No outono de 1925, dois jovens engenheiros dinamarqueses subiram ao sótão da propriedade rural da família Olufsen em Quistrup, nos arredores da pequena cidade de Struer, na península da Jutlândia. Peter Bang, filho de um comerciante bem-sucedido de Copenhague, havia acabado de voltar de um estágio de seis meses numa fábrica de rádios nos Estados Unidos, com a cabeça fervilhando de ideias. Svend Olufsen, seu amigo de longa data e companheiro de estudos de engenharia elétrica, ofereceu o sótão da casa de seus pais como laboratório. Ali, entre vigas de madeira e o vento frio do Mar do Norte, os dois começaram a construir algo que mudaria para sempre a relação entre tecnologia e beleza. Em 17 de novembro de 1925, a Bang & Olufsen foi oficialmente fundada — e Struer, uma cidadezinha de poucos milhares de habitantes, se tornaria sinônimo mundial de design escandinavo aplicado ao som.
O Eliminador e os primeiros rádios
O primeiro produto da B&O não foi um rádio, mas uma solução engenhosa para um problema prático. O “Eliminador” era uma fonte de alimentação que permitia aos rádios funcionar com corrente alternada da rede elétrica, dispensando as pesadas e caras baterias que a maioria dos aparelhos da época exigia. Era um produto modesto, mas revelava o instinto que definiria a empresa: encontrar elegância na resolução de problemas reais.
Em 1927 vieram os primeiros rádios propriamente ditos — o 3 Lamper e o 5 Lamper —, e a B&O começou a ganhar reputação pela qualidade de construção. Mas foi em 1939 que surgiu um marco decisivo: o Beolit 39, o primeiro rádio da empresa com gabinete em baquelita. Além de ser um avanço técnico, o Beolit inaugurou o prefixo “Beo” que acompanharia todos os grandes produtos da marca dali em diante — BeoGram, BeoSound, BeoLab, BeoVision. Um batismo de marca que dura quase um século.
A noite em que tudo queimou
A Segunda Guerra Mundial trouxe à B&O uma provação que poderia ter sido fatal. Durante a ocupação alemã da Dinamarca, a direção da empresa se recusou a colaborar com os nazistas. A retaliação veio na madrugada de 14 de janeiro de 1945, quando sabotadores pró-nazistas incendiaram a fábrica de Gimsing, em Struer, destruindo-a completamente. Equipamentos, moldes, protótipos — tudo virou cinzas.
A resposta de Peter Bang e Svend Olufsen é uma das histórias mais inspiradoras da indústria de eletrônicos. Um mês depois do incêndio, a reconstrução já havia começado. Em menos de um ano, as linhas de produção estavam restauradas. A empresa sobreviveu fabricando barbeadores elétricos enquanto reconstruía sua capacidade de produzir rádios e radiolas. Svend Olufsen não viveu para ver os frutos plenos dessa resiliência — faleceu em 1949 —, e Peter Bang o seguiria em 1957. Mas a empresa que criaram já tinha DNA suficiente para transcender seus fundadores.
Jacob Jensen e a revolução do design
Nos anos 1960, a B&O tomou uma decisão que redefiniria não apenas a marca, mas a relação entre eletrônicos de consumo e design industrial. A empresa começou a contratar designers de primeiro escalão, e o mais transformador deles foi Jacob Jensen. Durante quase três décadas, Jensen deu forma à visão da B&O com uma linguagem de design minimalista, geométrica e radicalmente diferente de tudo que a indústria eletrônica produzia na época.
Seu trabalho mais icônico veio em 1972: o BeoGram 4000, o primeiro toca-discos do mundo com braço tangencial controlado eletronicamente. Enquanto todos os toca-discos do mercado usavam braços que se moviam em arco diagonal sobre o disco, o BeoGram 4000 acompanhava o sulco tangencialmente — exatamente como a agulha de corte gravava o vinil original. O resultado era uma reprodução mais fiel e um design tão puro que o MoMA de Nova York incluiu o BeoGram 4000 em sua coleção permanente. No total, 27 designs de Jensen para a B&O foram exibidos no MoMA — um recorde para produtos de eletrônica de consumo.
BeoSound, BeoLab e a arte de ouvir
A obsessão com o design nunca foi meramente estética na B&O — ela sempre serviu à função. O BeoSound 9000, lançado em 1996, era um reprodutor de 6 CDs com rádio integrado, desenhado para ser montado na parede como um quadro. Seus discos ficavam visíveis, girando em compartimentos transparentes, transformando o ato de ouvir música em uma experiência visual hipnótica.
Na linha de caixas acústicas, a série BeoLab estabeleceu um paradigma: alto-falantes ativos com amplificação ICEpower integrada (tecnologia desenvolvida pela própria B&O), eliminando a necessidade de amplificadores externos e permitindo designs que nenhum gabinete passivo convencional possibilitaria. O BeoLab 5, com sua forma de tulipa e acústica adaptativa, e o monumental BeoLab 90, com 18 drivers e controle de dispersão digital, são exercícios de engenharia acústica que por acaso também são esculturas.
A linha BeoVision aplicou a mesma lógica aos televisores: telas que emergiam de pedestais motorizados, molduras de alumínio anodizado, integração total com o sistema de som. Para a B&O, uma TV nunca foi apenas uma tela — era uma peça de design com o mesmo cuidado de uma cadeira Wegner.
O luxo portátil e o futuro
Nas últimas décadas, a B&O expandiu seu universo para o áudio pessoal e portátil sem perder a identidade. O BeoSound A1, uma caixa Bluetooth redonda e compacta com acabamento em alumínio, tornou-se um objeto de desejo pelo equilíbrio entre som, design e portabilidade. Os fones Beoplay H95, com cancelamento de ruído e construção em alumínio e couro de cordeiro, representam o topo do que o áudio pessoal de luxo pode oferecer.
Hoje, o catálogo da Bang & Olufsen vai de caixas Bluetooth de 200 euros a sistemas residenciais que ultrapassam 100 mil euros. Os produtos continuam sendo concebidos em Struer — a mesma cidadezinha onde dois amigos subiram ao sótão de uma mansão rural com um sonho. E continuam aparecendo em museus, hotéis de luxo e residências de quem entende que um aparelho eletrônico pode ser, ao mesmo tempo, uma ferramenta e uma obra de arte. Peter Bang e Svend Olufsen talvez não tivessem a palavra “design” no vocabulário em 1925. Mas eles entenderam, desde o primeiro Eliminador, que a forma como algo parece é inseparável da forma como algo soa.