Música & Cultura 17 JUL 2026

Klipsch: do galpão de munições em Hope, Arkansas, ao som mais eficiente do planeta

Como um engenheiro genial, excêntrico e sem papas na língua transformou um galpão militar numa fábrica de caixas acústicas que desafia as leis da ineficiência sonora há 80 anos.

MÚSICA & CULTURA

Paul Wilbur Klipsch usava quatro relógios simultaneamente, fazia manobras acrobáticas propositalmente perigosas em aviões monomotores e carregava no lapela um botão amarelo com a palavra “Bullshit” em letras góticas — que mostrava a qualquer um que fizesse declarações exageradas sobre áudio. Quando morreu em 2002, aos 98 anos, na mesma cidadezinha do Arkansas onde fundara sua empresa 56 anos antes, deixou 26 patentes, uma filosofia acústica inabalável e a caixa de som mais longeva da história: a Klipschorn, em produção ininterrupta desde 1946.

Do campo de provas ao galpão de lata

Nascido em Elkhart, Indiana, em 1904, Paul cresceu construindo rádios e se tornou operador de rádio amador ainda adolescente. Formou-se em engenharia elétrica pela New Mexico State University em 1926, trabalhou na GE projetando rádios, manteve locomotivas elétricas no Chile por três anos e atuou como geofísico para empresas petrolíferas no Texas antes de ser convocado para a Segunda Guerra Mundial.

Servindo como tenente-coronel e engenheiro-chefe no campo de provas de munições Southwest Proving Ground em Hope, Arkansas, Paul dedicou suas horas livres a refinar o design de uma caixa acústica do tipo corner horn — um alto-falante que usa as paredes e o chão do canto de uma sala como extensão do bocal de graves, multiplicando a eficiência acústica por um fator de 10 a 20 vezes.

Patenteou o design em 1945, registrou a “Klipsch & Associates” em 1946 e começou a fabricar caixas artesanalmente num galpão de lata em Hope. Contratou seu primeiro funcionário em 1948. A fábrica se mudou para o prédio da central telefônica do campo de provas — e as caixas Heritage da Klipsch ainda são montadas à mão lá, quase 80 anos depois.

A Klipschorn e o nome que veio de um cliente

Curiosamente, Paul não batizou sua criação mais famosa. Numa viagem de vendas a Nova York, um potencial comprador disse: “Ouvimos falar do seu corner horn. A gente chama de Klipschorn.” O nome pegou — e virou lenda. A Klipschorn detém o recorde de caixa acústica em produção contínua mais longeva do mundo. A versão atual, AK7 (lançada em 2025), mantém o princípio de corner horn de Paul com refinamentos modernos.

Com 1 watt RMS, a Klipschorn produz 105 dB a 1 metro. Para comparação, caixas convencionais precisam de 50 a 200 watts para o mesmo nível. Essa eficiência absurda é o legado central de Paul: extrair o máximo de som de cada watt, com distorção mínima.

Heritage: nomes com história

Cada caixa da linha Heritage tem uma origem peculiar:

  • Heresy (1957): Paul projetou uma caixa sem horn nos graves — uma heresia contra sua própria ortodoxia. Quando alguém o questionou, ele respondeu: “Dane-se, e é exatamente assim que vou chamá-la.” Foi a primeira caixa de canal central comercial do mundo.
  • Cornwall (1959): Apresentada na New York Audio Fair, uma alternativa que não exigia posicionamento em canto.
  • La Scala (1963): Projetada originalmente como PA para a campanha eleitoral de Winthrop Rockefeller ao governo do Arkansas — montada no teto de carros de campanha. O nome homenageia o Teatro alla Scala de Milão.
  • Belle Klipsch (1971): Batizada em homenagem à primeira esposa de Paul, Eva Belle. Uma La Scala reproporcionada.

O botão “Bullshit” e a filosofia sem enrolação

Nos anos 1960, Paul atirou uma revista de hi-fi através de seu escritório gritando “Bullshit!” ao ler sobre “mais um avanço revolucionário” de um concorrente. Mandou fabricar botões amarelos com a palavra em letras góticas e passou a usá-los no lapela em feiras e eventos. A Klipsch até hoje vende o botão oficial no site.

A filosofia era clara: “Entrei no negócio de áudio como cientista, enquanto todo mundo tentava ganhar dinheiro com ideias do tipo bullshit.” Paul articulou quatro princípios acústicos que guiam a marca até hoje: alta eficiência com baixa distorção, diretividade controlada, ampla faixa dinâmica e resposta de frequência controlada.

Publicava o boletim irregular “Dope from Hope” — mimeografado com opiniões francas sobre áudio, críticas a concorrentes e humor seco. Em 2023, uma edição encadernada foi financiada via Kickstarter.

De Hope para o mundo

Em 1989, aos 85 anos, Paul vendeu a empresa para seu primo de segundo grau Fred Klipsch e a esposa Judy. A sede administrativa mudou para Indianapolis, mas a fabricação Heritage permaneceu em Hope. Fred expandiu para home theater (1995), lançou a icônica Reference Series em preto e cobre (1999) e o sistema ProMedia para computadores — primeiro sistema multimídia certificado THX.

Em 2005, Steve Jobs pessoalmente escolheu o Klipsch iFi para as primeiras lojas conceito da Apple. A Klipsch adquiriu a dinamarquesa Jamo (2005) e as canadenses Energy e Mirage (2006). Em 2011, a Audiovox (hoje VOXX International) comprou o Klipsch Group por US$ 169,6 milhões.

A era moderna: Tractrix, Reference Premiere e The Fives

A tecnologia Tractrix horn — presente em praticamente todas as caixas Klipsch exceto fones e subwoofers — direciona som de alta frequência com precisão, reduzindo reflexões e distorção. A linha Reference Premiere (2015) combina Tractrix horns com tweeters LTS de titânio e woofers cerâmico-metálicos.

Em janeiro de 2026, no 80º aniversário da marca, a Klipsch lançou as The Fives II, Sevens II e Nines II — caixas ativas com eletrônica desenvolvida com a Onkyo, Wi-Fi, Dolby Atmos, Dirac Live e HDMI 2.1. São a ponte entre o legado Heritage e o futuro conectado.

Desde abril de 2025, a Klipsch faz parte da Gentex Corporation (via aquisição da VOXX), ao lado das marcas Onkyo e Integra sob o guarda-chuva Premium Audio Company.

Fred Klipsch disse certa vez: “Paul era um gênio verificável que poderia ter escolhido qualquer profissão, mas o mundo soa muito melhor porque ele escolheu o áudio.” Oitenta anos depois, as caixas montadas à mão em Hope, Arkansas, continuam provando que eficiência, honestidade e um pouco de excêntricidade são a receita para um som que resiste ao tempo.

Redação Guia do Áudio

⌬ FIM · 5 min de leitura

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