Música & Cultura 11 JUL 2026

Grado Labs: A Família que Fabrica Fones à Mão em Brooklyn Desde 1953

De cápsulas de vinil na mesa da cozinha a fones de madeira feitos à mão no mesmo prédio há 70 anos — a saga dos Grado prova que tradição artesanal e hi-fi de referência podem coexistir na era digital.

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Na 4614 7th Avenue, em Sunset Park, Brooklyn, existe um prédio que a família Grado comprou em 1918, quando o patriarca Pasquale — imigrante italiano — instalou ali sua frutaria. Mais de um século depois, o mesmo endereço abriga uma das marcas de áudio mais respeitadas do mundo, onde fones de ouvido e cápsulas de vinil continuam sendo montados à mão, um a um, por uma equipe pequena numa operação que desafia toda lógica da manufatura globalizada.

Joseph Grado: do conserto de relógios ao Audio Hall of Fame

Joseph Grado (1924–2015) era relojoeiro de formação, com passagem pela Tiffany & Co., quando uma amizade com Saul Marantz — sim, aquele Marantz — o levou ao departamento de hi-fi da Fairchild. Após deixar a empresa, Joseph investiu US$ 2.000 e começou a fabricar cápsulas de toca-discos (phono cartridges) na mesa de sua cozinha em 1953.

Em 1955, fez sua primeira venda comercial para a Leonard Radio e transferiu a operação para o antigo espaço da frutaria do pai, onde permanece até hoje. O que começou modesto logo se tornou revolucionário: em 1959, Joseph patenteou a primeira cápsula estéreo de bobina móvel (moving coil), uma invenção que transformou a reprodução de vinil.

Ao longo de sua carreira, Joseph acumulou 48 patentes em design de cápsulas — mais que qualquer outro indivíduo na história do campo. No pico de produção, nos anos 1980, a Grado fabricava aproximadamente 10.000 cápsulas por semana. Em 1982, Joseph foi introduzido no Audio Hall of Fame; em 2025, foi incluído postumamente no Hi-Fi Hall of Fame.

A transição para fones: John Grado assume (1990)

John Grado, sobrinho de Joseph, começou varrendo o chão da fábrica em 1965. Assumiu as operações diárias a partir de 1975 e, em 1990, comprou oficialmente a empresa do tio. Com o mercado de vinil em declínio na era do CD, John tomou uma decisão crucial: desenvolver fones de ouvido.

Os primeiros modelos — SR100, SR200 e SR300 — chegaram em 1991. Mas foi o lançamento do SR60, em outubro de 1994, que mudou a trajetória da marca para sempre. Com preço acessível e qualidade sonora que envergonhava fones muito mais caros, o SR60 tornou-se um dos headphones mais recomendados na história do áudio pessoal. A fórmula era simples e radical: design aberto (open-back), espuma plana, headband de couro, cabo fixo e nenhuma concessão estética — toda a engenharia focada exclusivamente no som.

Madeira como material acústico (1996–presente)

Em 1996, o RS1 inaugurou uma nova era: earcups de mogno (mahogany) torneados artesanalmente, cada par com características acústicas únicas da madeira. O conceito não era decorativo — John Grado experimentou dezenas de espécies até encontrar combinações que controlassem ressonância e adicionassem corpo harmônico ao som.

Desde então, a exploração de materiais tornou-se marca registrada:

  • RS1/RS2: mogno
  • GS1000: ipê
  • GS3000: cocobolo
  • PS2000e: maple (bordo)
  • Hemp Headphone (2020): cânhamo comprimido com maple — edição limitada que esgotou rapidamente
  • Bushmills (2013): madeira de barris de whiskey

Os gabinetes de cápsulas topo de linha (série Lineage) utilizam ébano brasileiro, escolhido por densidade e propriedades de amortecimento de ressonância.

