Toda grande marca de áudio tem uma história de obsessão. A da Focal começa com um jovem engenheiro e jornalista de hi-fi chamado Jacques Mahul, uma oficina de mecânica de precisão que pertencia ao seu pai, e a convicção de que a França podia fazer alto-falantes melhores que qualquer um — desde que alguém tivesse paciência para reinventar cada componente do zero.
O começo: drivers antes de caixas (1979–1982)
Em 1979, Jacques Mahul fundou a Focal em Saint-Étienne, uma cidade industrial no sudeste da França conhecida por metalurgia e ciclismo — não exatamente um polo de áudio. Mahul não começou fazendo caixas acústicas. Começou fazendo drivers — os alto-falantes individuais (woofers, tweeters, midranges) que são o coração de qualquer sistema de som.
A ideia era vender drivers de alta qualidade para outros fabricantes de caixas. E funcionou: a Focal rapidamente ganhou reputação entre construtores de caixas DIY e pequenos fabricantes europeus pela qualidade dos seus cones e pela obsessão com novos materiais.
Em 1982, Mahul decidiu que era hora de fazer caixas completas. Nasceu a marca JMlab (as iniciais de Jacques Mahul + laboratório), que usava exclusivamente drivers Focal. A primeira caixa, a DB13, era uma bookshelf compacta que incorporava duas inovações que se tornariam assinatura da marca: os cones de Polyglass (fibra de vidro microesférica aplicada sobre papel) e Polykevlar (aramida tecida).
A obsessão por materiais
Se a KEF é conhecida pelo driver coaxial Uni-Q e a B&W pelo tweeter de diamante, a Focal é a marca que mais investiu em pesquisa de materiais para cones. A lista de patentes lê como um catálogo de ciência de materiais:
- Polyglass (1985): microesferas de vidro fundidas sobre celulose. Combinava a leveza do papel com a rigidez do vidro.
- W Sandwich (1995): fibra de vidro sobre espuma estrutural. Usado nos woofers da linha Utopia.
- Berílio puro (2003): a Focal foi a primeira marca a usar berílio puro (não apenas revestimento) em tweeters invertidos. O berílio é sete vezes mais rígido que o titânio com metade do peso — e custa uma fortuna para usinar.
- Flax (2013): fibra de linho (sim, linho) sanduichada entre camadas de fibra de vidro. Leve, amortecida e com resposta mais natural que o kevlar.
Cada material novo não era exercício acadêmico — ia direto para produtos comerciais, da linha de entrada à referência.
Utopia: o Olimpo do hi-fi
Em 1995, a Focal lançou a linha Grande Utopia — uma torre de quase 1,80 m de altura que se tornaria uma das caixas mais respeitadas (e mais caras) do mundo. Com drivers de berílio, gabinete inerte e design que separava cada driver em seu próprio volume acústico, a Grande Utopia colocou a Focal no mesmo patamar de Wilson Audio, Magico e B&W como referência absoluta em reprodução sonora.
Ao longo dos anos, a linha Utopia evoluiu para a Utopia Evo e ganhou modelos menores — Scala Utopia, Diablo Utopia, Maestro Utopia — mantendo o berílio e a engenharia premium em diferentes tamanhos e preços. Preços que, vale dizer, começam em torno de US$ 10.000 o par e vão até US$ 250.000.
De JMlab a Focal: unificação e expansão
Em 2002, a marca JMlab foi oficialmente descontinuada. Todos os produtos passaram a ser vendidos apenas como Focal. A mudança refletia a realidade: a marca Focal já era mais conhecida que JMlab, e manter duas identidades confundia o mercado.
A partir daí, a Focal expandiu agressivamente:
- Áudio automotivo: a Focal virou referência em sistemas de som para carros, especialmente na Europa. A linha Utopia M, Integration e Access equipa desde instalações de concurso até upgrades de fábrica.
- Monitores de estúdio: a linha Shape, Solo6 e Twin6 conquistou estúdios de produção musical e pós-produção de cinema.
- Fones de ouvido: em 2016, a Focal lançou o fone Utopia — com driver de berílio de 40 mm — que rapidamente se tornou referência na audiofilia portátil. Custava US$ 3.999 e dividia opiniões pelo conforto, mas não pelo som.
A fusão com a Naim (2011)
O movimento mais surpreendente veio em 2011, quando a Focal se fundiu com a britânica Naim Audio para formar o grupo Vervent Audio. A lógica era complementar: a Focal fazia os melhores transdutores da França, a Naim fazia a melhor eletrônica da Inglaterra. Juntas, podiam oferecer sistemas completos sem depender de terceiros.
A fusão respeitou a identidade de cada marca — a Focal continua projetando e fabricando em Saint-Étienne, a Naim continua em Salisbury. Mas os bastidores mudaram: componentes são compartilhados, e sistemas integrados como o Focal + Naim Mu-so mostram o que acontece quando as duas engenharias colaboram.
Made in France, de verdade
Uma das coisas mais notáveis sobre a Focal é que ela realmente fabrica na França. Não é montagem final com peças chinesas — os cones, os tweeters de berílio, as bobinas, as cestões dos drivers são produzidos na fábrica de Saint-Étienne. São mais de 500 funcionários e uma linha de produção que mistura automação com trabalho artesanal. Pouquíssimas marcas de áudio no mundo mantêm esse nível de verticalização.
Jacques Mahul começou fazendo drivers no porão do pai porque achava que a indústria estava acomodada. Quarenta e cinco anos depois, a Focal continua fazendo exatamente isso — só que agora o mundo inteiro ouve.
Redação Guia do Áudio