Música & Cultura 19 JUL 2026

Bang & Olufsen: 100 anos da marca dinamarquesa que transformou áudio em arte — e sobreviveu a nazistas, falências e apostas de luxo

Da oficina no sótão da fazenda Quistrup em 1925 aos alto-falantes de US$ 40 mil no MoMA — a trajetória improvável da B&O inclui sabotagem nazista, designers visionários e a eterna tensão entre arte e comércio.

MÚSICA & CULTURA

Em 17 de novembro de 1925, dois jovens dinamarqueses subiram ao sótão da fazenda da família Olufsen em Struer, Jutlândia, com uma ideia simples: fazer rádios funcionarem na tomada em vez de baterias. Peter Bang tinha 25 anos e obsessão por engenharia; Svend Olufsen tinha 28, tino comercial e a fazenda com espaço de sobra. O produto que criaram — “The Eliminator” — não era bonito nem sofisticado. Mas funcionava. E desse sótão nasceu a marca de áudio mais inesperadamente duradoura da história.

Os anos formativos: rádio, design e uma guerra

A produção mudou para uma fábrica própria em Gimsing, nos arredores de Struer, em 1927. Desde cedo, Bang e Olufsen desafiaram a convenção da época: enquanto concorrentes exibiam válvulas e circuitos como prova de sofisticação técnica, eles insistiam que aparelhos eletrônicos deviam ser bonitos como móveis. Nos anos 30, começaram a encomendar gabinetes de rádio em madeira nobre com acabamento de marcenaria — heresia tecnológica, profecia de mercado.

Em 1943, a ocupação nazista da Dinamarca trouxe consequências diretas. A B&O recusava-se a produzir para os alemães. Funcionários participavam ativamente da Resistência; o próprio Svend Olufsen ajudou judeus dinamarqueses a escapar para a Suécia. Em janeiro de 1945, sabotadores pró-nazistas incendiaram a fábrica de Gimsing até os alicerces. Uma dica do underground permitiu que funcionários salvassem documentos de projeto cruciais antes do ataque. A fábrica foi reconstruída em menos de um ano.

Jacob Jensen e a era de ouro do design

Svend Olufsen morreu em 1949 aos 52 anos. Peter Bang, em 1957, aos 57. Nenhum dos fundadores viveu para ver a maior era da empresa. Nos anos 1960, a B&O contratou o designer Jacob Jensen — decisão que definiria a marca para sempre. Jensen criou 234 produtos para a B&O ao longo de duas décadas, incluindo o Beogram 4000 (1972): o primeiro toca-discos tangencial do mundo, com controles táteis minimalistas e acabamento tão refinado que entrou para a coleção permanente do MoMA em Nova York.

Em 1978, o próprio MoMA dedicou uma exposição exclusiva ao design da Bang & Olufsen. Nenhuma outra marca de áudio recebeu honra equivalente.

Produtos icônicos

O BeoSound 9000 (1996) — um CD player de parede para seis discos com braço robótico de alumínio — é talvez o objeto de áudio mais fotografado do século XX. O BeoLab 5 (2003) introduziu auto-calibração acústica com lentes de som integradas. O Beogram 4000, o Beomaster 1900, o BeoVision Eclipse com painel LG OLED — cada década trouxe pelo menos um produto que redefiniu o que um aparelho eletrônico poderia ser como objeto.

Crise, reinvenção e luxo automotivo

A crise financeira de 2008-2009 quase destruiu a empresa: receita caiu de US$ 853 milhões para US$ 528 milhões, ações despencaram de US$ 52 para US$ 8,50. Reestruturações drásticas se seguiram. Em 2015, a B&O vendeu sua divisão automotiva para a Harman International — hoje os sistemas “Bang & Olufsen” em Audi, BMW, Bentley e Lamborghini são licenciados pela Harman/Samsung.

A B&O consumidora se refocou no ultra-premium: speakers de US$ 10-40 mil, headphones de US$ 500+, e a portátil Beosound A1 que trouxe a marca para bolsos mais acessíveis (relativamente). A sede e fábrica permanecem em Struer — hoje uma cidade de 10 mil habitantes cuja identidade se confunde com a marca.

Legado e curiosidades

A ordem dos nomes foi decidida no cara ou coroa — poderia ter sido “Olufsen & Bang”. Após o incêndio de 1945, a empresa sobreviveu fabricando barbeadores elétricos até 1955. Jony Ive, ex-chefe de design da Apple, citou a B&O como inspiração direta. Os fundadores morreram jovens e jamais viram seus nomes no MoMA. E a marca completa 100 anos em 2025 — ainda fabricando em Struer, ainda insistindo que som e beleza são a mesma coisa.

⌬ FIM · 3 min de leitura

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