A filosofia Grado

O que diferencia a Grado de praticamente todos os concorrentes no mercado de headphones pode ser resumido em cinco pontos:

Feito à mão em Brooklyn: não há fábrica na China, Vietnã ou Malásia. Cada fone é montado manualmente no prédio da família em Sunset Park.

Empresa familiar independente: nunca foi adquirida por um conglomerado. Nenhum investidor externo, nenhuma pressão por crescimento trimestral.

Marketing mínimo: historicamente quase zero investimento em publicidade. A reputação foi construída inteiramente por reviews de especialistas e boca a boca da comunidade audiófila.

Valor honesto: o SR60 (hoje na série Classic por US$ 125) permanece como uma das melhores relações custo-benefício em fones audiophile há três décadas.

Design open-back: todas as linhas principais usam arquitetura aberta, priorizando palco sonoro natural e transparência sobre isolamento — uma declaração de que estes são fones para ouvir música com atenção, não para metrô.

A tecnologia Flux Bridger

Após revolucionar as cápsulas moving coil, Joseph desenvolveu um sistema alternativo: o Flux Bridger (moving iron). Em vez de bobina ou ímã no cantilever, usa uma pequena peça de ferro que modula o fluxo magnético de um sistema fixo. A vantagem é uma das menores massas efetivas móveis possíveis, resultando em rastreamento preciso do sulco com baixíssima distorção.

Todas as cápsulas Grado atuais — da Prestige (a partir de US$ 140) até a Lineage Epoch (US$ 3.500+) — utilizam variações do Flux Bridger. A linha atual se divide em três séries: Prestige (entrada, stylus substituível pelo usuário), Timbre (intermediária, OCC copper coils) e Lineage (flagship, cantilever de safira/boro, diamante Shibata nude, gabinete de ébano brasileiro).

Gerações da família

A Grado está hoje na terceira geração familiar diretamente envolvida:

  • Joseph Grado (fundador, 1953–1990): inventou a cápsula stereo moving coil, desenvolveu o Flux Bridger, acumulou 48 patentes.
  • John Grado (sobrinho, 1990–2023): criou a divisão de headphones, expandiu para madeiras nobres, liderou a empresa por 33 anos. Em 2023, transferiu a liderança para seu irmão Richard.
  • Richard Grado (irmão de John, 2023–presente): COO que assumiu como líder operacional.
  • Jonathan Grado (filho de John): VP de Marketing desde 2014, responsável pela modernização da presença digital da marca.
  • Matthew Grado (filho de John): VP envolvido em desenvolvimento de produto, incluindo a entrada no mercado de in-ears.

Evolução recente: wireless e a Classic Series (2026)

Em 2018, a Grado deu um passo que muitos consideravam improvável: o GW100, seu primeiro fone Bluetooth. Em 2019, o GT220 trouxe true wireless. Puristas criticaram; pragmáticos aplaudiram. A qualidade sonora manteve a assinatura Grado — aberta, detalhada, com médios expressivos.

Em março de 2026, a marca reorganizou sua linha com a Classic Series: sete modelos numa plataforma unificada de driver X2, do SR60 (US$ 125) ao GS3000 (US$ 1.995). A simplificação torna mais fácil para novos consumidores entenderem a hierarquia, sem perder a identidade artesanal de cada modelo.

Legado e relevância

Numa indústria dominada por fabricação em massa, marketing agressivo e obsolescência programada, a Grado permanece como anomalia deliberada. O fato de competir — e frequentemente vencer — contra corporações com orçamentos bilionários, usando artesãos em Brooklyn montando fones um a um, não é nostalgia: é prova de que engenharia acústica excelente independe de escala.

Para o entusiasta brasileiro, os Grado representam um ideal: fones projetados exclusivamente para soar bem, sem compromissos com cancelamento de ruído, conectividade ou moda. Se você valoriza transparência, naturalidade e palco sonoro acima de tudo — e aceita o design aberto — um Grado é quase inevitável na jornada audiófila.

⌬ FIM · 6 min de leitura

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