Música & Cultura 04 JUL 2026

Marantz: como Saul Marantz criou os amplificadores mais bonitos (e musicais) da história do áudio

De um pré-amplificador montado na sala de estar em Nova York aos receptores Cinema Series e ao Model 40n, a Marantz atravessou sete décadas perseguindo um único ideal: fazer a eletrônica desaparecer e deixar apenas a música.

MÚSICA & CULTURA

A história da Marantz começa com uma frustração pessoal. No início dos anos 1950, Saul Bernard Marantz — nova-iorquino apaixonado por música clássica e violonista amador que mais tarde se tornaria amigo próximo do lendário Andrés Segovia — não suportava as inconsistências sonoras de sua coleção de discos de 78 rotações. Em vez de aceitar as limitações da tecnologia disponível, decidiu construir com as próprias mãos um pré-amplificador capaz de entregar o som que os artistas haviam pretendido. Nascia, na sala de estar de sua casa, o Audio Consolette — e com ele, uma das marcas mais reverenciadas da história do áudio.

Do Audio Consolette ao Model 1

Em 1951, Saul Marantz projetou e produziu uma tiragem inicial de cem unidades do Audio Consolette, um pré-amplificador valvulado que chamou atenção imediata da comunidade audiófila. O sucesso foi tão fulminante que, antes mesmo de completar o primeiro lote, já havia encomendas para 600 unidades. Em 1953, encorajado pela demanda, Saul fundou oficialmente a Marantz Company e abriu uma fábrica em Woodside, no bairro de Queens, em Nova York.

Em 1954, chegou o Model 1, a versão comercial refinada do Consolette. O Model 1 não era apenas um equipamento de áudio — era um objeto de desejo. Saul Marantz tinha uma obsessão rara entre engenheiros de sua época: ele acreditava que um componente de áudio deveria ser bonito. Os painéis frontais meticulosamente desenhados, os knobs elegantes e o layout equilibrado estabeleceram uma linguagem de design que a marca carrega até hoje.

Sidney Smith e a era dourada

O destino da Marantz mudou quando um jovem projetista eletrônico chamado Sidney Smith viu um anúncio do Model 1 e apareceu, sem aviso, na porta da casa de Saul pedindo emprego. A habilidade técnica de Smith era o complemento perfeito para a visão artística de Marantz. Essa parceria, que duraria 14 anos, produziu alguns dos componentes mais icônicos de toda a história do áudio hi-fi.

A era dourada da Marantz — do final dos anos 1950 ao início dos anos 1970 — é definida por três produtos lendários:

  • Model 7 (1958): o pré-amplificador valvulado que se tornou sinônimo de transparência sonora. Com circuito meticulosamente projetado e componentes selecionados à mão, o Model 7 é considerado por muitos audiófilos o melhor pré-amplificador a válvulas já fabricado. Exemplares originais em bom estado são disputados por colecionadores e podem alcançar valores astronômicos.
  • Model 8B: o amplificador estéreo de potência que complementava o Model 7, oferecendo 35 watts por canal com uma musicalidade que equipamentos muito mais potentes invejavam.
  • Model 9 (1960): o amplificador monoaural de potência que representava o estado absoluto da arte. Tão robusto e confiável que a NASA o utilizou em estações de rastreamento do programa Apollo. Se um amplificador era bom o suficiente para ajudar a levar o homem à Lua, era bom o suficiente para qualquer sala de estar.

A travessia do Pacífico

Em 1964, Saul Marantz vendeu a empresa para a Superscope Inc., um grupo americano de distribuição de eletrônicos. Dois anos depois, em 1966, a produção começou a ser parcialmente transferida para o Japão através de uma parceria com a Standard Radio Corporation. Em 1975, a Standard Radio foi renomeada Marantz Japan Inc., com a Superscope detendo 50% das ações.

A transição poderia ter significado o fim da qualidade que definiu a marca. Mas a mudança para o Japão trouxe algo inesperado: acesso a uma cultura de manufatura obsessivamente precisa e a engenheiros que compartilhavam a mesma devoção ao som perfeito.

A era Philips e o nascimento do CD

Em 1980, a Superscope vendeu a marca Marantz para a Philips, a gigante holandesa de eletrônicos. Foi uma aquisição estratégica: a Philips estava desenvolvendo, junto com a Sony, o formato Compact Disc, e a Marantz seria o veículo perfeito para levar a nova tecnologia ao mercado audiófilo. Nos anos seguintes, a Marantz lançou alguns dos CD players mais celebrados da história, beneficiando-se do acesso privilegiado às tecnologias digitais da Philips.

Foi durante a era Philips que surgiu uma figura que moldaria o som da Marantz por décadas: Ken Ishiwata. Engenheiro japonês e amante de música, Ishiwata se tornou o Sound Master da marca — uma espécie de guardião da assinatura sonora. Por mais de 40 anos, ele supervisionou pessoalmente a seleção de componentes, o voicing dos equipamentos e as edições especiais KI Signature, que se tornaram objetos de culto entre audiófilos.

HDAM: o módulo que definiu o som Marantz

Em 1992, a Marantz introduziu o HDAMHyper Dynamic Amplifier Module —, um módulo amplificador discreto proprietário que substituía os chips operacionais (op-amps) convencionais. Usando componentes discretos cuidadosamente selecionados, o HDAM oferecia resposta mais rápida, menor ruído e maior musicalidade do que qualquer chip integrado.

Estreando no amplificador PM-99SE e no CD player CD-15, o HDAM evoluiu por várias gerações — SA2, SA3 — e permanece como a espinha dorsal tecnológica da marca. É ele que confere aquela qualidade sonora descrita como quente, musical e envolvente — a assinatura que distingue a Marantz de concorrentes mais analíticos.

Do D&M Holdings à Masimo — e além

Após a morte de Saul Marantz em 2002, a Marantz Japan adquiriu a marca e suas subsidiárias. Logo em seguida, a empresa se fundiu com a Denon para formar o grupo D&M Holdings. Em 2017, o D&M Holdings foi absorvido pela Sound United, que por sua vez foi adquirida pela Masimo Corporation — uma empresa de tecnologia médica — em 2022.

A passagem pela Masimo foi breve. Em 2025, o portfólio de áudio foi revendido para a HARMAN International, subsidiária da Samsung, por 350 milhões de dólares — abrindo um novo capítulo na longa saga de propriedade da marca.

O presente: Cinema, Model e o legado vivo

Apesar das turbulências corporativas, a Marantz continua produzindo equipamentos que honram sua herança. A Cinema Series (2022) trouxe receptores AV com design sofisticado. O Model 30 (2020) — cujo nome homenageia os primeiros produtos de Saul — oferece amplificação 100% analógica com HDAM-SA3 e fonte dupla. E o Model 40n (2022) integra streaming de rede e HDMI ARC em um amplificador premium, unindo tradição e modernidade.

Mais de sete décadas após Saul Marantz montar seu primeiro pré-amplificador na sala de estar, a marca permanece fiel a uma convicção radical: a eletrônica de áudio existe para desaparecer, deixando apenas a música. Nesse ideal aparentemente simples reside toda a grandeza da Marantz.

O objetivo nunca foi construir o amplificador mais potente ou mais preciso. O objetivo sempre foi construir aquele que faz você esquecer que está ouvindo um amplificador.

Filosofia Marantz

⌬ FIM · 6 min de leitura

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Seja respeitoso
00:00 / 05:44