Música & Cultura 01 SET 2026

Grado Labs: A Família de Brooklyn que Faz Fones de Ouvido à Mão Há 70 Anos e Nunca Saiu do Mesmo Prédio

Da mesa de cozinha de um relojoeiro italiano em 1953 ao status de lenda audiófila, a Grado nunca fez propaganda, nunca usou celebridades e nunca saiu do mesmo quarteirão em Brooklyn. E continua fabricando 150 mil fones por ano, todos à mão.

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Existe um prédio em Brooklyn, Nova York, com a fachada coberta de grafite, sem letreiro vistoso, sem recepção corporativa, sem nada que indique que ali dentro funciona uma das marcas de áudio mais respeitadas do planeta. A Grado Labs ocupa esse mesmo endereço desde outubro de 1955. Antes disso, a empresa funcionava na cozinha do fundador, um andar acima da quitanda de frutas da família. Setenta anos depois, a Grado continua ali — fabricando fones de ouvido à mão, um por um, sem robôs, sem fábrica na China, sem departamento de marketing.

O Relojoeiro que Ouvia Demais

Joseph Grado era relojoeiro na Tiffany & Co., a joalheria mais famosa de Nova York. Suas mãos estavam acostumadas a trabalhar com peças minúsculas, mecanismos de precisão onde um fio de cabelo faz diferença. Mas Joseph tinha outra obsessão além dos relógios: música. E, como tantos obsessivos antes e depois dele, chegou a uma conclusão inevitável — os equipamentos disponíveis não faziam justiça ao som que ele queria ouvir.

Em 1953, na mesa da cozinha do apartamento da família, Joseph começou a fabricar cápsulas fonográficas — aquelas pequenas peças na ponta do braço do toca-discos que leem os sulcos do vinil. Era um trabalho que exigia exatamente o tipo de precisão que um relojoeiro dominava. Cada cápsula era montada à mão, com a meticulosidade de quem ajustava engrenagens suíças. Em setembro daquele ano, Joseph vendeu sua primeira cápsula para a Leonard Radio, loja de eletrônicos em Manhattan. O negócio estava aberto.

A demanda cresceu rápido demais para a cozinha. Em outubro de 1955, a produção se mudou para o prédio que abrigava a quitanda da família Grado, ali mesmo no quarteirão, em Brooklyn. Joseph nunca mais saiu dali.

O Inventor e o Hall da Fama

Joseph Grado não era apenas um artesão habilidoso — era um inventor nato. Ele desenvolveu a primeira cápsula fonográfica estéreo de bobina móvel do mundo, uma inovação que revolucionou a reprodução de vinil. Ao longo de sua carreira, acumulou mais de 48 patentes relacionadas a tecnologias de áudio. Suas cápsulas se tornaram referência absoluta entre audiófilos e profissionais de masterização. Em 1982, Joseph foi introduzido no Audio Hall of Fame — um reconhecimento reservado aos nomes que efetivamente mudaram a indústria do som.

Mas Joseph era também um personagem. Tenor amador, inventor incansável, empresário que nunca quis ser empresário. Ele administrava a Grado como um ateliê, não como uma corporação. Cada cápsula que saía de suas mãos carregava a mesma atenção que ele dedicava aos relógios da Tiffany.

O Sobrinho que Salvou a Empresa

Em 1965, um garoto de doze anos chamado John Grado começou a trabalhar na fábrica do tio. Varria o chão, organizava peças, aprendia o ofício observando. Depois da faculdade, em 1975, voltou em tempo integral. Quando Joseph decidiu se afastar da gestão em 1978, John assumiu as operações. Mas o verdadeiro teste viria depois.

No final dos anos 1980, o mercado de vinil entrou em colapso. O CD dominava. Ninguém mais queria comprar cápsulas fonográficas. A Grado, que tinha construído toda a sua reputação em torno de um produto para toca-discos, estava à beira do fechamento. Em 1990, John comprou a empresa do tio e tomou a decisão que definiria o futuro da marca: se as pessoas não estavam mais comprando cápsulas, a Grado faria fones de ouvido.

A aposta era arriscada. A Grado não tinha experiência com headphones. Mas tinha algo que nenhum concorrente poderia copiar: décadas de conhecimento sobre transdutores e reprodução sonora, acumuladas cápsula por cápsula, sulco por sulco.

O SR60 e a Revolução Silenciosa

No início dos anos 1990, a Grado lançou sua primeira linha de fones de ouvido. O modelo de entrada, o SR60, custava uma fração do que os concorrentes cobravam — e soava absurdamente bem. Críticos especializados não acreditavam no que ouviam. A Stereophile o incluiu em suas listas de produtos recomendados. Audiófilos que gastavam fortunas em amplificadores e caixas acústicas descobriram que, por menos de cem dólares, podiam ter uma experiência sonora de tirar o fôlego.

O segredo? Design aberto. Os fones Grado não isolam o ouvinte do ambiente — eles deixam o som respirar, criando uma imagem sonora ampla e natural que fones fechados simplesmente não conseguem reproduzir. Não é para o metrô. Não é para a academia. É para sentar, apertar o play, e ouvir música como ela foi gravada.

Acima do SR60, a linha se expandiu: SR80, SR125, SR325 — cada modelo escalando em qualidade de materiais e refinamento sonoro. No topo, a série Reference e a série Statement — modelos como o RS1, o GS1000, o GS3000e e o lendário PS2000e — entregam desempenho que rivaliza com qualquer fone do mundo, a qualquer preço.

Cânhamo, Madeira e Zero Marketing

Uma das criações mais curiosas da Grado é a linha Hemp: fones fabricados com carcaças de madeira de cânhamo cultivado no próprio Brooklyn, combinadas com maple. O resultado é um som mais quente e encorpado, com uma assinatura única que nenhum outro fabricante consegue replicar — porque nenhum outro fabricante faz fones com cânhamo de Brooklyn.

E aqui está o detalhe mais extraordinário da Grado: a empresa produz cerca de 150 mil fones de ouvido por ano, todos montados à mão, no mesmo prédio de sempre. Cada SR60 passa pelas mesmas mãos e pelo mesmo processo que um GS3000 de quase dois mil dólares. Não existe linha de montagem automatizada. Não existe fábrica terceirizada. O fone que você compra foi montado por alguém em Brooklyn que provavelmente trabalha ali há anos.

A Grado nunca gastou um centavo em publicidade tradicional. Sem campanhas de marketing, sem patrocínio de celebridades, sem noise cancelling, sem Bluetooth — pelo menos não na linha principal. A marca cresceu exclusivamente por boca a boca e por resenhas de críticos que não conseguiam esconder o entusiasmo.

Nós não fazemos o fone que o mercado quer. Nós fazemos o fone que soa certo. Se o mercado concordar, ótimo. Se não, continuamos fazendo do mesmo jeito.

John Grado, sobre a filosofia da empresa

A Terceira Geração

Hoje, a Grado Labs é liderada pela próxima geração da família. Jonathan e Matthew Grado estão aprendendo o ofício da mesma forma que John aprendeu com Joseph — no chão de fábrica, montando fones, ouvindo, ajustando. Em 2023, John passou a liderança para seu irmão Richard, mantendo a empresa firmemente nas mãos da família.

Em um mundo onde marcas de áudio são compradas e vendidas como commodities, onde a fabricação migra para o lugar mais barato e o marketing substitui a engenharia, a Grado permanece como um anacronismo glorioso. Uma família, um prédio, um quarteirão em Brooklyn, setenta anos fazendo a mesma coisa — e fazendo cada vez melhor.

⌬ FIM · 6 min de leitura

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