Se existe uma marca que personifica o conceito de ‘referência’ no áudio hi-fi, essa marca é a Bowers & Wilkins. Dos estúdios da Abbey Road aos sistemas de som da Volvo, passando por salas de escuta de audiófilos em todo o planeta, a B&W construiu ao longo de seis décadas uma reputação que poucos concorrentes conseguem igualar.
Worthing, 1966: O Começo
A história começa com John Bowers, um entusiasta de eletrônica que abriu uma pequena loja de componentes de áudio em Worthing, no litoral sul da Inglaterra. Junto com seu amigo Roy Wilkins, Bowers começou a fabricar caixas acústicas nos fundos da loja — inicialmente como hobby, depois como negócio sério.
O nome original era B&W Electronics, e os primeiros produtos eram modestos. Mas Bowers tinha uma convicção inabalável: o melhor alto-falante é aquele que desaparece, deixando apenas a música. Essa filosofia — fidelidade absoluta ao sinal original — guiaria a empresa por toda a sua existência.
DM70 e P1: Os Primeiros Marcos
O primeiro produto a colocar a B&W no mapa foi o DM70, lançado em 1970. Combinava um painel eletrostático para médios e agudos com um woofer convencional — uma abordagem híbrida ousada que chamou a atenção da imprensa especializada britânica.
Mas o verdadeiro divisor de águas veio com o monitor 801, lançado em 1979. Projetado como um monitor de estúdio profissional, o 801 foi adotado pela Abbey Road Studios como referência — uma parceria que dura até hoje e que deu à B&W uma credibilidade impossível de comprar com marketing.
A Tecnologia como Missão
John Bowers acreditava que a chave para alto-falantes melhores estava em materiais melhores. Essa visão levou a B&W a uma série de inovações que definiram a indústria:
- Cones de Kevlar — introduzidos nos anos 1970, os cones amarelos de Kevlar se tornaram uma das assinaturas visuais mais reconhecíveis do áudio. O Kevlar oferecia rigidez com amortecimento natural, reduzindo drasticamente a coloração tonal.
- Tecnologia Matrix — um sistema de reforço interno dos gabinetes usando uma grade entrecruzada de painéis, eliminando ressonâncias da caixa.
- Tweeter de domo de diamante — introduzido em 2005 na série 800, o domo de diamante sintético empurrou o breakup do tweeter para além de 70 kHz, efetivamente eliminando distorção na faixa audível.
- Continuum cone — lançado em 2015 como substituto do Kevlar, o cone Continuum oferece transição mais suave entre frequências e menor coloração.
- Aerofoil cone — perfil variável de espessura nos woofers, otimizando rigidez e amortecimento ao longo do cone.
Nautilus: A Obra-Prima
Em 1993, a B&W apresentou o Nautilus — provavelmente a caixa acústica mais icônica já criada. Com seu design de quatro vias e tubos exponenciais afilados atrás de cada driver (para absorver a radiação traseira), o Nautilus era mais escultura do que caixa de som.
O Nautilus nunca foi um produto de volume — custava uma fortuna e era difícil de posicionar. Mas as tecnologias desenvolvidas para ele, especialmente os tubos de carga traseira e o tweeter isolado em cápsula separada (a Turbine Head), migraram para toda a linha 800 Series, que se tornou o coração comercial da marca.
800 Series: O Padrão Ouro
A série 800 é, sem exagero, a linha de caixas acústicas mais respeitada do mercado hi-fi. Ao longo de quatro gerações — culminando na atual 800 D4, lançada em 2021 — ela representa o melhor que a B&W sabe fazer.
A 800 D4 combina tweeter de diamante em cápsula Turbine Head, cone Continuum nos médios, woofers Aerofoil e gabinete com construção Matrix reforçada. É o monitor de referência da Abbey Road e de dezenas de estúdios de masterização ao redor do mundo.
Mudanças Corporativas
A história corporativa da B&W teve capítulos turbulentos. John Bowers faleceu em 1987, mas a empresa manteve sua direção sob a liderança de Robert Trunz e depois Joe Atkins. Em 2016, a B&W foi adquirida pela Eva Automation, uma startup de tecnologia — uma mudança que gerou preocupação entre audiófilos.
Em 2020, a empresa passou para as mãos do Sound United (dona de Denon, Marantz e Polk), e em 2022, junto com todo o portfólio Sound United, foi adquirida pela Masimo Corporation, uma empresa de tecnologia médica. Após pressão de investidores ativistas e turbulência na gestão da Masimo, a Samsung (via Harman International) adquiriu todo o portfólio de áudio da Sound United em maio de 2025 por US$ 350 milhões — colocando a B&W sob o mesmo guarda-chuva do grupo JBL, AKG e Harman Kardon. Apesar das mudanças de propriedade, a equipe de engenharia em Worthing permaneceu intacta, e a qualidade dos produtos não deu sinais de declínio.
Além das Caixas
A B&W também se expandiu para fones de ouvido (a linha Px e Pi), soundbars, e o icônico Zeppelin — um dock/speaker em formato de dirigível que se tornou objeto de design. A parceria com a Volvo para sistemas de som automotivos é outro pilar importante.
A linha Formation (wireless de alta resolução) e os novos Panorama 3 mostram que a B&W não pretende ficar presa apenas ao hi-fi tradicional, embora esse continue sendo seu DNA.
O Legado de John Bowers
O que John Bowers começou nos fundos de uma loja em Worthing se transformou numa das marcas mais admiradas do áudio mundial. A B&W não inventou o alto-falante hi-fi, mas ajudou a definir o que um alto-falante hi-fi pode ser: transparente, honesto e capaz de desaparecer entre o ouvinte e a música.
Para o entusiasta brasileiro, a B&W representa o ápice da engenharia britânica de áudio — uma marca onde cada geração de produtos é genuinamente melhor que a anterior, e onde a busca pela perfeição sonora nunca é apenas um slogan de marketing.