Poucas marcas de áudio carregam uma história tão cinematográfica quanto a Marantz. Fundada em 1953 por um homem sem formação em eletrônica, a empresa nasceu literalmente na mesa de cozinha de um apartamento no Queens, em Nova York — e seus amplificadores acabaram sendo usados pela NASA no programa Apollo.
Saul Marantz: O Artista Que Reinventou o Áudio
Saul Bernard Marantz (1911–1997) nasceu no Brooklyn, filho de imigrantes judeus. Obrigado a abandonar a escola após a oitava série para ajudar a família, trabalhou como mensageiro em Wall Street antes de estudar artes gráficas no Pratt Institute. Trabalhou como artista comercial para clientes como a General Electric — e possivelmente desenhou o logotipo da Hanes.
Mas Saul era, acima de tudo, um músico amador obcecado por fidelidade sonora. Amigo pessoal do lendário guitarrista clássico Andrés Segovia, ele acreditava que só equipamentos capazes de reproduzir violão clássico com total fidelidade mereciam existir. Foi essa obsessão que o levou a construir seu primeiro pré-amplificador em 1952.
O Audio Consolette e o Nascimento da Empresa
O primeiro produto da Marantz, o Audio Consolette, foi projetado na mesa de cozinha de Saul. Sua esposa Jean — arquiteta formada pela Vassar com talento para cálculo — fez as contas dos circuitos. A produção acontecia no porão da casa, em Kew Gardens, Queens.
A inovação era prática: como cada gravadora usava uma curva de equalização diferente na época, o Consolette incluía múltiplas curvas de EQ selecionáveis. Saul fez 100 unidades iniciais e as vendeu pela Harvey Radio, na 6ª Avenida de Manhattan. Antes de terminar as 100, já tinha 600 encomendas.
Um detalhe pouco conhecido: o engenheiro-chefe Sidney Smith apareceu sem aviso na porta de Saul após ver um anúncio do produto, resolveu um problema de ruído nos protótipos na hora, e ficou na empresa por 14 anos. A genialidade dos produtos clássicos da Marantz — o Model 7, o 8B, o Model 9 — foi fruto da colaboração entre a sensibilidade estética de Saul e o rigor técnico de Smith.
O Model 9 e a NASA
O Marantz Model 9, amplificador monoblock valvulado de 70 watts lançado em 1960, foi selecionado e modificado pela NASA para uso nas estações de rastreamento do programa Apollo ao redor do mundo. Sua arquitetura ultra-linear com válvulas EL34 entregava estabilidade excepcional de corrente — crucial em locais remotos onde o fornecimento de energia era instável.
A própria Marantz afirma em seu site: “O papel da Marantz na jornada do homem à Lua foi pequeno, mas crucial.”
O Model 9 também era uma peça de design: seu medidor circular tipo “porthole” e a porta frontal articulada que escondia os ajustes de bias se tornaram ícones do modernismo industrial dos anos 1960. O porthole permanece como elemento visual nos produtos Marantz até hoje.
O Model 10B: Obra-Prima Que Quase Matou a Empresa
O tuner FM Model 10B, projetado por Dick Sequerra, é universalmente reconhecido como um dos três maiores tuners FM já fabricados — ao lado do McIntosh MR78 e do Sequerra Model 1. Tinha 22 válvulas, um osciloscópio embutido para visualização de sinal e custava US$ 650 em 1964 (equivalente a cerca de US$ 6.500 hoje).
O problema: cada unidade dava prejuízo. O processo de fabricação exigia ajuste em forno para simular temperaturas de operação, e a complexidade do projeto drenava o capital de giro. Saul não conseguia pagar a folha salarial semanal. Em 1964, foi forçado a vender a empresa para a Superscope por US$ 3 milhões.
Ken Ishiwata: A Alma da Marantz Moderna
Se Saul criou a Marantz, Ken Ishiwata (1947–2019) a redefiniu para a era moderna. Japonês radicado na Holanda, Ken entrou na empresa em 1978 e permaneceu por 41 anos como engenheiro e, posteriormente, Embaixador da Marca — um cargo quase inédito na indústria de eletrônicos.
Adolescente, Ken havia desmontado e copiado um pré-amplificador Marantz Model 7C usando componentes genéricos baratos. A cópia soou dramaticamente pior que o original. Sua conclusão — de que a qualidade individual de cada componente importa profundamente — norteou toda a sua carreira.
“Fiquei tão chocado ao descobrir que não soava nem perto do original! Aquilo era questão de qualidade dos componentes.” — Ken Ishiwata
Ken criou a série KI Signature, selecionando pessoalmente capacitores e resistores por audição. O primeiro modelo KI foi um acidente feliz: diante de estoque encalhado do CD-45, a diretoria propôs desconto. Ken propôs modificar as unidades e vendê-las como edição limitada £50 mais caras. As 2.000 unidades esgotaram em duas semanas.
Em maio de 2019, seu contrato não foi renovado. Ele faleceu em novembro do mesmo ano, aos 72 anos, de doença autoimune — poucos meses após iniciar um projeto na Rotel, que lançou postumamente os modelos Rotel A11 Tribute e CD-11 Tribute.
A Montanha-Russa Corporativa
A trajetória corporativa da Marantz após Saul é turbulenta. A Superscope vendeu os direitos europeus e asiáticos para a Philips em 1980 — justamente quando a Philips co-inventava o CD com a Sony. A Marantz se tornou o veículo premium para o lançamento do formato CD na Europa.
Em 1987, os direitos norte-americanos foram vendidos para a Dynascan — fabricante de rádios CB e detectores de radar. Por três anos, a marca mais prestigiada do áudio mid-fi foi administrada por uma empresa de CB. A reunificação só veio em 1990.
Em 2022, a Masimo — empresa de dispositivos médicos — comprou a Sound United (dona da Marantz, Denon e B&W) por US$ 1,025 bilhão. A estratégia de combinar áudio com monitoramento de saúde foi amplamente ridicularizada. Em 2025, a Masimo vendeu tudo para a HARMAN/Samsung por US$ 350 milhões — um terço do que pagou.
O Mercado de Vintage
Equipamentos vintage da Marantz são objetos de desejo entre colecionadores. Um par de Model 9 em condição original custa entre US$ 15.000 e US$ 18.000. O receiver Marantz 2600 — com apenas ~1.000 unidades fabricadas entre 1978 e 1980 — já teve exemplares listados por US$ 34.000.
Tom Petty possuía um Marantz 2270. Louis Armstrong tinha um Model 7T e um 10B em sua casa no Queens. Um Marantz Model 18 aparece como prop de época no filme Era Uma Vez em Hollywood de Tarantino. Na série Bosch da Amazon, o protagonista ouve jazz em um toca-discos Marantz 6300.
O Legado
A Marantz começou como a obsessão de um artista gráfico por reproduzir guitarra clássica com perfeição. Setenta anos depois, permanece como uma das poucas marcas de áudio que conjuga herança genuína, relevância tecnológica e uma identidade sonora reconhecível — o famoso “som quente Marantz”, que até hoje divide puristas e apaixona ouvintes.