Música & Cultura 30 AGO 2026

JBL: do engenheiro autodidata que morreu aos 47 anos ao império de 34% do mercado global de caixas portáteis

James Bullough Lansing criou os alto-falantes que equiparam os cinemas de Hollywood, ganhou um Oscar técnico e fundou a marca que hoje domina o áudio portátil — mas não viveu para ver nada disso.

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A história da JBL começa com uma tragédia e termina com um domínio de mercado que nenhuma outra marca de áudio conseguiu replicar. James Bullough Lansing — nascido James Martini, nono de catorze filhos de um engenheiro de mineração de carvão em Illinois — foi um gênio autodidata que revolucionou a reprodução sonora, ganhou um Oscar técnico, fundou duas das marcas mais importantes do áudio mundial, e se matou aos 47 anos, sem jamais ter visto o alcance do legado que deixou.

Do rádio de galena ao Oscar

Lansing nunca recebeu educação formal em engenharia. Aprendeu eletrônica consertando rádios e construindo alto-falantes em Salt Lake City, onde conheceu sua esposa Glenna e o parceiro de negócios Ken Decker. Em 1927, os dois fundaram a Lansing Manufacturing Company em Los Angeles, fabricando drivers de seis e oito polegadas para consoles de rádio.

O salto veio em 1933, quando a MGM Studios encomendou um sistema de som para salas de cinema. O resultado — o Shearer Horn System — foi tão superior ao que existia que ganhou o Academy Award de mérito técnico em 1936. Lansing tinha 34 anos e já havia mudado para sempre o som dos cinemas americanos.

Altec, a saída e o recomeço

Após a morte de Ken Decker num acidente aéreo em 1939, o negócio declinou. Em 1941, a Lansing Manufacturing foi vendida para a Altec Service Corporation, formando a Altec Lansing — uma das marcas mais icônicas do áudio profissional do século XX. Lansing ficou como vice-presidente de engenharia, mas se sentia preso.

Em 1946, livre da cláusula de não-competição, fundou a James B. Lansing Sound, Incorporated — a JBL. O nome usava suas iniciais porque o nome completo já pertencia à Altec Lansing. Em 1947, lançou o D-130, um woofer de 15 polegadas com bobina de voz de fio chato de 4 polegadas — a primeira do tipo em um alto-falante cônico. Era um produto revolucionário, mas as vendas demoravam.

A morte e a sobrevivência

Em 29 de setembro de 1949, James Bullough Lansing tirou a própria vida no rancho que mantinha em San Marcos, Califórnia. Tinha 47 anos. A empresa quase morreu com ele, mas o vice-presidente Bill Thomas assumiu e manteve a operação viva com determinação e empréstimos.

Os anos dourados: Paragon e L100

Sob a gestão de Thomas e engenheiros talentosos, a JBL criou alguns dos produtos mais lendários da história do áudio. Em 1958, veio o D44000 Paragon — um móvel de quase dois metros de largura que usava o princípio de reflexão cilíndrica para criar som estéreo. Era parte alto-falante, parte obra de arte, feito à mão em nogueira. Unidades sobreviventes hoje valem mais de US$ 50 mil.

Em 1970, a JBL lançou a L100, versão doméstica do monitor de estúdio 4310. Com sua grade de espuma laranja icônica, tornou-se a caixa de som mais vendida da história da marca — mais de 100 mil unidades até 1977. A L100 definiu o visual e o som da hi-fi dos anos 1970 na América.

Harman, Samsung e o domínio portátil

Em 1969, a JBL foi adquirida pela Jervis Corporation de Sidney Harman (que mais tarde se tornaria a Harman International). Sob a Harman, a JBL se expandiu para o áudio profissional de tours e instalações, dominando cinemas (mais de 70% das salas mundiais usam JBL) e shows ao vivo.

Em 2017, a Samsung adquiriu a Harman International por US$ 8 bilhões — e com ela, a JBL. A Samsung transformou a JBL na ponta de lança do seu portfólio de áudio portátil, investindo pesado nas linhas Flip, Charge, Xtreme e Boombox. O resultado: a JBL detém hoje aproximadamente 34% do mercado global de caixas Bluetooth portáteis — uma fatia que nenhum concorrente chega perto de ameaçar.

Inovações técnicas que ficaram

Além do D-130, a JBL acumulou contribuições técnicas fundamentais: a geometria magnética SFG (1979) para linearidade do cone, o diafragma de titânio em drivers de compressão (1982), o sistema Differential Drive com bobina dupla (1995) e, mais recentemente, o AI Sound Boost que otimiza o som em tempo real nas caixas portáteis.

James Bullough Lansing não viveu para ver nada disso. Não viu o Paragon, não viu a L100, não viu os cinemas e nem os shows. Não viu a Flip 7 na mochila de milhões de pessoas ao redor do mundo. Mas cada caixa que sai da linha com as três letras JBL carrega, quase 80 anos depois, a obsessão de um autodidata que só queria que o som soasse como deveria.

⌬ FIM · 4 min de leitura

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