Em 1926, na cidade portuária de Kiel, no norte da Alemanha, três engenheiros fundaram uma empresa para estudar a propagação do som debaixo da água. Cem anos depois, essa empresa fabrica alto-falantes que revelam nuances numa sinfonia de Mahler com a mesma precisão com que seus sonares identificavam submarinos no Mar do Norte. A ELAC é, provavelmente, a marca de áudio com a história mais improvável do planeta.
De Kiel para o fundo do mar (1926-1945)
A Electroacustic GmbH — ELAC — foi fundada em 1º de setembro de 1926 por Dr. Heinrich Hecht, Dr. Wilhelm Rudolph e Gerhard Schmidt. As raízes, porém, vinham de 1908, quando Hecht iniciou pesquisas sobre propagação sonora em ambientes aquáticos. A especialidade da empresa era hidroacústica: eco-sondas, sonares, buzinas de nevoeiro para navegação.
Em 1931, a ELAC já liderava o mercado europeu de eco-sonda. Em 1937, desenvolveu sistemas multicanal para detecção de direção sonora. Durante a Segunda Guerra Mundial, a empresa chegou a 5.000 funcionários, fornecendo sonares e dispositivos de escuta para a Kriegsmarine. O Near-Listening Device (NHG), desenvolvido em 1939, era crucial para a detecção de submarinos aliados.
Do colapso ao vinil (1945-1960)
Após a guerra, a ELAC encolheu de 5.000 para 248 funcionários. Para sobreviver, a empresa produziu de tudo: bombas de ar, máquinas de costura, equipamentos de cinema e aparelhos auditivos. Em 1948, lançou o PW1, seu primeiro toca-discos — e começou a transformação de fabricante militar em empresa de áudio consumer.
A virada decisiva veio em 1953 com os toca-discos MIRACORD. Em 1956, a ELAC era a maior fabricante de cápsulas e toca-discos do mundo. E em 1957, patenteou a primeira cápsula moving-magnet (patente nº 1.105.628) — a tecnologia que se tornou padrão global para reprodução de vinil e permanece dominante até hoje.
O tweeter JET: física transformada em música (1993)
O divisor de águas na história moderna da ELAC chegou em 1993, quando a empresa adquiriu a patente de uma versão do Air Motion Transformer (AMT) — tecnologia inventada pelo físico germano-americano Dr. Oskar Heil nos anos 60. A ELAC rebatizou-a de JET (Jet Emission Tweeter) e dedicou as três décadas seguintes a refiná-la.
O princípio é elegante: em vez de um domo convencional que empurra o ar para frente, o JET usa um diafragma de folha plissada que se expande e contrai como uma sanfona, impulsionado por ímãs de neodímio. Esse mecanismo move o ar com eficiência muito superior a tweeters convencionais, resultando em distorção extremamente baixa e resposta estendida até 50 kHz.
A fabricação é implacável: uma fração de milímetro de erro em qualquer dobra da folha inutiliza o tweeter. Hoje na sexta geração (JET 6, lançado em 2023), a ELAC já produziu mais de 500.000 tweeters JET automotivos e fornece a tecnologia para fabricantes premium como Burmester e Audiovector.
Andrew Jones e a democratização do hi-fi (2015-2021)
Em 2015, a ELAC fez uma contratação que abalou a indústria: Andrew Jones, designer britânico de caixas acústicas que havia passado 17 anos na Pioneer/TAD, onde criou a TAD Reference One — uma caixa de US$ 80.000 amplamente considerada uma das melhores já fabricadas.
O mandato de Jones na ELAC era audacioso: aplicar tudo o que sabia sobre design de caixas de dezenas de milhares de dólares para criar caixas que custassem menos de US$ 300. O resultado foi a série Debut, lançada em 2016 — caixas com woofers de aramida e tweeters de domo de tecido que, por menos de R$ 2.000 o par, envergonhavam caixas três vezes mais caras.
Nenhum componente da Debut era de prateleira. Jones redesenhou cada peça do zero — mesma filosofia que aplicava em caixas de US$ 80.000. O mundo audiófilo ficou atônito. What Hi-Fi? deu cinco estrelas. The Absolute Sound escolheu como Editors’ Choice. As Debut tornaram-se a linha de caixas acessíveis mais premiada da história recente.
Jones saiu da ELAC em 2021, mas seu legado permanece na série Debut 3.0 e na filosofia de que todo mundo merece som sério.
A ELAC hoje: 100 anos e contando
Em 2026, a ELAC celebra seu centenário. A empresa permanece sediada em Kiel, com cerca de 50 funcionários e 7.000 m² de produção. Apenas a linha Debut é fabricada na China; todo o resto é montado na Alemanha. A empresa continua privada, sob a direção de Gunter Harald Kurten.
Para marcar os 100 anos, a ELAC lançou a NAVA 100 — sua primeira caixa Bluetooth portátil — além de novos toca-discos Miracord e a aguardada série Debut Reference. O flagship Concentro M 807, com tecnologia VXe coaxial variável e preço de US$ 50.000 o par, representa o topo absoluto de 100 anos de engenharia acústica.
De sonares para submarinos a caixas de US$ 50.000 e Bluetooth portáteis: poucos caminhos na história do áudio são mais improváveis — e mais fascinantes — que o da ELAC.