Sem categoria 21 SET 2026

Focal: o engenheiro de Saint-Etienne que inventou o tweeter de berilio e transformou caixas de som em objetos de desejo

De uma oficina de mecanica de precisao nos Alpes franceses ao Comite Colbert das marcas de luxo — a trajetoria de Jacques Mahul e da Focal em quase cinco decadas de obsessao pelo som perfeito.

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Poucas marcas de áudio conseguem ser, ao mesmo tempo, fornecedoras de componentes para a indústria, referência em estúdios de gravação e objeto de desejo entre audiófilos. A Focal é uma delas. Fundada em 1979 por Jacques Mahul em Saint-Étienne, no coração industrial da França, a empresa transformou a fabricação de alto-falantes em uma forma de engenharia de precisão — e, ao longo de quase cinco décadas, construiu um catálogo que vai de fones de ouvido sem fio a caixas acústicas de US$ 210 mil o par.

A oficina do pai e as duas marcas

Jacques Mahul não começou do zero. Seu pai comandava a France Filières, uma empresa de mecânica de precisão em Saint-Étienne — cidade conhecida historicamente pela manufatura de armas, bicicletas e máquinas-ferramenta. Foi ali, usando os tornos e fresas da fábrica paterna, que Mahul começou a projetar drivers de alto-falante no fim dos anos 1970.

Desde o início, a operação foi dividida em duas frentes: Focal, marca voltada à fabricação de transdutores (drivers) para outros fabricantes (OEM), e JMlab, que assinava as caixas acústicas prontas. Essa separação durou décadas e ajudou a empresa a ganhar escala sem comprometer a imagem de produto final.

Primeiros sucessos e a membrana de Kevlar

O primeiro grande êxito comercial veio em 1982, com a DB 13, uma caixa bookshelf que chamou atenção pela relação entre tamanho, preço e qualidade sonora. Mas o salto tecnológico que definiu a identidade da Focal aconteceu em 1986, com o desenvolvimento da membrana K2 de Kevlar — aquele cone amarelo inconfundível que se tornaria assinatura visual da marca.

Em 1989, a Focal expandiu para o segmento automotivo, criando uma divisão de car audio que seria, mais tarde, a porta de entrada para parcerias com montadoras como a Peugeot.

Grande Utopia: a caixa que mudou tudo

Em meados dos anos 1990, a Focal apostou alto. A Grande Utopia, lançada entre 1995 e 1996, era uma caixa de chão monumental — quatro vias, mais de 1,80 m de altura, com cada driver desenvolvido especificamente para o projeto. A recepção da imprensa especializada foi unânime: a Grande Utopia colocou a Focal (ainda sob a marca JMlab) no mapa da alta-fidelidade mundial.

A Grande Utopia não era apenas uma caixa de som. Era uma declaração de intenções: a Focal queria competir com as melhores do mundo — e provou que podia.

— Imprensa especializada europeia, anos 1990

Berílio: o material que ninguém mais conseguiu dominar

Em 2002, a Focal apresentou ao mundo seu tweeter de berílio — um feito de engenharia que pouquíssimos fabricantes conseguiram replicar. O berílio é sete vezes mais rígido que o titânio e três vezes mais leve que o alumínio, o que o torna ideal para reproduzir frequências altas com precisão absoluta e distorção mínima. O problema é que trabalhar com berílio é extremamente difícil e requer processos industriais raros.

A Focal desenvolveu um método proprietário de deposição a vácuo para criar domos de berílio puro, e mantém essa produção inteiramente em Saint-Étienne. No mesmo ano, nasceu a Focal Professional, divisão dedicada a monitores de estúdio que rapidamente ganhou espaço em estúdios de masterização ao redor do mundo.

Naim, Utopia em fones e a era dos wearables

Em 2011, a Focal se uniu à britânica Naim Audio, especialista em amplificadores e streamers de alta-fidelidade. Juntas, formaram o VerVent Audio Group. Em 2014, um management buyout reorganizou a estrutura societária, com a Naxicap Partners assumindo como acionista majoritária.

O ano de 2016 foi especialmente marcante. A Focal lançou os fones de ouvido Utopia, os primeiros do mundo com drivers de berílio — uma transferência direta de tecnologia das caixas acústicas para um formato pessoal. Paralelamente, firmou uma parceria OEM com a Peugeot para os modelos 3008 e 5008, levando seu som para o interior de automóveis franceses.

Em 2019, a marca inaugurou as primeiras lojas Focal Powered by Naim em Seul e Lyon, unindo os dois universos — caixas e eletrônica — em experiências imersivas de varejo. No mesmo ano, celebrou 40 anos de existência.

Wireless, luxo e novos territórios

Os anos seguintes trouxeram diversificação acelerada. Em 2020, a Focal inaugurou uma divisão de áudio marítimo. Em 2022, lançou os Bathys, seus primeiros fones wireless com cancelamento de ruído ativo — e com DAC USB integrado para quem não abre mão da conexão com fio. Em 2025, vieram os Bathys MG, com driver de magnésio e acabamento refinado.

Em 2024, a Focal foi aceita no Comité Colbert, a prestigiosa associação que reúne as marcas de luxo francesas — ao lado de nomes como Louis Vuitton, Hermès e Baccarat. Não por acaso: todos os produtos de alta gama da marca são projetados e fabricados na França, com drivers em Saint-Étienne e gabinetes no ateliê de marcenaria de Bourbon-Lancy. A empresa ostenta o selo Entreprise du Patrimoine Vivant (Empresa do Patrimônio Vivo), concedido pelo estado francês.

Barco e o futuro audiovisual

O capítulo mais recente começou em março de 2026, quando a belga Barco — gigante de soluções audiovisuais profissionais — anunciou a aquisição da VerVent Audio por 135 milhões de euros. A transação foi concluída em maio do mesmo ano, e Focal e Naim passaram a integrar o Barco Group.

A estratégia declarada é construir um líder europeu em soluções audiovisuais integradas, combinando a expertise da Barco em projeção e vídeo com a excelência acústica da Focal e a eletrônica da Naim. O primeiro sinal dessa convergência veio rápido: em junho de 2026, a Focal apresentou a Diva Alta Utopia, uma caixa ativa wireless de quatro vias com 600 W de amplificação Naim embarcada, ao preço de US$ 210 mil o par.

A Diva Alta Utopia é diretamente inspirada na icônica Grande Utopia. Ela retoma seus princípios fundadores — arquitetura de quatro vias, Focus Time Management, cone W — e os integra em uma visão contemporânea de hi-fi ativo.

— Focal, junho de 2026

O legado de Saint-Étienne

Das linhas acessíveis como a Aria até a estratosfera da Utopia, passando pela Kanta (que democratizou o tweeter de berílio na faixa intermediária), pela Sopra, pela Scala e pelos fones Clear, Celestee e Utopia, a Focal mantém uma coerência rara: toda a tecnologia de driver nasce na mesma cidade onde Jacques Mahul começou, usando os mesmos princípios de mecânica de precisão que herdou do pai.

Quase cinco décadas depois daquele primeiro protótipo feito nos tornos da France Filières, a Focal prova que é possível ser, ao mesmo tempo, uma indústria de escala e uma maison de luxo — desde que o ponto de partida seja sempre a obsessão pelo som.

⌬ FIM · 6 min de leitura

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