Uma sala de home theater não precisa soar como um estúdio “morto”, mas também não pode devolver cada explosão e cada fala como num salão de festas com piso frio. O objetivo é outro: diálogos inteligíveis no canal central, efeitos surround que você localiza no espaço e graves que não embolam. Dá para chegar perto disso sem obra: painéis certos, tapete, cortina, posicionamento e medição antes e depois.
Três conceitos antes de comprar qualquer painel
RT60: quanto tempo a sala “canta”
RT60 é o tempo que o som leva para cair 60 dB depois que a fonte para. A fórmula clássica de Sabine relaciona esse tempo com o volume da sala e a absorção total das superfícies: mais área absorvente, menos reverberação. Como referência rigorosa, a recomendação ITU-R BS.1116-3 (salas de audição crítica) pede um tempo médio de reverberação, medido entre 200 Hz e 4 kHz, de Tm = 0,25 × (V/100 m³)^(1/3) segundos. Numa sala de 4 × 5 × 2,7 m (54 m³), isso dá cerca de 0,2 s. É meta de laboratório; numa sala de estar, ficar um pouco acima é normal. Mais importante é a uniformidade entre frequências: sala seca nos agudos e reverberante nos médios-graves soa abafada e confusa ao mesmo tempo.
Primeiras reflexões
São os rebatimentos que chegam ao ouvido logo depois do som direto, vindos de paredes laterais, teto, piso e mesa de centro. A mesma BS.1116-3 pede que reflexões que cheguem até 15 ms após o som direto estejam pelo menos 10 dB abaixo dele entre 1 e 8 kHz. São elas que borram a voz do central.
NRC não conta a história dos graves
O NRC é a média dos coeficientes de absorção em 250, 500, 1.000 e 2.000 Hz, como explica o próprio relatório de ensaio da Auralex feito no Riverbank Acoustical Laboratories (método ASTM C423). Esse mesmo laudo mostra o bass trap LENRD com NRC 1,50, mas com coeficiente de 0,56 em 63 Hz e 0,49 em 80 Hz (dados fora da faixa acreditada do ensaio). Ou seja: NRC alto diz pouco sobre a região do subwoofer. Peça a tabela por frequência.
Prioridade 1: as reflexões das frontais e do central
Comece pelas paredes laterais, no ponto de primeira reflexão entre as caixas frontais e o sofá. Truque do espelho: onde você, sentado, enxergar o tweeter refletido na parede, vai um painel. Use material poroso com pelo menos 50 mm de espessura (lã de rocha, lã de vidro, lã de PET ou espuma melamínica de densidade adequada). Espuma de 2 cm só absorve agudos e deixa a sala opaca. Central sobre rack? Avance a caixa até a borda do móvel. O guia sobre como escolher painéis acústicos detalha materiais e densidades.
Teto: depende das suas caixas Atmos
As diretrizes de instalação Dolby Atmos para home theater (versão de dezembro de 2018, cópia hospedada por terceiro) separam dois casos. Com caixas de teto, a Dolby recomenda tratamento absorvente e difusor para reflexões de paredes, piso e teto. Com caixas “Dolby Atmos enabled” (as que disparam para cima), o teto deve ser plano, entre 2,3 e 4,3 m, e refletivo no ponto onde o som rebate; se houver forro acústico ali, a Dolby sugere trocar aquele trecho por material refletivo. Veja também nosso guia de caixas de altura Atmos.
Parede traseira e surrounds
Se o sofá está encostado (ou a menos de um metro) da parede de trás, a reflexão chega quase junto com o som direto e engrossa os médios-graves. Painéis espessos atrás da cabeça ou uma estante cheia de livros resolvem boa parte. Não cubra tudo: os surrounds precisam de algum campo difuso para envolver.
Tapete, cortinas e poltronas: o tratamento que já está na sala
Piso frio é o maior inimigo de quem monta o cinema na sala de estar. Um tapete grosso entre as caixas e o sofá corta a reflexão do piso. Cortinas pesadas, de preferência em duas camadas e com alguns centímetros de afastamento da parede, domam o vidro das janelas. Sofás estofados também absorvem. Nosso texto sobre melhorar a acústica com cortinas, tapetes e móveis aprofunda o tema.
Graves: bass trap ajuda, mas não faz milagre
Bass traps nos cantos atenuam médios-graves, mas, como mostra o laudo do LENRD, rendem menos abaixo de 100 Hz. Para o grave do subwoofer, posicionamento e correção de sala do receiver pesam mais. Leia sobre modos de sala e sobre calibração com Audyssey, YPAO e Dirac.
Meça antes e depois
O miniDSP UMIK-1 é um microfone omnidirecional USB, sem driver, que, segundo a ficha técnica da miniDSP, vem com arquivo de calibração único atrelado ao número de série e funciona com o gratuito Room EQ Wizard. O Behringer ECM8000, também omnidirecional, sai por XLR e exige interface com phantom power; é mais barato, sem calibração individual. O passo a passo está no nosso guia de medição com REW.
Ordem prática, sem obra
- Meça a sala como está.
- Tapete, cortinas e posição das caixas e do sofá.
- Painéis de 50 mm ou mais nas primeiras reflexões laterais das frontais.
- Parede traseira, se o sofá estiver perto dela.
- Bass traps nos cantos e ajuste do subwoofer.
- Teto só se as caixas forem embutidas; com up-firing, deixe refletivo.
- Meça de novo e rode a correção de sala do receiver.
Onde comprar
- miniDSP UMIK-1 (microfone de medição USB) — Ver na Amazon · Buscar miniDSP UMIK-1 no Mercado Livre
- Behringer ECM8000 (microfone de medição XLR) — Buscar Behringer ECM8000 no Mercado Livre
- Auralex LENRD (bass trap de canto) — Buscar Auralex LENRD no Mercado Livre
- Painel acústico de lã de PET Trisoft — Buscar painel Trisoft no Mercado Livre
- Painel acústico OWA Sonex — Buscar painel Sonex no Mercado Livre
Fontes
- ITU-R BS.1116-3 (2015)
- Dolby: Dolby Atmos Home Theater Installation Guidelines (dez. 2018), cópia hospedada pela Display Daily
- Auralex / Riverbank Acoustical Laboratories: relatório RAL-A15-277, LENRD (ASTM C423-09a)
- miniDSP: UMIK-1 Product Brief (cópia hospedada pela Audiophonics)
Foto de capa: Geoff Sloan, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).