Paul Wilbur Klipsch não era o tipo de engenheiro que fazia concessões — nem no som, nem na conversa. Quando um executivo de marketing exagerava nas specs de um produto concorrente, Paul abria discretamente o paletó, revelando as letras “BULL” num lado e “SHIT” no outro, bordadas no forro. Quando um pastor fazia um sermão com o qual ele discordava, tomava notas durante a missa para argumentar depois. E quando projetou uma caixa acústica durante a Segunda Guerra Mundial, fez uma tão boa que ela está em produção, essencialmente inalterada, há 80 anos.
Da guerra ao galpão de lata
Paul nasceu em 1904 em Elkhart, Indiana, cresceu no Texas construindo rádios caseiros, formou-se em engenharia elétrica na New Mexico State (1926) e fez pós-graduação em Stanford (1934). Durante a Segunda Guerra, serviu como tenente-coronel no Southwest Proving Ground, em Hope, Arkansas — uma cidadezinha no meio do nada. Nos tempos livres, projetou uma caixa acústica de canto com carga horn (horn-loaded) que impressionava qualquer visitante do seu alojamento pelo volume e pela clareza que produzia com amplificação mínima.
Em 1945, patenteou o design. Em 1946, registrou a “Klipsch & Associates” e começou a construir caixas à mão num galpão de lata em Hope. O primeiro funcionário só chegou em 1948. Os primeiros gabinetes foram feitos por um marceneiro local e pela Baldwin Piano Company. O produto: a Klipschorn, uma caixa de canto de três vias com carga horn que aproveitava as paredes do canto como extensão do horn de graves. O som era revelador — e a eficiência era absurda para a época.
A filosofia horn: eficiência acima de tudo
O princípio que Paul perseguiu a vida inteira era simples: caixas acústicas com carga horn são mais eficientes que caixas com radiação direta. Um driver acoplado a um horn produz mais som com menos potência, com menos distorção e com menos coloração. Na prática, uma Klipschorn de 1950 tocava mais alto e mais limpo com um amplificador de 10 watts do que muitas caixas concorrentes com 100.
Essa filosofia gerou uma linhagem de produtos lendários: a Heresy (1957, considerada o primeiro center-channel comercial da história), a Cornwall (1959, horn-loaded que não precisa de canto), a La Scala (1963, nomeada em homenagem ao teatro de ópera de Milão, projetada como PA para eventos ao vivo) e a Belle Klipsch (1971). Todos usavam geometria de horn Tractrix, que otimiza a expansão do som para dispersão uniforme.
“Dope from Hope” e os 26 patentes
Paul publicava uma newsletter irregular chamada “Dope from Hope” — informações (“dope”) da cidade de Hope. O conteúdo misturava dados técnicos sobre acústica com opiniões ácidas sobre a concorrência. Os botões de “Bullshit” que ele distribuía entre colegas e clientes viraram marca registrada informal: a Klipsch não compactuava com marketing inflado, e Paul fazia questão de deixar isso claro — às vezes literalmente na lapela.
Ao longo da carreira, Paul acumulou 26 patentes, que iam de alto-falantes a armas de fogo e prospecção sísmica. Construiu uma câmara anecoica na fábrica de Hope em 1980 — com uma porta giratória de três toneladas patenteada, projetada especificamente para testar caixas de canto dentro da câmara. Era a maior câmara anecoica privada da América do Norte.
O legado continua em Hope
Paul vendeu a empresa para seu primo Fred S. Klipsch em 1989. A empresa foi renomeada Klipsch Audio Technologies em 2001, com novo centro de P&D em Indianapolis. Em 2011, foi adquirida pela Voxx International; em 2026, é subsidiária integral da Gentex Corporation.
Mas o mais notável é o que não mudou: as caixas da linha Heritage — Klipschorn, Heresy, Cornwall, La Scala, Forte — ainda são fabricadas à mão na fábrica original de Hope, Arkansas. Em 2016, para o 70º aniversário, a Klipsch inaugurou o Klipsch Museum of Audio History na cidade, celebrando o engenheiro que furou o painel do Mercedes novo para instalar um decibelímetro (queria medir empiricamente o quão silencioso o carro era) e construiu uma das marcas de áudio mais respeitadas do mundo num galpão no interior do Arkansas.
Paul morreu em 2002, aos 98 anos. A Klipschorn ainda está em catálogo.