Música & Cultura 13 JUL 2026

Dynaudio: a fábrica dinamarquesa que produz cada driver à mão e equipa de Bugatti a Abbey Road

Fundada em 1977 por um jovem de 22 anos sem experiência na indústria, a Dynaudio se tornou uma das poucas marcas que fabricam todos os seus drivers internamente. Conheça a história.

MÚSICA & CULTURA

Na pequena cidade de Skanderborg, na Jutlândia dinamarquesa, existe uma fábrica onde engenheiros magnetizam ímãs, enrolam bobinas de alumínio e moldam cones de polímero de silicato de magnésio — tudo para produzir alto-falantes que equipam desde Bugattis até o lendário Studio B de Abbey Road. A Dynaudio é uma das últimas fabricantes de caixas acústicas do mundo que desenha e constrói cada driver internamente, do zero. E essa obsessão começou com um jovem de 22 anos que não sabia nada sobre a indústria de áudio.

Os primeiros anos: de cones emprestados a drivers próprios

A Dynaudio foi fundada em 1977 por Ejvind Skaaning e Gerhard Richter, com Wilfried Ehrenholz juntando-se logo depois. Ehrenholz tinha 22 anos e nenhuma experiência no setor — mas uma convicção inabalável de que os alto-falantes existentes no mercado não eram bons o suficiente.

Os primeiros produtos usavam drivers de terceiros em gabinetes modificados com crossovers internos. Mas em menos de três anos, a equipe chegou à mesma conclusão que definiria a empresa para sempre: nenhum driver de prateleira atendia seus padrões. A solução era fabricar tudo em casa.

Em 1983, a Consequence — uma caixa imponente com drivers 100% Dynaudio — mostrou ao mundo o que a fabricação vertical podia produzir. Mas o caminho não foi suave: Skaaning deixou a empresa em 1987 após conflitos internos. Richter vendeu sua participação nos anos 1990, e Ehrenholz ficou como proprietário único até 2014.

MSP e Esotar: as tecnologias que definem o som Dynaudio

Dois nomes técnicos explicam por que a Dynaudio soa como soa. O MSP (Magnesium Silicate Polymer) é o material proprietário dos cones — uma combinação precisa de rigidez, peso e amortecimento que não degrada com o tempo. Diferente de cones de papel ou polipropileno, o MSP mantém suas propriedades acústicas por décadas. Cada cone é moldado em peça única, com dust cap integrado.

O Esotar é a linhagem de tweeters de domo macio que começou nos anos 1990 e evoluiu através de gerações — Esotar2, Esotar Forty (edição do 40º aniversário em 2017) e o atual Esotar3, descrito pela empresa como o melhor tweeter que já produziu. O Esotar3 usa uma lente DDC (Dynaudio Directivity Control) para otimizar dispersão e sensibilidade.

Um detalhe técnico que distingue a Dynaudio: enquanto a indústria inteira usa bobinas de cobre, a Dynaudio usa alumínio. O alumínio é mais leve, permitindo bobinas de diâmetro dobrado com peso equivalente, enrolamentos mais longos, maior excursão e melhor dissipação de calor. É uma escolha que exige mais engenharia, mas entrega mais desempenho.

Do estúdio ao Bugatti: áudio em três frentes

A Dynaudio opera em três mercados simultaneamente — e os três alimentam inovação uns dos outros.

No hi-fi doméstico, as linhas vão da acessível Emit à flagship Confidence, passando pela celebrada Contour (desde 1986), a Special Forty (edição comemorativa de 2017) e a recém-lançada Legend (abril de 2026). Em junho de 2026, a Opus One chegou como sistema imersivo de luxo: 24 drivers, 1.500 watts, a partir de €13.000.

No áudio profissional, a divisão Dynaudio Acoustics, cofundada com o engenheiro britânico Andy Munro em 1990, produziu os monitores BM que se tornaram referência em estúdios. A série Core atual (Core 7, Core 47, Core 59) equipa mais de 10.000 estúdios globalmente, incluindo Abbey Road, Air Lyndhurst e NRG Studios. A BBC escolheu monitores Dynaudio como referência para rádio.

No segmento automotivo, a Dynaudio fornece sistemas de áudio para o grupo Volkswagen desde 2003 (começando com o VW Phaeton), incluindo o Puccini Sound System para o Bugatti Veyron. Mais recentemente, a parceria com a BYD — facilitada pela controladora chinesa Goertek — levou sistemas Dynaudio Confidence para o BYD Han EV e Seal.

Goertek e o futuro

Em outubro de 2014, a Goertek Inc., gigante chinesa de eletrônicos, adquiriu 83% da Dynaudio por aproximadamente US$ 50 milhões. Ehrenholz manteve 15%. A aquisição trouxe investimento pesado em P&D e know-how em eletrônica e tecnologia wireless — essenciais para as linhas ativas Focus e Music.

A produção de drivers, crucialmente, permanece 100% em Skanderborg. Cada tweeter, woofer e midrange em cada produto Dynaudio — doméstico, profissional ou automotivo — é desenhado e construído na Dinamarca. É uma das últimas empresas do mundo a manter esse nível de integração vertical.

Em julho de 2026, a Dynaudio anunciou a saída do mercado norte-americano, citando tarifas, inflação e declínio da rede de revendedores especializados. A empresa se concentrará na Europa e Ásia — onde o 50º aniversário em 2027 promete novos lançamentos de celebração.

Quando você compra uma caixa Dynaudio, compra o trabalho de engenheiros que magnetizaram os ímãs, enrolaram as bobinas e moldaram os cones na mesma fábrica onde a empresa nasceu há quase 50 anos. Poucas coisas no mundo do áudio são tão genuínas.

Redação Guia do Áudio

⌬ FIM · 4 min de leitura

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