Sem categoria 14 SET 2026

A historia da Marantz: o artista grafico que definiu o som ‘quente’ do hi-fi

De um hobby no apartamento em Nova York ao Model 7, o pre-amplificador que virou lenda: como Saul Marantz criou uma estetica sonora que sobrevive ha mais de 70 anos.

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O hobby que virou obsessao

Saul Bernard Marantz nasceu em Nova York em 1911. De formacao, era artista grafico — e bom nisso. Mas sua verdadeira paixao estava no som. No apartamento onde vivia com a familia, Marantz montava e desmontava equipamentos de audio com a mesma dedicacao que aplicava ao design visual. A diferenca e que, enquanto o design pagava as contas, o audio alimentava a alma.

Para Saul, qualidade sonora nao era apenas uma questao tecnica. Era estetica. Assim como uma tipografia elegante ou uma composicao visual equilibrada, o som deveria ter beleza, harmonia e proporcao. Essa filosofia — que parece poetica demais para engenharia — definiria o DNA de tudo que levaria o nome Marantz.

Audio Consolette e o inicio da empresa

Em 1952, Saul construiu o Audio Consolette, um pre-amplificador que rapidamente ganhou atencao nos circulos audiophile de Nova York. A qualidade era tao superior ao que existia no mercado que amigos e conhecidos comecaram a pedir unidades.

Em 1953, encorajado pela demanda, Saul fundou oficialmente a Marantz Company e abriu uma fabrica em Woodside, Queens, Nova York. A operacao era modesta — mais oficina de artesao do que linha de producao industrial — mas a atencao ao detalhe era obsessiva.

A Santissima Trindade: Model 7, Model 9, Model 10B

Tres produtos transformaram a Marantz de uma pequena empresa de Queens numa lenda do audio:

O Model 7 (1958) e, para muitos, o melhor pre-amplificador ja construido. Seu circuito valvulado produzia um som de pureza extraordinaria, com um palco sonoro amplo e aquela “calidez” que se tornaria a assinatura da marca. O Model 7 permaneceu em producao por onze anos consecutivos — uma eternidade no mundo do audio — e unidades originais sao disputadas ferozmente por colecionadores ate hoje.

O Model 9 (1960) era o amplificador de potencia perfeito para acompanhar o Model 7. Monobloco, valvulado, com uma construcao que rivalizava com equipamentos militares em termos de robustez e precisao.

O Model 10B (1964) era um tuner FM que elevou a recepcao de radio a nivel audiophile. Com seu osciloscópio embutido para ajuste fino de sintonia, era tanto uma ferramenta de audio quanto uma peca de design industrial — o artista grafico em Saul jamais separou funcao de forma.

A venda para a Superscope e o declinio

Construir os melhores equipamentos do mundo nao garante saude financeira. Na metade da decada de 1960, pressoes financeiras levaram Saul Marantz a vender a empresa para a Superscope em 1964. Ate o final de 1967, Saul havia deixado completamente a empresa, incapaz de aceitar os compromissos que o novo dono impunha a qualidade.

Sob a Superscope, a Marantz viveu um periodo contraditorio. Por um lado, a marca expandiu dramaticamente seu alcance, lancando receivers que se tornaram classicos da era de ouro do hi-fi: os lendarios 2270 e 2385, com seus dials azulados icônicos, gabinetes de madeira e aquele som quente inconfundivel, sao ate hoje alguns dos equipamentos vintage mais cobiçados do mercado.

Por outro, a pressao por margens maiores levou a reducao de qualidade em diversas linhas, diluindo o prestigio que Saul havia construido com tanto cuidado.

De mao em mao: Philips, D&M e Sound United

Em 1980, a Superscope vendeu a marca Marantz (exceto os direitos na America do Norte) para a Philips Electronics, da Holanda. A Philips adquiriu os direitos norte-americanos restantes em 1992, consolidando a marca sob um unico teto.

A fase Philips trouxe estabilidade e acesso a tecnologia de ponta — incluindo o desenvolvimento do CD, formato que a Philips co-criou com a Sony. Equipamentos Marantz desse periodo sao valorizados pela integracao cuidadosa de tecnologia digital com a estetica sonora analogica da marca.

Em 2001, a Marantz Japan Inc. readquiriu a marca e, em 2002, fundiu-se com a Denon para formar a D&M Holdings. A parceria com a Denon fazia sentido estrategico: Denon trazia forca no mercado japones e em audio/video; Marantz, o prestigio audiophile e a distribuicao global.

A D&M foi posteriormente absorvida pela Sound United, que reuniu sob o mesmo guarda-chuva marcas como Bowers & Wilkins, Polk Audio e Definitive Technology. Em 2022, a empresa de tecnologia medica Masimo adquiriu a Sound United por US$ 1,025 bilhao. E, mais recentemente, a Harman (grupo Samsung) negociou a aquisicao dessas marcas, trazendo Marantz e Denon para o mesmo conglomerado que ja abriga a JBL e a AKG.

O “som Marantz” sobrevive

Atraves de todas essas mudancas de dono, uma coisa permaneceu notavelmente consistente: a assinatura sonora da Marantz. Descrita frequentemente como “quente”, “musical” e “envolvente”, ela se distingue da neutralidade cirurgica que outras marcas hi-fi perseguem.

Hoje, a linha de produtos Marantz inclui receivers Cinema para home theater, amplificadores integrados da serie PM, leitores de CD e SACD, e equipamentos de streaming que trazem a estetica sonora classica para o mundo conectado. O compromisso com componentes de qualidade, circuitos cuidadosamente afinados e aquela apresentacao musical que prioriza o prazer de ouvir sobre a precisao clinica permanece.

Saul Marantz era um artista que enxergava o audio como forma de arte. Mais de 70 anos depois, a marca que leva seu nome ainda soa como se concordasse.

⌬ FIM · 4 min de leitura

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