Música & Cultura 27 AGO 2026

Marshall: do professor de bateria que criou o som do rock a um imperio de caixas Bluetooth de 1 bilhao de euros

Jim Marshall abriu uma loja de baterias em 1962 e, sem querer, inventou o som que definiu o rock. Seis décadas depois, a marca que carrega seu nome faz mais caixas Bluetooth do que amplificadores — e vale mais de EUR 1 bilhão.

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A história da Marshall começa com um homem que não era guitarrista, não era engenheiro e nunca pretendeu fabricar amplificadores. Jim Marshall era baterista — e um bom baterista, diga-se. Nascido em Acton, no oeste de Londres, em 1923, ele passou a infância confinado em um hospital por causa de tuberculose óssea, saiu sem educação formal e encontrou na música a razão para seguir em frente.

A loja que virou lenda

Em 7 de julho de 1962, Jim e seu filho Terry abriram a Jim Marshall and Son no número 76 da Uxbridge Road, em Hanwell. A loja vendia baterias e acessórios, mas logo atraiu guitarristas jovens e barulhentos — entre eles, um tal Pete Townshend e um certo Ritchie Blackmore. A reclamação era sempre a mesma: os amplificadores Fender americanos eram caros demais, limpos demais e baixos demais.

Jim ouviu. Reuniu uma equipe mínima — Ken Bran e Dudley Craven — e, usando o circuito do Fender Bassman como ponto de partida, criaram algo completamente diferente: o JTM45 (Jim and Terry Marshall, 45 watts), que chegou ao mercado em 1963. O tom era mais sujo, mais agressivo, mais vivo. Eric Clapton adotou um combo JTM45 para gravar com John Mayall, e o disco ficou conhecido como o Bluesbreaker — nome que o amplificador herdou.

A invenção do stack

A história do Marshall stack é uma das melhores do rock. John Entwistle, baixista do The Who, comprou um gabinete 4×12 e ganhou vantagem de volume sobre Townshend. Townshend, não aceitando ficar atrás, pediu a Jim um gabinete com oito falantes de 12 polegadas. Jim construiu — mas os roadies devolveram porque era pesado demais para carregar. A solução foi cortar o gabinete ao meio: um reto embaixo, um angulado em cima. Nascia o stack Marshall, a imagem mais icônica do palco de rock.

Em 1965, Townshend e Entwistle pediram mais potência. Jim respondeu com o Super Lead 100W, e quando Jimi Hendrix montou três stacks completos no palco de Woodstock em 1969, o visual e o som da Marshall se tornaram indissociáveis do rock.

A era dourada dos amplificadores

Os anos seguintes produziram alguns dos amplificadores mais desejados da história:

  • Plexi (anos 1960-70): nomeados pelo painel frontal de Plexiglas, os modelos 1959 e 1987 são os mais cobiçados por colecionadores. Hendrix, Page, Beck — todos usaram Plexis.
  • JCM800 (1981): as iniciais vinham da placa do carro de Jim. O modelo 2203 definiu o som do hard rock e do heavy metal dos anos 1980. AC/DC, Iron Maiden, Slayer — todos passaram pelo JCM800.
  • Silver Jubilee (1987): edição comemorativa dos 25 anos da Marshall e 50 de Jim na música. O circuito de clipping único conquistou Slash, que o usou extensivamente.
  • JVM (2007): quatro canais, três modos cada. A plataforma mais versátil da Marshall, em produção até hoje.

Jim Marshall: o Pai do Volume

Jim recebeu o título de OBE (Officer of the Order of the British Empire) em 2003 por serviços à indústria musical. Era chamado de The Father of Loud — apelido dado pelos próprios músicos que empurraram os amplificadores ao limite.

Jim Marshall morreu em 5 de abril de 2012, aos 88 anos. A fábrica em Bletchley (hoje parte de Milton Keynes), para onde a produção se mudou em 1966, continua operando no mesmo endereço até hoje.

A era Bluetooth: Zound Industries

Em 2010, a Marshall licenciou a marca para a sueca Zound Industries, que começou a produzir fones e caixas Bluetooth com a estética Marshall: vinil preto, knobs dourados, logo em script. O sucesso foi explosivo. As caixas Stanmore, Acton e Woburn conquistaram salas de estar do mundo inteiro, enquanto a Emberton e a Kilburn levaram o som Marshall para mochilas e trilhas.

Em março de 2023, a Zound deu o passo final: comprou a Marshall Amplification, unindo amplificadores profissionais e áudio de consumo sob o mesmo teto. O novo Marshall Group faturava cerca de US$ 360 milhões anuais.

A venda bilionária para a China

Em janeiro de 2025, o fundo chinês HongShan Capital (antigo Sequoia Capital China) adquiriu participação majoritária no Marshall Group por aproximadamente EUR 1,1 bilhão. A família Marshall manteve mais de 20% das ações. Entre 2020 e 2024, a receita havia dobrado para EUR 400 milhões — prova de que o nome Marshall tem valor comercial muito além dos palcos de rock.

O que a Marshall é hoje

Em 2026, a Marshall vende mais caixas Bluetooth do que amplificadores. A linha portátil — Emberton III, Willen II, Kilburn III, Stockwell III — compete diretamente com JBL, Bose e Sony. As caixas home — Acton IV, Stanmore IV, Woburn III — ocupam salas de estar com HDMI, Auracast e LDAC. E os amplificadores continuam saindo da fábrica em Milton Keynes, incluindo a nova Modified Series apresentada na NAMM 2025.

A marca que Jim Marshall construiu sem intenção virou algo que ele provavelmente não reconheceria. Mas toda vez que alguém liga uma Emberton III e ouve aquele médio presente, aquele grave com textura e aquele agudo com atitude, há um eco do JTM45 de 1963 — do som que um baterista de Londres criou porque uns guitarristas barulhentos reclamaram que o Fender era limpo demais.

⌬ FIM · 4 min de leitura

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