A história da JBL começa com uma tragédia e um nome falso. James Martini — sim, esse era o nome verdadeiro — nasceu em 14 de janeiro de 1902 em Springfield, Illinois. Ao se mudar para Los Angeles em 1927, decidiu que um imigrante italiano teria mais chances com um nome anglo-saxão. Rebatizou-se James Bullough Lansing e, naquele mesmo ano, fundou a Lansing Manufacturing Company ao lado de Ken Decker. Fabricavam drivers de 6 e 8 polegadas para rádios de console. Era o começo de uma carreira que deixaria marcas permanentes — literalmente — na indústria do áudio.
Altec Lansing: o primeiro império
A parceria com Decker prosperou até 1939, quando Decker morreu num acidente de avião. A empresa entrou em crise financeira e, em 1941, foi adquirida pela Altec Service Corporation. A fusão criou a Altec Lansing — uma das marcas mais respeitadas da era dourada do áudio americano. Lansing assumiu como VP de Engenharia com um contrato de cinco anos.
Foi na Altec Lansing que Lansing desenvolveu sistemas de som para cinemas que dominaram Hollywood nos anos 1940. Mas a relação corporativa sufocava o perfeccionista. No dia exato em que seu contrato expirou, em 1946, ele saiu.
Nasce a JBL — por acidente jurídico
Lansing fundou imediatamente a “Lansing Sound, Incorporated”. A Altec Lansing reagiu com uma ameaça de violação de marca registrada — afinal, o sobrenome Lansing era deles também. Forçado a renomear a empresa, ele escolheu suas iniciais: James B. Lansing Sound, Incorporated — JBL. Um dos nomes mais icônicos do áudio nasceu de uma disputa legal.
O primeiro produto significativo foi o D130, um alto-falante de 15 polegadas lançado em 1947. Revolucionário: bobina de voz chata de 4 polegadas, frame fundido em vez de estampado, ímãs de Alnico. O D130 seria mais tarde usado no lendário Wall of Sound do Grateful Dead — uma parede de 600 alto-falantes que redefiniu o som ao vivo nos anos 1970. Ele continua em produção hoje como E130.
A morte prematura de um gênio
Apesar da genialidade técnica, Lansing era um péssimo empresário. Problemas financeiros e pessoais se acumularam. Em 24 de setembro de 1949, aos 47 anos, James Bullough Lansing tirou a própria vida em sua casa em San Marcos, Califórnia. Deixou para trás uma empresa frágil e um legado que ele nunca imaginou o tamanho.
William Thomas assumiu a presidência e estabilizou a operação. A JBL sobreviveu — e em breve prosperaria de formas que seu fundador jamais previu.
A era dourada: Hartsfield, Paragon e L100
Em 1954, a JBL lançou o Hartsfield — um corner horn de mais de 100 kg que a revista Life chamou de “o alto-falante dos sonhos absolutos”. O salto de prestígio foi imediato.
Três anos depois veio o Paragon D44000, possivelmente o produto mais extraordinário da história da JBL. Com 2,7 metros de largura e mais de 100 horas de acabamento manual por unidade, o Paragon foi o primeiro alto-falante estéreo produzido em massa para uso doméstico. Projetado por Arnold Wolf, parecia mais um móvel de design escandinavo do que um equipamento de áudio. Cerca de mil unidades foram fabricadas entre 1957 e 1983 — o maior ciclo de produção da JBL. Exemplares em bom estado hoje custam dezenas de milhares de dólares.
Em 1970, a JBL acertou o alvo comercial com o L100 Century: uma versão consumer do monitor de estúdio 4310, com a icônica grade de espuma laranja. Vendeu mais de um milhão de unidades e tornou a JBL uma marca de massa. Até 1977, mais estúdios de gravação usavam monitores JBL do que todas as outras marcas combinadas.
Harman, Samsung e a era Bluetooth
Em 1969, a Harman International adquiriu a JBL. A marca manteve sua identidade dentro do grupo, expandindo para cinema, instalação profissional e, eventualmente, áudio automotivo. Em 2016, a Samsung comprou a Harman International inteira por US$ 8 bilhões — uma aquisição impulsionada principalmente pelo negócio automotivo, que representava 65% da receita da Harman.
Sob o guarda-chuva Samsung, a JBL se reinventou como a marca dominante do áudio portátil. As linhas Go, Clip, Flip, Charge, Xtreme, Boombox e PartyBox cobrem cada faixa de preço e uso, e a JBL detém aproximadamente 32% do mercado global de caixas Bluetooth premium. O engenheiro que mudou de nome e morreu sem reconhecimento construiu, sem saber, a marca de áudio mais presente no bolso das pessoas em todo o mundo.