Sem categoria 17 SET 2026

KEF: do barracão militar em Kent ao driver Uni-Q que redefiniu o que uma caixa de som pode ser

Fundada em 1961 por um engenheiro da BBC num barracão Nissen na Kent Engineering and Foundry, a KEF transformou materiais plásticos, computadores e um driver revolucionário em seis décadas de alto-falantes que mudam o jogo.

SEM CATEGORIA

Em outubro de 1961, um engenheiro chamado Raymond Cooke alugou um barracão Nissen — aquelas estruturas semicilíndricas de metal corrugado que sobraram da Segunda Guerra — no terreno da Kent Engineering and Foundry, em Maidstone, condado de Kent. O nome da empresa nova? KEF, as iniciais do local. A ambição? Construir alto-falantes que reproduzissem música com naturalidade genuína, sem drama, sem exagero, sem artifício. Sessenta e cinco anos depois, a KEF continua em Maidstone, continua obcecada por engenharia, e continua desafiando tudo o que achamos saber sobre como uma caixa de som deve funcionar.

O engenheiro da BBC que queria mais

Raymond Cooke não era um empreendedor qualquer. Veterano da Marinha Real britânica na Segunda Guerra, ele passou pela BBC como engenheiro de design antes de se tornar diretor técnico da Wharfedale — na época, uma das marcas mais respeitadas do hi-fi britânico. Na Wharfedale, Cooke aprendeu tudo sobre construção de alto-falantes, mas se frustrou com a insistência da indústria em usar cones de papel quando novos materiais plásticos estavam se tornando disponíveis.

A KEF nasceu dessa frustração. Cooke queria experimentar com polipropileno, Bextrene e outros materiais sintéticos que prometiam maior consistência, menor coloração e melhor controle sobre o comportamento do cone. Nos primeiros anos, a empresa forneceu drivers para outras marcas e desenvolveu uma reputação por rigor de engenharia que atraiu a atenção de quem mais entendia de reprodução sonora na Grã-Bretanha: a BBC.

Os drivers que conquistaram a BBC

A parceria com a BBC foi transformadora. Cooke retomou seu relacionamento de trabalho com a corporação, e a KEF passou a fabricar exclusivamente o monitor LS5/1a. Mas o grande legado dessa parceria veio com dois drivers: o B110 (woofer/midrange de 5 polegadas) e o T27 (tweeter de cúpula). Esses dois componentes foram selecionados pela BBC para integrar o LS3/5A — o lendário monitor compacto que, a partir de 1975, se tornou referência absoluta em estúdios de rádio e gravação no mundo inteiro.

O LS3/5A era pequeno, honesto e revelador — qualidades que vieram diretamente da obsessão de Cooke por medição e precisão. Em 1973, a KEF se tornou a primeira fabricante de alto-falantes do mundo a usar computadores no design e na medição de seus produtos. Enquanto concorrentes ainda confiavam em ouvido e intuição, Cooke já cruzava dados acústicos com modelos computacionais.

Uni-Q — a revolução de 1988

Se a KEF tivesse parado nos drivers da BBC, já teria garantido seu lugar na história. Mas em 1988, a empresa patenteou uma invenção que mudaria a reprodução sonora para sempre: o Uni-Q.

O conceito é elegante na simplicidade e diabólico na execução: posicionar o tweeter no centro acústico do woofer, no vértice do cone, criando uma fonte sonora coincidente. O resultado é que as frequências graves, médias e agudas emanam do mesmo ponto no espaço — algo que drivers convencionais, montados separados no gabinete, não conseguem fazer.

As vantagens são audíveis: dispersão uniforme em todas as direções, imagem estéreo estável independente da posição do ouvinte, e integração perfeita entre tweeter e woofer sem a zona morta que os crossovers convencionais criam. Hoje na sua 12ª geração, o Uni-Q está presente em praticamente todos os produtos KEF — da acessível série Q à referência Blade.

Reference, Blade e o futuro

A série Reference, lançada originalmente nos anos 1970, evoluiu ao longo de décadas até se tornar uma das linhas mais respeitadas do hi-fi mundial. Mas foi o Blade que capturou a imaginação do público. Concebido como conceito em 2006, apresentado ao público em 2009 e lançado comercialmente em 2011, o Blade é uma escultura sonora: um gabinete fino e curvado onde dois Uni-Q de 5 polegadas trabalham em configuração force-cancelling, eliminando vibrações parasitas e deixando apenas o som.

A LS50, lançada em 2012 para celebrar o 50º aniversário da marca, trouxe a tecnologia Uni-Q para um formato bookshelf acessível que se tornou um clássico instantâneo. Sua evolução wireless, a LS50 Wireless e depois a LS60 Wireless, democratizou o acesso ao som KEF para uma geração que não quer lidar com amplificadores separados e cabos de potência.

Em 2020, a KEF introduziu a Metamaterial Absorption Technology (MAT) — uma estrutura labiríntica tridimensional posicionada atrás do tweeter que absorve 99% do som traseiro indesejado. É o tipo de inovação que só surge de uma empresa que nunca parou de investir em pesquisa.

A KEF hoje

Desde 1992, a KEF pertence ao grupo Gold Peak de Hong Kong, que forneceu o capital para expansão sem interferir na filosofia de engenharia. A fábrica em Maidstone continua operando, a equipe de P&D continua desenvolvendo tecnologia proprietária, e o portfólio vai da série Q (entrada audiófila) à Muon (escultura sonora de £ 140.000).

O legado de Raymond Cooke — que faleceu em 1995 e foi agraciado com a Ordem do Império Britânico por seus serviços à indústria de áudio — vive em cada produto que sai de Maidstone. Numa indústria onde muitas marcas licenciam seu nome e terceirizam a fabricação, a KEF continua projetando, testando e montando em casa. O slogan da marca resume tudo: “Listen and Believe”. Depois de 65 anos ouvindo, é difícil não acreditar.

⌬ FIM · 5 min de leitura

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Seja respeitoso
00:00 / 04:33