Música & Cultura 10 SET 2026

ELAC: do sonar militar de Kiel ao tweeter JET que virou referência — 100 anos de uma marca que começou ouvindo submarinos

Fundada em 1926 para ouvir submarinos, a ELAC de Kiel inventou o tweeter de fita dobrada, atraiu Andrew Jones e completa um século fazendo caixas que medem tão bem quanto soam.

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Existe algo poeticamente apropriado em uma empresa que nasceu tentando ouvir o que se escondia debaixo d’água e acabou construindo alguns dos tweeters mais reveladores da história do áudio doméstico. A ELAC — originalmente Electroacustic GmbH — foi fundada em 1.º de setembro de 1926 em Kiel, cidade portuária no norte da Alemanha, com uma missão que nada tinha a ver com música: pesquisar acústica subaquática e desenvolver tecnologia de sonar. Um século depois, a marca completa cem anos como sinônimo de engenharia alemã aplicada à reprodução sonora de alta fidelidade.

Debaixo d’água: as origens militares

Kiel era — e ainda é — a principal base naval da Alemanha. A ELAC nasceu ali por necessidade estratégica: o país precisava de equipamentos capazes de detectar submarinos e mapear o fundo do mar com precisão. Durante os anos 1930 e ao longo da Segunda Guerra Mundial, a empresa se tornou fornecedora da Kriegsmarine, produzindo dispositivos eletroacústicos para aplicações navais. No pico da produção bélica, a ELAC chegou a empregar 5 mil funcionários. Quando a guerra terminou, a empresa enfrentou o mesmo dilema de dezenas de fabricantes alemães: reinventar-se para o mercado civil ou desaparecer.

Do sonar ao toca-discos

A ELAC escolheu reinventar-se — com uma criatividade surpreendente. No imediato pós-guerra, a empresa chegou a fabricar máquinas de costura para sobreviver. Mas em 1948 veio o primeiro produto que apontava para o futuro: o PW1, um toca-discos compacto que marcou a entrada da ELAC no universo de áudio de consumo. A transição fez sentido: a expertise em transdutores acústicos, desenvolvida para sonares, era diretamente aplicável ao desenho de cápsulas fonográficas e alto-falantes.

Ao longo dos anos 1950, a ELAC se firmou como uma das maiores fabricantes de toca-discos da Europa. Em 1957, a empresa já era líder no continente, e seus toca-discos eram exportados para o mundo inteiro. Um marco tecnológico decisivo veio com a invenção da primeira cápsula fonográfica estéreo de ímã móvel — a ELAC não apenas fabricava toca-discos, mas avançava a tecnologia que permitia a reprodução estereofônica doméstica.

O nascimento do JET

Em 1984, a ELAC deu o passo que definiria sua identidade moderna: começou a projetar alto-falantes, inicialmente em parceria com a AXIOM Electroacoustic Speaker Specialists. Um ano depois, apresentou o tweeter omnidirecional 4Pi, que combinava extensão de frequência com dispersão ampla. Mas o verdadeiro divisor de águas chegou em 1993.

Naquele ano, a ELAC apresentou o tweeter JET — um driver de fita dobrada baseado no princípio do Air-Motion Transformer, originalmente concebido pelo físico Dr. Oskar Heil nos anos 1960. Em vez de empurrar o ar como um cone convencional, o JET comprime e expande o ar através de dobras de uma membrana plissada, movendo a massa de ar com velocidade e precisão extraordinárias. O resultado: resposta em frequência estendida até 35 kHz, transientes de uma rapidez quase assustadora e uma clareza na região de agudos que se tornou referência no mercado audiófilo.

“O JET não reproduz agudos. Ele os revela — cada detalhe que outros tweeters arredondam, o JET entrega com precisão cirúrgica.”

Stereophile

Ao longo das décadas seguintes, o tweeter JET foi continuamente refinado — do JET original ao JET5 — e permanece como a assinatura tecnológica da marca, presente nas linhas premium Vela, Carina e Solano.

Andrew Jones e a conquista da América do Norte

Em 2015, a ELAC fez uma contratação que sacudiu o mercado: Andrew Jones, engenheiro britânico que havia construído sua reputação na Pioneer e na lendária TAD (Technical Audio Devices), assumiu o cargo de Vice-Presidente de Engenharia e abriu um centro de design na América do Norte.

Jones trouxe consigo uma filosofia que parecia contradizer a tradição premium da ELAC: projetar caixas acústicas excepcionais a preços acessíveis. O resultado foi a série Debut — um conjunto de bookshelf, floorstanding e center-channel speakers que custavam uma fração dos modelos com tweeter JET, mas entregavam uma performance que fez a crítica especializada perder o fôlego. O Debut B6, uma bookshelf que custava pouco mais de 200 dólares o par, recebeu avaliações que normalmente são reservadas para caixas dez vezes mais caras. De uma hora para outra, a ELAC — marca conhecida por audiófilos europeus exigentes — virou recomendação obrigatória em fóruns americanos de home theater e estéreo de entrada.

Jones deixou a ELAC em 2021, mas o legado da série Debut permanece: a marca provou que engenharia alemã de ponta não precisa custar uma fortuna.

Cem anos de escuta

Em 2026, a ELAC completa 100 anos. É uma longevidade rara em qualquer indústria, mais ainda no áudio, onde marcas nascem e morrem com a velocidade de um formato descontinuado. A sobrevivência da ELAC se explica pela mesma capacidade que a fundou: ouvir com atenção o que está abaixo da superfície.

Do sonar que rastreava submarinos no Mar do Norte ao tweeter JET que revela microdetalhes numa gravação de jazz, a linha que conecta os cem anos da ELAC é a obsessão por capturar o que outros ignoram. O meio mudou — da água salgada para o ar de uma sala de estar —, mas a missão continua sendo a mesma: fazer o invisível soar.

⌬ FIM · 5 min de leitura

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