Música & Cultura 15 AGO 2026

Grado: a família de Brooklyn que faz fones de ouvido à mão no mesmo prédio desde 1953 — e nunca pagou um centavo de publicidade

Do relojoeiro que inventou a cápsula estéreo moving coil na mesa da cozinha aos fones de madeira montados à mão por 20 funcionários no mesmo edifício que a família comprou em 1918 — a saga de três gerações da Grado Labs.

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Na esquina da 4614 7th Avenue, no bairro de Sunset Park, Brooklyn, existe um prédio sem placa, sem vitrine e sem glamour. Por trás da fachada marcada por grafite, cerca de 20 pessoas montam fones de ouvido à mão, enrolam bobinas de cobre, testam cápsulas de vinil e embalam produtos que são enviados para o mundo inteiro. A Grado Labs não tem departamento de marketing. Não paga publicidade desde 1964. Não usa celebridades. E faz alguns dos fones de ouvido mais respeitados do planeta.

O relojoeiro que odiava o som disponível

Joseph Grado era relojoeiro de formação — trabalhou na Tiffany & Company e para Sherman Fairchild antes de se frustrar com a qualidade do áudio doméstico nos anos 1950. Na mesa da cozinha de seu apartamento em Brooklyn, começou a projetar cápsulas de toca-discos. Em 1953, fundou a Grado Laboratories no térreo do prédio que seu pai, Pasquale Grado, havia comprado em 1918 — originalmente uma quitanda de frutas.

Joseph não era apenas competente: era brilhante. Inventou a primeira cápsula estéreo moving coil, recebendo a patente em 1959, e acumulou 48 patentes ao longo da vida. Foi induzido ao Audio Hall of Fame em 1982. Morreu em 6 de fevereiro de 2015, aos 90 anos.

O sobrinho que salvou a empresa da morte

John Grado, sobrinho de Joseph, começou varrendo o chão da fábrica em 1965, aos poucos aprendendo cada etapa da produção. Quando a empresa enfrentou fechamento iminente no final dos anos 1980, John fez algo improvável: comprou a Grado Labs em 1990 e decidiu que, além de cápsulas, a marca faria fones de ouvido.

A aposta parecia absurda — fones audiophile feitos à mão em Brooklyn, por uma empresa minúscula, sem verba de marketing? Mas John e sua esposa Loretta tinham uma filosofia radical: fazer produtos que eles gostariam de usar, sem pesquisa de mercado, sem comitê de design, sem compromisso com tendências. O método de desenvolvimento era — e continua sendo — tentativa e erro, guiado pelo som de música ao vivo como referência absoluta.

Os fones que mudaram a audiofilia acessível

Em março de 1994, a Grado lançou o SR80. Em outubro, veio o SR60 — um fone aberto de US$ 99 que soava melhor que concorrentes de US$ 300. O SR60 se tornou um dos fones mais influentes da história do áudio, provando que som audiófilo não precisava custar uma fortuna. Em 1996, o RS1 — com conchas de mogno — inaugurou a Reference Series e estabeleceu a estética de madeira que se tornaria marca registrada.

Desde então, a linha cresceu organicamente: o GS1000 com conchas de madeira exótica, o Hemp com gabinete de compósito de cânhamo, e mais recentemente o GT220 — os primeiros earbuds true wireless da marca, a US$ 259, que surpreenderam críticos com som “acima da classe” (Engadget, What Hi-Fi).

Madeira, cobre e mãos humanas

Os fones topo de linha da Grado usam conchas de madeira que combinam materiais como mogno, ipê e maple — cada madeira escolhida por suas propriedades acústicas, não cosméticas. O GS3000x, flagship atual, tem o maior driver da história da marca: 52 mm. As bobinas de voz são enroladas em cobre ultra-puro sem oxigênio, manualmente, e depois termicamente envelhecidas e calibradas individualmente.

A mesma obsessão artesanal se aplica às cápsulas de vinil, que continuam sendo fabricadas internamente — linhas Lineage, Timbre, Prestige e Specialty, além de estiletes avulsos.

Zero publicidade, todo o boca a boca

A Grado não paga publicidade desde 1964. Não tem contratos de endorsement. Não patrocina eventos. A marca cresceu inteiramente por boca a boca entre audiófilos, dealers e, mais recentemente, orgânica nas redes sociais — sob a gestão de Jonathan Grado, filho de John, que entrou na empresa em 2013 como VP de Marketing (com orçamento de marketing de exatos zero dólares).

Isso não impediu fãs ilustres: Neil Young, Aerosmith e o cineasta Spike Jonze são usuários declarados — sem receber um centavo ou um fone de graça por isso.

Três gerações, um prédio, uma filosofia

Hoje, Jonathan e seu irmão Matthew Grado (VP de Operações) representam a terceira geração à frente da empresa. O prédio da 4614 7th Avenue continua sendo fábrica e sede — mais de um século depois que Pasquale Grado o comprou para vender frutas. Os fones da linha Prestige X começam em US$ 99 (SR60x) e vão até US$ 295 (SR325x), enquanto a Signature Line e os flagships ultrapassam US$ 1.000.

Numa indústria onde marcas são compradas por conglomerados, fábricas migram para a China e marketing domina o produto, a Grado continua fazendo o oposto de tudo — e funcionando. Talvez porque a melhor publicidade que um fone de ouvido pode ter é ser colocado na cabeça de alguém e ligado.

⌬ FIM · 4 min de leitura

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