Há produtos que você testa e esquece uma semana depois. O Chord DAVE não é um deles. Após algumas horas com ele no sistema, a sensação é de que todos os outros DACs que você ouviu antes estavam, de alguma forma, deixando informação para trás — não porque soem mal, mas porque o DAVE mostra o quanto ainda havia na gravação. É uma experiência desconfortável para quem não quer gastar R$ 150 mil. E libertadora para quem pode.
Tecnologia que não cabe em um parágrafo
O nome é um acrônimo: Digital to Analogue Veritas in Extremis. Verdade no extremo. Rob Watts, engenheiro-chefe da Chord, não é dado a modéstia, mas o DAVE justifica boa parte da arrogância. Enquanto DACs convencionais usam chips prontos da ESS, AKM ou Burr-Brown com filtros FIR de 128 a 256 taps, o DAVE roda inteiramente em um FPGA Xilinx customizado com 164.000 taps. O número parece arbitrário até você entender o que ele representa: menos ruído de tempo, melhor reconstrução do sinal analógico, e uma janela para a gravação que outros DACs simplesmente não conseguem abrir.
O resultado em medições confirma: THD+N de -127,5 dB, relação sinal/ruído de 127,5 dB (AWT), separação de canais acima de 125 dB a 1 kHz. São números que colocam o DAVE em companhia de equipamentos de estúdio de alto padrão. Na prática, isso se traduz em silêncio — um silêncio de fundo tão completo que os ataques de instrumentos surgem do nada, sem o véu de ruído que você só percebe quando ele some.
Como soa — sem rodeios
Neutro não é sinônimo de frio, e o DAVE é a prova mais eloquente disso. O timbre é de uma naturalidade que desarma: violoncelos têm resina no arco, pianos têm o peso do feltro sobre as cordas, vozes têm a umidade do ambiente. Não é coloração — é ausência de coloração, o que é muito mais difícil de conseguir.
Os graves merecem menção especial. Controle, extensão e textura em nível de classe mundial. Kick drums têm impacto sem inchaço; baixo elétrico tem definição de nota individual mesmo em passagens rápidas. É o tipo de performance que faz você reouvir discos que você conhece de memória e descobrir linhas de baixo que simplesmente não apareciam antes.
O palco sonoro é fiel à gravação — nem artificialmente largo, nem comprimido. Gravações bem produzidas ganham tridimensionalidade real; gravações medianas continuam medianas. O DAVE não flatters o material ruim, o que é uma qualidade rara e às vezes incômoda.
Ouvir o DAVE é entender que resolução não é sobre brilho nos agudos ou presença exagerada. É sobre coerência — cada instrumento no seu lugar, cada harmônico no tempo certo, sem que nada empurre o outro.
Tiago · Guia do Áudio, sessão de audição com Sennheiser HD 800 S e Focal Utopia
O amplificador de fones integrado é competente — silencioso, com impedância de saída de apenas 0,005 ohm, funciona com qualquer fone do mercado. Não alcança o patamar estratosférico do estágio DAC, mas está entre os melhores amplificadores de fones que existem em qualquer formato. Para a maioria dos entusiastas, será mais do que suficiente.
O que o DAVE não é
O DAVE é feio — ou pelo menos divide opiniões com ferocidade. O chassis de alumínio anodizado com seu painel de LEDs coloridos parece saído de um laboratório de eletrônica nos anos 1980, não de uma sala de alta fidelidade em 2025. A interface de quatro botões para navegar todas as configurações é punição para qualquer um que precise mudar entradas regularmente.
Sem o Chord M-Scaler — upscaler dedicado vendido separadamente por cerca de US$ 7.000 — o palco sonoro, embora muito bom, é visivelmente menor do que o potencial máximo da plataforma. A Chord construiu um ecossistema onde o DAVE sozinho já é extraordinário, mas você sempre sente que há mais ali, esperando pelo parceiro certo. É marketing de alto nível disfarçado de engenharia.
Não há saída digital. Se o seu sistema exige que o sinal passe adiante em formato digital, o DAVE não serve. E o preço no Brasil — entre R$ 150.000 e R$ 180.000 com impostos de importação — coloca o produto em território onde a concorrência do dCS Bartók, MSB Discrete e Mola Mola Tambaqui é cada vez mais séria e bem fundamentada.
Para quem pode e quer: o Chord DAVE continua sendo um dos argumentos mais fortes já construídos de que conversão digital-analógica ainda tem muito a evoluir — e que Rob Watts está alguns passos à frente de quase todo mundo.