A Cambridge Audio vem silenciosamente aperfeiçoando a arte do amplificador integrado há décadas, sem alarde, sem marketing agressivo — apenas engenharia britânica obstinada e um compromisso quase obsessivo com a fidelidade sonora. O CXA81 MKII representa a culminação dessa filosofia digital-first: construído ao redor de um dos melhores chips DAC disponíveis no mercado, o ESS SABRE32 ES9018K2M, e ainda assim capaz de produzir um som que engana os ouvidos mais treinados pela sua organicidade quase analógica. A R$ 8.990, estamos falando de um investimento sério — não há como dourar a pílula. Mas o que você recebe em troca é essencialmente um DAC de alta performance e um amplificador musculoso em Classe A/B, com 80 watts reais por canal, tudo dentro de uma caixa elegante que ocupa um único espaço no seu rack. Para quem está cansado de empilhar componentes e cabos, essa proposta tem um apelo difícil de ignorar.
Design e Construção
O acabamento Lunar Grey do CXA81 MKII é uma declaração de princípios: a Cambridge Audio não faz extravagância. Isso aqui é contenção britânica no seu melhor — um chassi sólido e pesado que transmite confiança no momento em que você o tira da caixa. Há um peso reconfortante neste aparelho, aquele tipo de sensação tátil que separa equipamentos sérios de brinquedos caros.
O painel frontal é limpo, quase minimalista. Um botão de volume com giro suave e preciso, um seletor de entrada, e um display discreto que mostra apenas o necessário. Nada de LEDs espalhafatosos ou menus infinitos. Você liga, seleciona a fonte e escuta música. É assim que deveria ser.
O painel traseiro, por outro lado, é densamente povoado de conexões — mas dispostas de maneira lógica e com espaçamento adequado. Conectar cabos mais grossos de potência não vira um exercício de frustração, algo que nem todo fabricante consegue acertar.
O controle remoto, porém, é o ponto fraco estético do conjunto. Para um aparelho de quase nove mil reais, o controle em plástico leve com botões genéricos soa como uma economia desnecessária. Funciona? Funciona. Mas quando você está segurando um controle da Marantz ou da NAD na outra mão, a diferença é palpável. É uma reclamação menor, admito, mas que merece registro.
Qualidade Sonora
É aqui que o CXA81 MKII justifica cada centavo investido — e olha que são muitos centavos. O som é grande, espaçoso e autoritário. Não existe hesitação neste amplificador. Quando a música pede potência, ele entrega com uma naturalidade que faz parecer que sempre tem reservas sobrando. E tem: os 80W por canal em 8 ohms saltam para 120W em cargas de 4 ohms, o que significa controle absoluto sobre caixas mais exigentes.
O DAC ESS SABRE32 é o coração digital desta máquina, e que coração. A clareza e o nível de detalhe que ele extrai das fontes digitais são excepcionais. Conectei via USB-B ao computador rodando Qobuz em alta resolução, e a diferença comparada ao DAC interno de uma interface de áudio comum é embaraçosa — para a interface, obviamente.
A faixa média é onde este amplificador verdadeiramente brilha. Vozes têm uma presença e uma naturalidade que se tornam viciantes — você se pega fechando os olhos e sentindo o cantor ali, no espaço entre as caixas, com uma tridimensionalidade que amplificadores digitais de classe D raramente alcançam.
Os agudos são estendidos e arejados sem jamais se tornarem agressivos ou fatigantes. Pratos de bateria têm aquele brilho metálico realista sem a estridência artificial que assombra amplificadores com DACs inferiores. Os graves são firmes e controlados, com autoridade real — não aquele grave inflado e artificial que impressiona nos primeiros cinco minutos e cansa na primeira hora.
Comparado ao CXA81 original, o MKII representa um salto substancial em clareza, detalhe e abertura do palco sonoro. Quem já tinha o modelo anterior e está em dúvida sobre o upgrade: sim, a diferença é audível e significativa. A entrada XLR balanceada é um toque bem-vindo para quem possui fontes com saída balanceada, adicionando mais uma camada de transparência ao sinal.
