Música & Cultura 13 SET 2026

Bowers & Wilkins: os falantes que nasceram numa loja de rádio em Worthing

De uma pequena loja de eletrônicos na costa sul da Inglaterra ao monitor de referência da Abbey Road, a Bowers & Wilkins persegue há seis décadas a obsessão de John Bowers por uma verdade: o som sem mentira.

MÚSICA & CULTURA

A história da Bowers & Wilkins começa, como tantas grandes histórias britânicas, em meio à guerra. Em 1940, com apenas 17 anos, o jovem John Bowers deixou a pacata cidade costeira de Worthing, em West Sussex, para se alistar no Royal Corps of Signals. Sua habilidade natural com equipamentos de rádio chamou a atenção dos superiores, e logo ele foi recrutado pelo MI6 — o serviço secreto britânico. Junto com Roy Wilkins, Bowers recebeu uma missão delicada e perigosa: manter contato por rádio clandestino com agentes britânicos infiltrados na Europa ocupada pelos nazistas. Ali, entre estática e codificações, dois homens forjaram uma amizade e uma obsessão compartilhada pela fidelidade do som transmitido. Quando a guerra terminou, ambos sabiam que o áudio seria o centro de suas vidas.

A loja de rádio que queria mais

De volta a Worthing nos anos 1950, Bowers e Wilkins abriram uma pequena loja de eletrônicos onde vendiam rádios, televisores e equipamentos de som. Mas John Bowers não era um comerciante comum. Ele ficava insatisfeito com a qualidade do que vendia. Ouvia os alto-falantes disponíveis no mercado e sentia que todos distorciam a realidade musical de alguma forma — acrescentavam cor, mascaravam detalhes, traíam a intenção do artista. Começou a experimentar por conta própria, construindo alto-falantes no fundo da loja, testando materiais e geometrias, buscando algo que ele chamava simplesmente de “a verdade do som”.

Em 1966, Bowers e Wilkins formalizaram a empresa como fabricante de alto-falantes. Os primeiros modelos já demonstravam uma filosofia que permaneceria intacta por décadas: engenharia rigorosa a serviço da transparência sonora. Nada de embelezamento. Nada de truques. Apenas o som como o artista gravou.

A 801 e a conquista da Abbey Road

O momento que transformou a B&W de uma fabricante britânica respeitada em uma referência mundial veio em 1979, com o lançamento da 801. Era um projeto audacioso: um alto-falante de três vias com gabinete em formato inédito, onde o tweeter ficava isolado em um compartimento separado no topo, minimizando difrações. O som era de uma precisão e neutralidade que os profissionais de áudio nunca haviam experimentado numa caixa de produção comercial.

O impacto foi imediato. A Abbey Road Studios — o lendário estúdio onde os Beatles gravaram a maior parte de sua obra — adotou a 801 como seu monitor de referência. Depois vieram a Decca, a Deutsche Grammophon, a Skywalker Sound de George Lucas. Um por um, os maiores estúdios do mundo reconheceram na 801 a ferramenta que precisavam para ouvir suas gravações sem véu algum. Em 1988, a Abbey Road atualizou para a versão Matrix 801, e a parceria entre B&W e o estúdio mais famoso do mundo perdura até hoje — mais de 50 anos de cumplicidade sonora celebrados em 2025 com a edição limitada 801 Abbey Road Limited Edition, produzida em apenas 144 pares.

O Nautilus: a concha que desafiou tudo

Nos anos 1980, John Bowers iniciou um projeto que beirava a loucura: eliminar completamente os efeitos negativos do gabinete no som. Ele queria um alto-falante onde a caixa simplesmente não existisse acusticamente — onde cada driver irradiasse som como se estivesse suspenso no espaço livre. O conceito evoluiu para tubos exponenciais que se afilavam em espirais, absorvendo a energia traseira dos drivers sem refleti-la de volta.

Tragicamente, John Bowers faleceu em dezembro de 1987, sem ver seu projeto mais ambicioso finalizado. Mas a nova liderança da B&W decidiu honrar sua visão e completar o trabalho. Em 1993, o Nautilus foi apresentado ao mundo — e o mundo ficou boquiaberto. Com sua forma orgânica inspirada na concha do molusco nautilus, quatro drivers independentes em câmaras esculturais e um som de uma pureza quase sobrenatural, o Nautilus não era apenas um alto-falante. Era uma escultura acústica, uma declaração filosófica materializada em alumínio e fibra de carbono. Até hoje, mais de três décadas depois, o Nautilus continua em produção — cada par montado à mão na fábrica de Worthing.

Tecnologia como obsessão

A herança de Bowers e do Nautilus alimentou décadas de inovação na 800 Series, a linha flagship que evoluiu da 801 original. A cada geração, a B&W introduziu avanços que se tornaram marcos na indústria:

  • Matrix — estrutura interna de reforço que elimina ressonâncias do gabinete
  • Diamond dome tweeter — um domo de diamante sintético CVD que reproduz frequências agudas com uma precisão e extensão sobre-humanas, introduzido em 2005
  • Continuum cone — material proprietário desenvolvido ao longo de anos para substituir o icônico cone de Kevlar amarelo no driver de médios, entregando uma transição ainda mais suave entre frequências

A geração mais recente, a 800 Series Diamond D5, lançada em 2026, representa seis décadas de refinamento contínuo — com preços que vão de milhares a dezenas de milhares de dólares, refletindo o nível de engenharia envolvido.

Além dos estúdios: Zeppelin, fones e o novo luxo

A B&W nunca se limitou ao nicho audiófilo. Em 2007, o Zeppelin — um dock para iPod com formato de dirigível e som surpreendente — mostrou que a marca sabia traduzir sua engenharia para o mercado mainstream sem comprometer a alma. A linha de fones de ouvido PX, com cancelamento de ruído ativo e acabamento premium, levou o DNA B&W para ouvidos em movimento. Caixas wireless como a Formation e a nova Panorama completam um portfólio que vai do estúdio profissional ao bolso do passageiro de primeira classe.

Em 2017, a B&W foi adquirida pela EVA Automation, do Vale do Silício, e posteriormente passou para o grupo Sound United, hoje parte da Masimo. Mudanças de proprietário à parte, a sede de pesquisa e desenvolvimento permanece em Worthing — a poucas quadras de onde John Bowers e Roy Wilkins vendiam rádios nos anos 1950. É um lembrete silencioso de que a busca pela verdade do som começou numa lojinha de esquina, com um ex-espião que acreditava que a música merecia ser ouvida sem nenhuma mentira.

⌬ FIM · 5 min de leitura

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