Num mundo onde amplificadores integrados vêm com Bluetooth, AirPlay, HDMI ARC e até tela touchscreen, a Marantz teve a audácia silenciosa de lançar um aparelho sem nenhuma entrada digital. Nenhuma. Nem uma mísera porta óptica Toslink escondida atrás do painel. O Model 50 é analógico do primeiro ao último elétron, e essa decisão radical — que poderia parecer suicídio comercial — é exatamente o que faz dele um dos integrados mais fascinantes da sua faixa de preço. Passei dois meses com ele alimentando um par de KEF LS50 Meta, e o que encontrei foi um amplificador que faz da simplicidade a sua maior virtude.
Design e construção: DNA Marantz
O Model 50 segue a linguagem visual da linha atual da Marantz, inaugurada com o Model 40n. O formato shoebox compacto (44 x 37 x 13 cm) com acabamento em preto fosco e detalhes dourados é elegante sem ser ostensivo. O visor circular iluminado — herança dos amplificadores clássicos da marca — não exibe nada digital: apenas a fonte de entrada selecionada. Com cerca de 13 kg na balança, o aparelho transmite robustez sem exigir uma rack reforçada.
A construção interna é onde o investimento aparece de verdade. O circuito de amplificação utiliza módulos HDAM SA-3 (Hyper Dynamic Amplifier Module), a versão mais recente da tecnologia proprietária da Marantz que substitui op-amps convencionais por circuitos discretos de alta velocidade e baixa distorção. A topologia é Class A/B com current feedback, uma escolha que privilegia velocidade e musicalidade sobre eficiência energética pura.
O phono stage que justifica a compra
Para quem gira vinil, o Model 50 é quase irresistível. O phono stage MM embutido utiliza transistores J-FET na entrada, garantindo alta impedância e baixíssimo ruído — dois requisitos que muitos phono stages externos dedicados na faixa de R$ 2.000 não conseguem entregar simultaneamente. Conectei uma Rega Planar 3 com cápsula Nagaoka MP-110 e o resultado foi simplesmente musical: fundo negro limpo, dinâmica preservada, aquela textura analógica que faz a gente entender por que vinil sobrevive há décadas.
Se você comprar o Model 50 pensando só no phono stage, já terá feito um bom negócio. O resto é bônus.
Sonoridade: o calor Marantz
A Marantz nunca escondeu sua assinatura sonora — e o Model 50 a celebra. Os médios são o ponto alto absoluto: ricos, levemente encorpados, com uma presença que faz vozes e instrumentos acústicos soarem tridimensionais. Ouvir Chet Baker ou João Gilberto por este amplificador é uma experiência quase tátil.
Os graves são controlados e encorpados, com excelente definição nas linhas de baixo. Os 70W por canal em 8 ohms (100W em 4 ohms) podem parecer modestos no papel, mas a qualidade dos watts importa mais do que a quantidade. Com as KEF LS50 Meta (85 dB de sensibilidade), o Model 50 operou com folga em volumes moderados a altos. Caixas de menor sensibilidade — abaixo de 84 dB — podem exigir mais fôlego do que ele oferece, especialmente em salas grandes.
Os agudos são suaves e refinados, jamais agressivos. Quem busca o brilho analítico de um amplificador Benchmark ou Topping pode achar o Model 50 polido demais — mas para longas sessões de audição, essa suavidade é uma bênção.
O soundstage é amplo e bem definido lateralmente, com boa profundidade. A imagem estéreo é precisa, posicionando instrumentos com naturalidade no espaço. É aqui que a topologia current feedback mostra seu valor: a velocidade do circuito permite transientes rápidos sem borrar o palco sonoro.
Conectividade: o elefante na sala
São cinco entradas RCA de linha, uma entrada phono MM, saída de pré-amplificador, saída de subwoofer mono e entrada power amp in. Ponto. Se você precisa conectar um streamer, terá que adicionar um DAC externo ou um dispositivo como o WiiM Pro Plus. A Marantz claramente posiciona o Model 50 como complemento ao Model 40n (que tem streaming integrado) ou como peça central de um sistema puramente analógico.
A saída de sub mono é um acréscimo inteligente para quem usa caixas bookshelf — complementar as LS50 com um subwoofer ativo como o SVS SB-1000 Pro transformou o conjunto num sistema absurdamente competente. A entrada power amp in permite usar o Model 50 apenas como amplificador de potência, caso você já tenha um pré-amplificador ou processador de sua preferência.
Frente à concorrência
O Cambridge CXA81 oferece entrada digital USB e Bluetooth por preço inferior, mas não tem phono stage e o som é mais seco e analítico. O Yamaha A-S801 entrega DAC embutido e mais potência (100W/8Ω), mas a construção e o phono stage ficam atrás. Nenhum dos dois tem o charme sonoro da Marantz — e para muitos audiófilos, esse charme é inegociável.
Veredito
O Marantz Model 50 é um amplificador que sabe exatamente o que é — e, mais importante, o que não quer ser. Em vez de entregar uma lista infinita de features, concentra-se em fazer o básico com maestria: amplificar sinal analógico com musicalidade, construção premium e aquele calor que definiu a marca desde os anos 1950. A R$ 12.999, não é barato — mas é um investimento que pode durar décadas. Para quem tem toca-discos e valoriza a experiência analógica pura, o Model 50 é uma escolha quase óbvia.