Conectividade e Recursos
A conectividade do CXA81 MKII é abrangente e pensada para o audiófifo moderno. São 4 entradas RCA analógicas, 1 XLR balanceada, 1 coaxial digital, 2 Toslink ópticas, USB-B para áudio via computador, Bluetooth aptX HD e uma saída dedicada para subwoofer. As saídas de alto-falante A/B permitem conectar dois pares de caixas e alternar entre eles — útil para quem tem um sistema principal na sala e quer mandar som para outro ambiente.
A omissão gritante, porém, é o phono stage. Em uma faixa de preço onde concorrentes como o Marantz MODEL 40n e o NAD C 399 incluem pré de phono integrado, a Cambridge Audio força o entusiasta de vinil a orçar um pré-amplificador phono separado. Considerando o ressurgimento massivo do vinil nos últimos anos, essa ausência é difícil de justificar. É uma decisão que reflete a filosofia digital-first da marca, mas que inevitavelmente afasta uma parcela do público.
A entrada USB-B funciona de maneira impecável como DAC de mesa — conecte ao computador, instale o driver ASIO no Windows (no Mac é plug-and-play), e você tem um setup audiófilo de referência para trabalho ou lazer. O Bluetooth aptX HD surpreende pela qualidade: para audição casual pelo Spotify ou podcasts, é mais do que suficiente, e a estabilidade da conexão é exemplar.
Desempenho com Diferentes Fontes
Testei o CXA81 MKII com diversas fontes para entender como ele se comporta em cenários reais de uso. Via USB-B com streaming em alta resolução (Qobuz, 24-bit/96kHz), o aparelho mostra todo o seu potencial — é aqui que o DAC ESS SABRE brilha mais intensamente, revelando camadas na gravação que fontes inferiores simplesmente escondem.
Via coaxial digital conectado a um CD player Cambridge Audio CXC, a sinergia entre os produtos da mesma casa é evidente. O transporte digital do CXC alimenta o DAC do CXA81 MKII com um sinal limpo, e o resultado é uma reprodução de CDs que faz você revisitar toda a sua coleção com ouvidos novos.
Com um toca-discos conectado através de um pré-amplificador phono externo (no caso, um Pro-Ject Phono Box S2), as entradas analógicas se mostraram transparentes e silenciosas. Não há coloração perceptível — o amplificador respeita o sinal que recebe e simplesmente o amplifica com fidelidade.
O desempenho via Bluetooth aptX HD é acima da média do segmento. Dá para ouvir claramente a vantagem do codec aptX HD sobre o Bluetooth padrão SBC — há mais definição nos extremos da faixa de frequência e uma separação estéreo mais convincente. Para sessões casuais de audição, é perfeitamente satisfatório.
Veredito
O Cambridge Audio CXA81 MKII é, sem rodeios, um dos melhores amplificadores integrados da sua categoria. Ele oferece uma solução completa para o audiófifo moderno que valoriza fontes digitais: amplificação de primeira linha, um DAC excepcional e conectividade abrangente, tudo em um único componente elegante e bem construído.
A ausência do phono stage é decepcionante e, sendo franco, um erro estratégico da Cambridge em plena era de renascimento do vinil. O preço de R$ 8.990 no mercado brasileiro é íngreme — não há como negar. E o controle remoto merecia uma atualização à altura do resto do conjunto.
Mas para quem utiliza predominantemente fontes digitais — streaming, computador, CD — este amplificador entrega uma performance que exigiria componentes separados custando significativamente mais. O CXA81 MKII conquista um sólido 9.0 na nossa avaliação e a nossa recomendação entusiasmada. Se o seu orçamento permite e o seu coração bate por fontes digitais, este é o amplificador integrado a ser batido na faixa.