Música & Cultura 30 AGO 2026

Focal: o professor de matemática que fabricava drivers no porão do pai e construiu o tweeter de berílio que ninguém mais consegue copiar

De uma oficina em Saint-Étienne à fusão com a Naim e à venda para a Barco por € 135 milhões — a Focal nunca deixou de fabricar cada driver com as próprias mãos.

MÚSICA & CULTURA

Na cidade de Saint-Étienne, no centro-sul da França, existe uma fábrica onde engenheiros manuseiam berílio — um metal tão rígido que o som viaja nele três vezes mais rápido que no titânio, e tão tóxico em forma de pó que exige protocolos de segurança dignos de laboratório nuclear. É lá que a Focal fabrica, há mais de 45 anos, cada driver que coloca dentro de suas caixas. Numa indústria onde quase todos terceirizam a produção de transdutores, a Focal é uma das raríssimas marcas que controla o processo inteiro — da matéria-prima ao produto final.

O professor, a oficina e o DB13

Jacques Mahul era professor de matemática na universidade e engenheiro na Audax, a maior fabricante francesa de drivers. Apaixonado por hi-fi e por carros clássicos, começou a projetar alto-falantes como hobby no ateliê de engenharia de precisão do pai, em Saint-Étienne. Em 1979, fundou a Focal, produzindo drivers que vendia para outros fabricantes de caixas. Paralelamente, criou a marca JMlab (Jacques Mahul Laboratoire) para suas próprias caixas acústicas.

O primeiro sucesso comercial foi o DB13, uma bookshelf compacta que entregava graves comparáveis aos de caixas muito maiores. A comunidade hi-fi europeia prestou atenção: havia algo diferente no som que saía de Saint-Étienne.

O tweeter de berílio invertido

A inovação mais importante da Focal veio em 2002, com o tweeter de domo invertido em berílio puro. A geometria invertida (com a cúpula voltada para dentro, não para fora) já era uma assinatura da Focal — distribui as altas frequências de forma mais uniforme. Mas usar berílio puro mudou as regras: o material é sete vezes mais rígido que titânio ou alumínio para a mesma massa, permitindo que um único tweeter cubra mais de cinco oitavas — de 1.000 Hz a 40.000 Hz — com distorção mínima.

A série Utopia Be, lançada naquele mesmo ano, colocou a Focal no mapa da alta fidelidade mundial. A Grande Utopia Be, com preço em torno de US$ 80 mil o par, se tornou referência absoluta entre caixas de chão full-range. Até hoje, nenhum concorrente replicou o processo de fabricação do tweeter de berílio da Focal em escala — é caro, perigoso e exige domínio técnico que levou décadas para aperfeiçoar.

Do cone W ao TMD

Além do berílio, a Focal desenvolveu o cone “W” (sanduíche): duas camadas de fibra de vidro com uma camada central de espuma, equilibrando leveza, rigidez e amortecimento. É o driver usado na maioria das caixas da marca fora da linha flagship. Em 2015, a linha Sopra trouxe a tecnologia TMD (Tuned Mass Damper), que usa pesos toroidais posicionados com precisão na suspensão do driver para neutralizar vibrações parasitas — emprestada da engenharia civil de arranha-céus e pontes.

Monitores de estúdio e fones

Em 2003, a Focal entrou no mercado profissional com o Solo6 Be, que rapidamente se tornou um dos monitores de estúdio mais respeitados do mundo. A linha cresceu com o Twin6, Trio6 e Trio11 Be, encontrando lugar em estúdios de gravação, masterização e pós-produção de cinema.

Em 2016, veio outro salto: a Focal lançou o Utopia, seu primeiro fone de ouvido flagship — um open-back com drivers de berílio puro por aproximadamente US$ 4.000. A linha se expandiu com o Stellia (closed-back), Clear Mg (open-back acessível), Celestee e, em 2022, o Bathys — o primeiro fone wireless com cancelamento de ruído da marca, a US$ 799.

Naim, Alpha e Barco

Em 2011, a Focal se fundiu com a britânica Naim Audio sob o guarda-chuva do VerVent Audio Group. A parceria fez sentido: a Focal faz caixas excepcionais e a Naim faz eletrônica excepcional. As lojas “Focal Powered by Naim” — mais de 80 no mundo — vendem sistemas integrados das duas marcas.

Em 2019, o fundo Alpha Private Equity assumiu o controle do VerVent. E em 2026, a belga Barco — conhecida por projetores de cinema e soluções audiovisuais — anunciou a aquisição de 100% do VerVent por aproximadamente € 135 milhões, criando um conglomerado integrado de áudio e vídeo profissional.

O que a Focal representa

A Focal é a antítese do áudio globalizado e terceirizado. Numa era em que a maioria das marcas projeta na Europa e fabrica na China, a Focal continua produzindo drivers em Saint-Étienne e gabinetes em Bourbon-Lancy, na Borgonha — com cerca de 300 funcionários dedicados a fazer alto-falantes como se fossem instrumentos de precisão. A Grande Utopia EM Evo, a flagship atual com motor eletromagnético no woofer, custa mais de US$ 200 mil o par — e tem fila de espera.

Jacques Mahul começou no porão do pai. Quarenta e sete anos depois, sua marca fabrica o tweeter que nenhum concorrente conseguiu copiar — e o som que sai de Saint-Étienne continua viajando mais rápido que em qualquer outro lugar.

⌬ FIM · 4 min de leitura

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