Em 2025, a Shure completou 100 anos de existência — um feito notável para qualquer empresa, extraordinário para uma fabricante de microfones. Nesse século de operação, a Shure não apenas sobreviveu a guerras, revoluções tecnológicas e mudanças radicais na indústria musical: ela definiu como o mundo captura som.
Sidney Shure e a era do rádio
Sidney N. Shure fundou a empresa em 1925 em Chicago, Illinois, como Shure Radio Company — uma distribuidora de kits e peças para rádios amadores. O rádio vivia seu primeiro boom nos Estados Unidos, e Sidney viu oportunidade em fornecer componentes para entusiastas que montavam seus próprios receptores.
Com a crise de 1929, o mercado de kits de rádio colapsou. Sidney precisou pivotar — e escolheu microfones. Em 1932, a Shure lançou seu primeiro microfone, o Model 33N, um condensador de dois botões. Era o início de uma transformação que levaria a empresa de distribuidora de peças a fabricante de referência mundial.
O princípio Uniphase e o Model 55
A grande revolução veio em 1939, quando o engenheiro Benjamin Baumzweiger (que depois adotou o sobrenome Benjamin Bauer) desenvolveu o princípio Uniphase — um método de criar microfones dinâmicos unidirecionais usando um único elemento. Até então, microfones direcionais exigiam múltiplos elementos e eram complexos e caros.
O resultado foi o Unidyne Model 55, o icônico microfone cromado com formato de “lápide” que se tornou símbolo visual do broadcasting americano. Elvis Presley, Frank Sinatra e praticamente todo artista dos anos 1940 a 1960 cantou em um Model 55. O design é tão icônico que a Shure continua produzindo versões atualizadas até hoje.
Segunda Guerra Mundial
Durante a Segunda Guerra, a Shure forneceu microfones para as Forças Armadas americanas. O T-17, um microfone de mão projetado para uso em tanques e veículos militares, precisava funcionar em condições extremas de ruído, temperatura e umidade. A experiência militar ensinou a Shure a construir microfones virtualmente indestrutíveis — uma filosofia que definiria seus produtos profissionais nas décadas seguintes.
SM57 e SM58: os microfones mais importantes da história
Em 1965, a Shure lançou o SM57 — um microfone dinâmico cardioide que rapidamente se tornou o padrão para captação de instrumentos e discursos. O SM57 é o microfone oficial da Presidência dos Estados Unidos desde a administração de Lyndon B. Johnson, e continua sendo usado no púlpito presidencial até hoje.
Um ano depois, em 1966, chegou o SM58 — essencialmente um SM57 com uma grade esférica anti-pop projetada para vocais. O SM58 tornou-se o microfone de palco mais vendido de todos os tempos. Estima-se que mais de 50 milhões de unidades tenham sido vendidas desde o lançamento.
A durabilidade lendária dos SM57 e SM58 gerou incontáveis histórias: microfones que sobreviveram a quedas de andares, atropelamentos e até incêndios. A Shure nunca desencorajou essas lendas — elas eram marketing gratuito que reforçava a reputação de indestrutibilidade.
SM7: de estúdio à lenda do podcasting
Em 1973, a Shure lançou o SM7, um microfone dinâmico de estúdio projetado para broadcasting. O SM7 era um produto respeitado mas discreto — até que o engenheiro Bruce Swedien o escolheu para gravar os vocais de Michael Jackson no álbum Thriller (1982), o disco mais vendido da história.
A versão atualizada, o SM7B (lançado em 2001), ganhou segunda vida na era do podcasting. Quando Joe Rogan adotou o SM7B como seu microfone principal, a demanda explodiu. O SM7B tornou-se o microfone aspiracional de podcasters, streamers e criadores de conteúdo no mundo todo — um renascimento que ninguém na Shure poderia ter previsto.
Monitoração in-ear: o sistema PSM
Nos anos 1990, a Shure pioneirou os sistemas de monitoração in-ear (IEM) com a linha PSM (Personal Stereo Monitor). Antes do PSM, músicos de palco dependiam de monitores de chão (wedges) que geravam volumes ensurdecedores e feedback constante.
O PSM permitiu que cada músico controlasse seu próprio mix via fones intra-auriculares, reduzindo o volume no palco e protegendo a audição. A tecnologia tornou-se padrão em turnês profissionais e abriu caminho para os fones SE Series da Shure, que levaram a qualidade de IEM profissional ao mercado consumidor.
Wireless e a série AXT Digital
A Shure também se tornou referência em microfones wireless profissionais. A linha AXT Digital e os sistemas Axient Digital são usados em grandes produções de TV, Broadway e turnês internacionais. O Axient Digital oferece gerenciamento de espectro em tempo real e criptografia AES-256, atendendo às exigências das maiores produções do mundo.
AONIC e MV7: o consumidor final
A partir de 2020, a Shure expandiu para o mercado consumidor com a linha AONIC de fones com cancelamento de ruído e os microfones MV7 e MV88 para podcasters. O MV7 trouxe a estética e o DNA sonoro do SM7B para um formato USB/XLR acessível, competindo diretamente com Blue Yeti e Rode NT-USB.
A linha AONIC 50 Gen 2 e os true wireless AONIC Free mostraram que a Shure podia competir no mercado de consumo sem diluir sua credibilidade profissional.
Centenário e legado
Ao completar 100 anos em 2025, a Shure permanece como empresa privada sediada em Niles, Illinois (subúrbio de Chicago), com mais de 6.000 funcionários e operações em mais de 100 países. A empresa nunca abriu capital e nunca foi vendida — uma raridade na indústria de áudio, onde aquisições e fusões são constantes.
O legado da Shure é medido não em produtos, mas em momentos: discursos presidenciais, performances lendárias, álbuns que definiram gerações. De Sidney Shure vendendo peças de rádio em 1925 ao SM7B no setup de milhões de podcasters em 2025, a empresa de Chicago provou que construir o melhor microfone possível — e fazê-lo durar para sempre — é um modelo de negócio que resiste ao teste do tempo.