Na 4614 7th Avenue, no bairro de Sunset Park, Brooklyn, existe um prédio discreto onde cada fone de ouvido ainda é montado à mão. A Grado Labs opera no mesmo endereço desde 1955 — um feito quase absurdo numa indústria que terceiriza tudo para a Ásia. Essa teimosia artesanal não é marketing: é a essência de uma empresa familiar que, em mais de sete décadas, nunca perdeu a identidade.
Joseph Grado: O Relojoeiro que Revolucionou o Vinil
Joseph Grado nasceu em 1924 em Brooklyn, filho de imigrantes italianos. Trabalhou como relojoeiro — inclusive para a Tiffany & Co. — antes de se fascinar pela reprodução sonora. Nos anos 1950, aplicou sua habilidade com mecanismos de precisão ao desenvolvimento de cápsulas phono. O resultado foi revolucionário: Joseph inventou a cápsula stereo moving coil, patenteada por volta de 1959, que permitiu a reprodução estéreo de alta fidelidade a partir de discos de vinil.
Ao longo da carreira, Joseph acumulou mais de 48 patentes relacionadas a transdutores e reprodução de áudio. Seu trabalho foi tão influente que em 1982 ele foi introduzido no Audio Hall of Fame — um reconhecimento reservado às figuras mais transformadoras da indústria. A Grado Labs, fundada em 1953, começou como fabricante de cápsulas phono e rapidamente se tornou referência entre audiófilos e DJs exigentes.
A Transição para Headphones
Durante décadas, a Grado foi sinônimo de cápsulas. Mas em 1991, a empresa deu um passo decisivo: lançou seus primeiros headphones, os lendários SR60. Com design aberto, construção leve e um som que priorizava naturalidade e detalhe, os SR60 conquistaram críticas entusiasmadas e se tornaram uma das melhores relações custo-benefício da história do áudio pessoal.
Em 1994, o SR80 expandiu a linha com drivers ligeiramente maiores e maior refinamento. Mas foi o RS1, com suas conchas de mogno torneadas à mão, que estabeleceu a Grado no topo do segmento premium. O RS1 provou que madeira não era apenas estética — o material contribuía para a assinatura sonora quente e envolvente que se tornou marca registrada da casa.
A filosofia era clara: drivers proprietários, impedância cuidadosamente calibrada, e o mínimo de material entre a música e o ouvido. Nada de cancelamento de ruído, nada de Bluetooth, nada de app companion. Apenas transdutores excepcionais em construções honestas.
De Geração em Geração — Sem Sair de Brooklyn
Em 1990, o sobrinho de Joseph, John Grado, comprou a empresa e assumiu a direção. Sob John, a Grado expandiu a linha de headphones em múltiplas séries — Prestige (SR), Reference (RS) e Statement (GS) — mantendo a fabricação inteiramente em Brooklyn. John trouxe visão comercial sem sacrificar o DNA artesanal: cada par continuava sendo montado, testado e ajustado por mãos humanas.
A geração seguinte trouxe Jonathan Grado, que introduziu inovações como os drivers de quarta geração e novos materiais para as conchas, incluindo cânhamo, cocobolo e maple. Em 2023, Richard Grado assumiu as operações do dia a dia, garantindo que a quarta geração da família estivesse à frente da produção. É raro encontrar uma empresa de áudio que sobreviva a uma sucessão geracional; a Grado já atravessou quatro.
Cápsulas: A Tradição que Nunca Parou
Embora os headphones tenham trazido fama global, a Grado nunca abandonou as cápsulas phono. A linha atual inclui modelos desde a acessível Prestige Black3 até a topo-de-linha Epoch3 — esta última custando milhares de dólares e apresentando um corpo esculpido em madeira australiana. Para quem gira vinil, uma cápsula Grado continua sendo sinônimo de musicalidade e rastreamento impecável.
O renascimento do vinil nos últimos anos deu novo fôlego a essa divisão. Enquanto concorrentes japoneses e europeus dominam o mercado de cápsulas MC de altíssimo custo, a Grado oferece alternativas moving iron com desempenho que rivaliza modelos muito mais caros.
O Legado do Artesanal
A Grado Labs é um anacronismo deliberado. Numa era de fones descartáveis fabricados por milhões na China, cada headphone Grado ainda passa por mãos que conhecem a família há décadas. Funcionários com 20, 30 anos de casa não são exceção — são a regra. Joseph Grado faleceu em 2015 aos 90 anos, mas sua oficina continua funcionando exatamente como ele queria: sem pressa, sem atalhos, sem compromissos.
Para o audiófilo, a Grado representa algo cada vez mais raro: uma marca que soa como ninguém porque fabrica como ninguém. Dos SR60 — que continuam sendo uma das melhores portas de entrada para o áudio de alta fidelidade — aos Statement GS3000e com conchas de cocobolo, a assinatura Grado é inconfundível: médios ricos, agudos detalhados e uma presença que coloca o ouvinte na primeira fila do show.
Setenta e três anos depois, o endereço é o mesmo. A família é a mesma. O compromisso é o mesmo. Em Brooklyn, os Grado continuam fazendo o que sempre fizeram — e fazendo bem.