesma coisa em 2026 — com streaming, classe D e 200 watts. A embalagem mudou. A verdade, não.