Na parede da garagem em Costa Mesa, Califórnia, havia um pôster de 2001: Uma Odisseia no Espaço. Era 2008, e Sankar Thiagasamudram e Alexander Rosson tinham acabado de conhecer Pete Uka — um engenheiro que desenvolvia circuitos flexíveis ultrafinos para a NASA. O material era quase sem peso, incrivelmente resistente e surpreendentemente ágil. Os três olharam um para o outro e pensaram a mesma coisa: isso seria o diafragma perfeito para um fone planar magnético.
O nome da empresa? Uma variação de Odyssey — assim como o filme no pôster. Nascia a Audeze.
O que é planar magnético e por que importa
Fones convencionais (dinâmicos) usam uma bobina colada a um cone que se move dentro de um campo magnético — como um alto-falante em miniatura. O problema: o cone é pesado, a distribuição de força é desigual, e a distorção aumenta com o volume.
Fones planar magnéticos usam um diafragma ultrafino (mais leve que o ar dentro do fone) com trilhas condutoras impressas diretamente nele, suspenso entre dois conjuntos de ímãs. A força é distribuída uniformemente por toda a superfície. O resultado: distorção até 10 vezes menor que fones convencionais, resposta transitória superior e reprodução de detalhes que fones dinâmicos simplesmente não alcançam.
O que a Audeze fez de diferente: usou o material da NASA como diafragma — três vezes maior que o típico, pesando quase nada. Dragoslav Colich, veterano com 30 anos de experiência em drivers planares, juntou-se como CTO e transformou o conceito em produto.
O Rocky Mountain Audio Fest e a explosão
Em 2009, Thiagasamudram e Rosson levaram os primeiros pares do LCD-2 ao Rocky Mountain Audio Fest. A reação foi imediata e visceral: audiófilos acostumados a gastar US$ 5.000 em fones ouviam os protótipos e ficavam em silêncio. A precisão, o peso dos graves, a transparência dos médios — nada naquele preço se aproximava.
O LCD-2 foi lançado comercialmente em 2010 e se tornou instantaneamente o fone de referência da audiofilia moderna. O LCD-3 (2011) e o LCD-X (2013) expandiram a linha para profissionais de estúdio.
As patentes que definem a marca
A Audeze não parou no diafragma da NASA. Três tecnologias patenteadas formam o tripé da marca:
Fazor Waveguides (2013): elementos posicionados junto aos ímãs que guiam as ondas sonoras em paralelo, reduzindo difração. Melhoram agudos, transparência e imagem estéreo.
Fluxor Magnet Arrays: arranjo que concentra mais fluxo magnético (até 1,5 Tesla com Double Fluxor) sem adicionar ímãs extras — quase dobrando a força de acionamento do diafragma.
Uniforce Voice Coil: trilhas de largura variável impressas no diafragma que garantem força uniforme em toda a superfície, eliminando distorção por distribuição desigual.
Da audiofilia ao gaming — e à Sony
Em 2016, a Audeze expandiu para in-ears planares (iSINE). Em 2019, entrou no mercado gamer com o Mobius — um fone wireless com head tracking. O Maxwell (2023) provou que planar magnético e gaming mainstream podiam coexistir num produto de US$ 299.
Em agosto de 2023, a Sony Interactive Entertainment anunciou a aquisição da Audeze. A marca dos fones mais avançados do mundo agora faz parte do ecossistema PlayStation. O LCD-5 continua sendo referência absoluta entre audiófilos, o MM-500 equipa estúdios profissionais, e o Maxwell domina rankings de headsets gamer.
De uma garagem com um pôster de Kubrick a uma divisão da Sony — em 15 anos. A odisseia continua.