Se existe uma marca de áudio que pertence tanto ao mundo do som quanto ao mundo do design, é a Bang & Olufsen. Fundada em 1925 por dois engenheiros dinamarqueses, a B&O passou o último século provando que um equipamento de áudio pode ser tão bonito quanto um móvel de autor — e soar tão bem quanto uma referência de estúdio. Que outra marca pode dizer que tem peças no MoMA e amplificadores com 8.200 watts?
O sótão em Quistrup
Peter Bang (1900–1957) e Svend Olufsen (1897–1949) se conheceram na escola técnica de Aarhus e descobriram uma paixão comum: rádio. Bang havia trabalhado numa fábrica de receptores nos Estados Unidos e voltara à Dinamarca com ideias. Olufsen tinha tino comercial — e uma família com dinheiro. Em 17 de novembro de 1925, fundaram a empresa no sótão da mansão Quistrup, propriedade dos Olufsen, em Struer, no oeste da Jutlândia.
O primeiro produto de impacto foi o B&O Eliminator (1927), um dispositivo que permitia aos rádios funcionar com energia da rede elétrica em vez de baterias. Parece trivial hoje, mas naquela época transformou o rádio de curiosidade técnica em eletrodoméstico. Dois anos depois, a empresa se mudou para uma fábrica própria em Gimsing, nos arredores de Struer.
A guerra, a reconstrução e a virada para o design
Durante a Segunda Guerra Mundial, a B&O se recusou a colaborar com a ocupação nazista. Sabotadores destruíram a fábrica de Gimsing como retaliação. A empresa reconstruiu — e diversificou, fabricando até barbeadores elétricos até 1955. Mas foi a partir dos anos 1960 que a verdadeira identidade tomou forma.
A B&O adotou um modelo raro na indústria: em vez de designers internos, contratou colaboradores externos com liberdade criativa quase total. O mais importante deles foi Jacob Jensen, que entre 1965 e 1985 assinou cerca de 234 produtos. Sua filosofia — “diferente, mas não estranho” — resultou em peças que pareciam de outro planeta mas funcionavam com a intuição de um objeto cotidiano. O Beomaster 1900 (1976), primeiro eletrônico de consumo do mundo com controles sensíveis ao toque, foi obra dele.
Em 1972, sete produtos desenhados por Jensen entraram para a coleção permanente do MoMA em Nova York. Em 1978, o museu dedicou uma exposição solo a ele: “Design for Sound by Jacob Jensen”.
Os produtos que definiram eras
A linha de produtos da B&O lê como um álbum de história do áudio. O Beogram 4000 (1972) introduziu o braço tangencial no toca-discos — eliminando erro de rastreio e distorção. O Beolab 5000 (1967) marcou a entrada séria da marca no hi-fi de alta potência. As caixas Beolab 6000, com seus cones de alumínio esguios, viraram símbolo de sofisticação nos anos 1990.
Depois de Jensen, o designer britânico David Lewis assumiu o bastão. Sua máxima — “quanto menos você complica as coisas, mais interessantes as pessoas as acham” — guiou décadas de produtos que pareciam esculturas funcionais. Lewis buscava inspiração em galerias, museus e antiquários de design dinamarquês.
ICEpower e a engenharia invisível
A obsessão da B&O por design nunca foi só cosmética. Em 1999, a empresa criou a ICEpower, uma joint venture de amplificação Classe D que se tornou referência na indústria — inclusive para concorrentes. A Active Room Compensation mapeia acusticamente o ambiente e ajusta o som para compensar mobília, paredes e posição das caixas. E a Adaptive Sound Technology reúne um conjunto de recursos como Beam Width Control e Adaptive Bass Linearization para otimizar a experiência sem que o usuário precise tocar em nada.
O ápice tecnológico é o Beolab 90: 18 drivers Scan-Speak, 14 amplificadores ICEpower, controle de feixe ativo e uma forma que parece uma turbina de avião. Cada par custa mais do que um apartamento em muitas cidades do mundo.
Parcerias, crise e centenário
A B&O também construiu presença fora do lar. Desde 2003, a marca é parceira da Audi — com tweeters motorizados que emergem do painel — e equipa veículos da BMW, Mercedes-Benz, Aston Martin, Genesis e Ford. Em 2015, vendeu sua divisão automotiva para a Harman International por €145 milhões.
A crise financeira de 2008 quase derrubou a empresa: a receita caiu de US$ 853 milhões para US$ 528 milhões, e a ação despencou de ~$52 para ~$8,50. A B&O cortou linhas inteiras (celulares, MP3 players) e voltou ao básico: áudio doméstico e automotivo. Recuperou a lucratividade em 2010.
Em novembro de 2025, a marca celebrou 100 anos com um evento para 250 convidados na Ópera Real de Copenhague. A Centennial Collection incluiu edições especiais do Beoplay H100, Beosound A5 e Beosound A9. O grand finale veio em abril de 2026 com o Beolab 90 Zenith Edition: 1.734 esferas de alumínio anodizado montadas à mão, 8.200 watts de amplificação total, resposta de frequência abaixo de 12 Hz, apenas 10 pares fabricados — a cerca de US$ 520 mil o par.
O legado de Struer
Negociada na Nasdaq Copenhagen, sem dono controlador, com cerca de mil funcionários e presença em ~70 países, a B&O de 2026 é uma empresa diferente da dupla no sótão de Quistrup. Mas o espírito é o mesmo: som de excelência que você quer exibir, não esconder. Num mundo de caixas pretas genéricas, isso é mais raro — e mais valioso — do que nunca.