Música & Cultura 03 JUL 2026

Klipsch: o engenheiro teimoso de Arkansas que revolucionou o som com cornetas

Paul Klipsch era genio, excentrico e alergico a besteira. Fundou sua empresa num galpao de lata em 1946, inventou a caixa acustica mais longeva da historia e distribuia bottons de Bullshit em feiras de audio.

MÚSICA & CULTURA

Em 1946, num galpão de lata nos fundos de uma base militar abandonada em Hope, Arkansas — a mesma cidadezinha que décadas depois geraria um presidente dos EUA — um engenheiro teimoso chamado Paul Wilbur Klipsch decidiu que todos os alto-falantes do mundo estavam errados. E passou os 56 anos seguintes provando que tinha razão.

O engenheiro que não aceitava “não”

Paul Klipsch não era exatamente um sujeito fácil de conviver. Último colocado da turma no ensino médio, mas aluno de honra na faculdade. Engenheiro elétrico formado pela New Mexico State e com pós em Stanford. Trabalhou na General Electric projetando rádios, manteve locomotivas elétricas no Chile por três anos, caçou petróleo no Texas como geofísico e serviu como tenente-coronel do Exército durante a Segunda Guerra. Quando chegou a Hope para comandar um campo de provas de munições, já tinha vivido três vidas profissionais — e estava prestes a começar a quarta.

O problema era simples: Paul amava música, e os alto-falantes da época eram, nas palavras dele, uma ofensa à física. A solução também era simples — pelo menos na cabeça dele: usar cornetas (horns) para amplificar o som acusticamente, da mesma forma que um megafone amplifica a voz. O princípio era antigo. A execução, revolucionária.

A Klipschorn: nascida num galpão, viva até hoje

A Klipschorn é o produto mais extraordinário da história do áudio por um motivo que não tem nada a ver com som: ela está em produção contínua desde 1946. São quase 80 anos. Nenhum outro alto-falante no mundo se aproxima desse recorde. Enquanto marcas inteiras nascem e morrem, a Klipschorn continua sendo montada à mão na mesma fábrica em Hope, Arkansas.

O segredo é um design de corneta folded horn que usa o canto da sala como extensão acústica da caixa. Com eficiência absurda — até 20 vezes maior que alto-falantes convencionais — a Klipschorn entrega 104 dB de sensibilidade. Traduzindo: com um amplificador valvulado de 10 watts, ela toca mais alto e mais limpo do que a maioria das caixas com 200 watts.

Paul Klipsch não acreditava em força bruta. Acreditava em física. E formulou o que ficou conhecido como a Lei de Klipsch: eficiência é inversamente proporcional à distorção. Quanto mais eficiente o alto-falante, menos ele distorce. Simples, elegante e comprovável.

“Bullshit!” — a campanha de marketing mais honesta da história

Nos anos 1960, Paul Klipsch estava folheando uma revista de áudio quando se deparou com um anúncio cheio de jargão vazio e promessas absurdas. Jogou a revista para o alto e gritou uma única palavra: “Bullshit!”

Qualquer executivo normal teria engolido a raiva e seguido em frente. Paul mandou fabricar bottons amarelos com a palavra estampada e distribuiu em feiras de áudio. Depois vieram camisetas. Depois, anúncios inteiros da Klipsch usando o termo como slogan oficial. Era a campanha publicitária mais improvável — e mais honesta — que a indústria de áudio já tinha visto.

Ele também publicava um boletim irregular chamado “Dope from Hope” — trocadilhos à parte, um compêndio de opiniões ácidas, dados técnicos e humor seco que se tornou leitura obrigatória para audiófilos e revendedores. Em 2023, uma editora de Nova York relançou a coleção completa em capa dura, esgotando a tiragem.

A família Heritage: Heresy, Cornwall, La Scala e Belle

A Klipschorn era magnífica, mas enorme e dependente de cantos. Paul precisava de companhia para ela. E as histórias por trás de cada modelo são tão boas quanto o som.

Em 1957, quando projetou uma caixa menor para servir de canal central entre duas Klipschorns, um conhecido disse que aquilo era heresia — ia contra os próprios princípios de Paul. A resposta: “Dane-se, é exatamente assim que vou chamá-la.” Nasceu a Heresy, que ironicamente se tornou best-seller no mercado de sonorização de igrejas.

Em 1959 veio a Cornwall, maior e com woofer de 15 polegadas. Em 1963, a La Scala, projetada para casas de espetáculo e cinemas, com sistema de cornetas em três vias totalmente horn-loaded. Em 1971, a Belle Klipsch, versão refinada da La Scala batizada em homenagem à esposa de Paul, Eva Belle. E em 1985, a Forte, que se tornou um dos maiores sucessos comerciais da marca.

Todas continuam em produção sob a linha Heritage, montadas à mão em Hope. A Heresy está na quarta geração, a Cornwall na quarta, a La Scala na segunda, a Klipschorn na sétima. Os modelos mudam por dentro — novos tweeters, novos crossovers — mas a filosofia de Paul permanece intocada.

Cinema, Reference e a nova geração

Se a Klipsch ficasse apenas no nicho audiófilo, já teria garantido seu lugar na história. Mas a empresa foi além. Seus alto-falantes profissionais da linha KPT dominam salas de cinema ao redor do mundo — o KPT-MCM-II-Q é o primeiro e único sistema de cinema totalmente horn-loaded com certificação THX. Cada um pesa mais de 200 quilos. Paul teria aprovado.

Em 1999, a Reference Series — com sua estética icônica de preto e cobre — democratizou o som Klipsch para home theater. Os ProMedia 2.1 se tornaram o primeiro sistema de caixas para computador com certificação THX.

Mais recentemente, a linha The Fives, The Sevens e The Nines trouxe a tecnologia de cornetas para caixas ativas compactas com Bluetooth, HDMI e streaming — a porta de entrada para uma nova geração descobrir por que cornetas soam diferentes de tudo.

Depois de Paul

Em 1989, aos 85 anos, Paul vendeu a empresa para seu primo Fred Klipsch e a esposa Judy. A sede administrativa foi para Indianapolis, mas a fábrica ficou em Hope. Paul continuou trabalhando, publicando artigos no Journal of the Audio Engineering Society até os 96 anos. Morreu em 5 de maio de 2002, aos 98 anos, com 23 patentes no currículo e uma indução no Engineering and Science Hall of Fame — ao lado de Thomas Edison e dos irmãos Wright.

Em 2011, a Klipsch foi adquirida pela Audiovox (depois rebatizada Voxx International) por 166 milhões de dólares. Em 2025, a Voxx foi comprada pela Gentex Corporation. A fábrica de Hope continua funcionando. As cornetas continuam tocando.

Áudio era um hobby e depois uma profissão, mas ainda me considero um amador — no sentido de que amador é aquele que pratica sua arte por amor.

Paul W. Klipsch (1904-2002)

Paul Klipsch era teimoso, briguento, genial e incapaz de aceitar besteira — em qualquer sentido da palavra. O mundo do áudio soa melhor por causa dele. E se você discordar, ele provavelmente diria apenas uma coisa.

⌬ FIM · 6 min de leitura

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