Música & Cultura 16 AGO 2026

Marantz: da mesa de cozinha em Nova York ao som mais musical do hi-fi — e à surpreendente venda para a Samsung

Como um músico insatisfeito com seu próprio estéreo construiu amplificadores na cozinha de Queens, definiu o som quente que audiófilos perseguem até hoje — e acabou nas mãos da Samsung por US$ 350 milhões.

MÚSICA & CULTURA

Existe um tipo de som que audiófilos descrevem com palavras que parecem mais adequadas a um vinho do que a um amplificador: quente, envolvente, musical, aveludado. Esse vocabulário tem nome e sobrenome — Saul Bernard Marantz, o músico e engenheiro que, em 1952, decidiu que nenhum equipamento disponível fazia justiça à música que ele amava. A solução? Construir o seu próprio, na mesa da cozinha do apartamento em Kew Gardens, Queens, Nova York.

O Audio Consolette e o nascimento de uma lenda

O primeiro protótipo de Saul foi um pré-amplificador que ele chamou de Audio Consolette. A qualidade era tão superior ao que existia no mercado que amigos e colegas audiófilos começaram a pedir unidades. Ele produziu cem — e todas foram vendidas antes de sair da cozinha. Em 1953, Saul fundou oficialmente a Marantz Audio Company, abrindo uma pequena fábrica em Woodside, também no Queens. Ao seu lado estava o engenheiro Sidney Smith, e a filosofia da dupla era simples e imutável: levar o ouvinte o mais perto possível da gravação original.

Model 7 e Model 9: o par que definiu o hi-fi valvulado

Em 1958 chegou o Model 7, um pré-amplificador estéreo cujo estágio phono ficou conhecido simplesmente como “o circuito Marantz” — referência absoluta em equalização RIAA, ainda hoje reverenciado por colecionadores. Dois anos depois, o Model 9, um amplificador monoblock com válvulas EL34 em configuração ultra-linear push-pull, entregava 70 watts com uma pureza que, segundo a lenda da indústria, chamou a atenção da NASA — que teria adaptado sua arquitetura para o programa Apollo. Juntos, Model 7 e Model 9 formaram o par mais icônico da era dourada do hi-fi valvulado, e exemplares originais em bom estado são disputados por milhares de dólares em leilões até hoje.

A era dos receivers monstruosos

Nos anos 1970, a Marantz embarcou na corrida dos “monster receivers” — e venceu. O Model 2270 e o Model 2275 já eram referências, mas foi o Model 2500 (1977–1980) que cravou o nome da marca na história: 250 watts por canal, osciloscópio embutido no painel frontal, sintonia Gyro-Touch e a frase de marketing que ninguém contestou — “The World’s Most Powerful Receiver”. Uma campanha publicitária da época mostrou um Model 2270 que sobreviveu a um incêndio residencial e continuou funcionando perfeitamente. Exagero de marketing? Talvez. Mas ninguém duvidava da construção.

Do Queens para o Japão — e para a Philips

Em 1964, a Superscope Inc. adquiriu a Marantz e, dois anos depois, firmou parceria com a Standard Radio Corporation de Sagamihara, próximo a Tóquio, para fabricação — design americano, montagem japonesa. A relação se aprofundou até que, em 1975, a Standard Radio se tornou a Marantz Japan Inc.

Em 1980, a Superscope vendeu as operações internacionais para a Philips, que completou a aquisição total em 1992. Depois de uma série de movimentos corporativos, em 2002 a Marantz se fundiu com a Denon para formar a D&M Holdings — as duas marcas sob o mesmo teto, mas com identidades sonoras deliberadamente distintas.

Ken Ishiwata: o homem que deu alma à Marantz moderna

Ken Ishiwata (1947–2019) entrou na Marantz em 1978, inicialmente como mediador entre a engenharia japonesa e o controle de qualidade europeu. Ficou 41 anos. Antes da Marantz, havia trabalhado na Pioneer e — num desvio improvável — como fotógrafo de moda. Na empresa, tornou-se o rosto público da marca, assinando pessoalmente a afinação sonora de produtos como o lendário CD-63 mkII KI Signature e o PM-KI Ruby, seu último projeto antes de falecer. O CD-63 KI, aliás, ainda é citado por críticos como “o player que tinha um som sexy” — elogio incomum para uma caixa de alumínio com laser.

O som Marantz: HDAM e a busca pela musicalidade

Pergunte a qualquer audiófilo o que diferencia um Marantz de um Denon — mesmo pertencendo ao mesmo grupo — e a resposta será unânime: o caráter. Enquanto a Denon busca precisão e neutralidade, a Marantz persegue musicalidade. O segredo técnico está nos módulos HDAM (Hyper Dynamic Amplifier Module), circuitos discretos proprietários que substituem op-amps convencionais e conferem aquela assinatura quente, espacial e envolvente que define a marca. Não é um defeito — é uma escolha deliberada de engenharia.

De mão em mão: Masimo, polêmica e Samsung

Em 2017, a Sound United adquiriu o grupo D+M. Em 2022, a Masimo Corporation — sim, a empresa de oxímetros — comprou a Sound United por US$ 1,03 bilhão, reunindo Marantz, Denon, Bowers & Wilkins, Polk Audio e Classé sob o mesmo guarda-chuva. A diversificação não agradou os investidores: o CEO Joe Kiani foi deposto após uma revolta acionária.

Em setembro de 2025, a HARMAN International — subsidiária da Samsung Electronics — completou a aquisição por apenas US$ 350 milhões, um desconto brutal sobre o que a Masimo havia pago três anos antes. Hoje, a Marantz divide teto com JBL, AKG e Harman Kardon no ecossistema Samsung — uma vizinhança que gera especulação, mas, até o momento, nenhuma descontinuação de linha.

A Marantz em 2026

A linha atual inclui a flagship Reference 10 Series (amplificador Model 10, player SACD 10, streamer Link 10n), a série MODEL com design industrial renovado e HDMI ARC integrado, e a CINEMA Series 2 de receivers AV com DAC de 32 bits e correção de sala aprimorada, chegando entre agosto e setembro de 2026. O streaming HEOS conecta tudo.

O som continua quente. A mesa de cozinha em Queens ficou pequena — mas a filosofia de Saul Marantz, 74 anos depois, ainda guia cada módulo HDAM que sai da linha de produção.

⌬ FIM · 5 min de leitura

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