Música & Cultura 29 OUT 2026

Allen & Heath: a história da fabricante britânica de mesas de som que mixou Pink Floyd e The Who

De uma empresa de rolamentos reaproveitada em Londres às mesas digitais dLive e aos mixers de DJ Xone, a Allen & Heath atravessou mais de meio século, várias trocas de dono e chegou a 2026 dentro do grupo Audiotonix.

Mesa de som digital Allen & Heath dLive S7000 com rack DM64
MÚSICA & CULTURA

O nome Allen & Heath não homenageia nenhum Allen nem nenhum Heath. É a primeira surpresa de uma história que começa com um jovem engenheiro londrino montando mesas de som sob encomenda no fim dos anos 1960 e termina, por enquanto, com uma das marcas mais presentes em palcos, igrejas, teatros e cabines de DJ do mundo. Poucas fabricantes de áudio profissional passaram por tantas mãos e mantiveram a identidade como ela.

Uma empresa de rolamentos, um engenheiro e um cantor

A melhor fonte sobre o começo é uma reportagem de Mel Lambert publicada em 1979 na revista Sound International e preservada no arquivo Muzines. Segundo o texto, Andy Bereza tocava um pequeno negócio chamado AB Audio, e sua primeira mesa foi um console de 16 canais vendido ao músico Alan Price, em 1969. Para crescer, Bereza buscou apoio do Grupo Batiste, por meio do amigo Stephen Batiste, filho do diretor Joseph Batiste. A solução foi aproveitar uma empresa que o grupo já tinha registrada e parada: a Allen and Heath, que antes fabricava, nas palavras da revista, “rolamentos ou algum artefato do tipo”.

Por isso as datas variam conforme a fonte. A Wikipédia fala em 1968, citando um comunicado da D&M; o Grace’s Guide, arquivo britânico de história industrial, registra 1969. A reportagem de 1979 trata a empresa como completando dez anos, já com o nome Allen and Heath Brenell.

MOD1: o console de Pink Floyd

No início dos anos 1970, a jovem fabricante construiu mesas quadrafônicas sob medida para duas das maiores bandas do rock britânico. Para o The Who, uma mesa usada no período de Quadrophenia. Para o Pink Floyd, o MOD1, operado por Alan Parsons nas mixagens ao vivo e visível no filme Live at Pompeii, segundo a Wikipédia e o Grace’s Guide. A reportagem da Sound International confirma as duas bandas entre os primeiros clientes. Era um selo de credibilidade raro para uma empresa tão nova.

Da Harman a Penryn

A empresa se estabeleceu em Penryn, na Cornualha, no extremo sudoeste da Inglaterra, onde continua. A sequência de donos, reunida pela Wikipédia e pelo Grace’s Guide, é longa:

  • 1991: compra pela Harman International.
  • 2001: compra pela própria gestão, com apoio do fundo 3i e do Bank of Scotland.
  • 2006: a Close Growth Capital assume a fatia da 3i; a empresa tinha cerca de 180 funcionários.
  • 2008: venda para a D&M Holdings, então dona da Denon e da Marantz.
  • 2013: venda para a Electra Partners.

A virada veio em 2014, quando a Allen & Heath foi unida às britânicas Calrec e DiGiCo para formar a Audiotonix, grupo dedicado a mesas de som profissionais. O grupo passou por outros fundos ao longo dos anos e, em 2024, a PAI Partners anunciou a compra do controle. Em fevereiro de 2026, segundo a própria Audiotonix, o grupo acertou a aquisição de DPA, Wisycom e Austrian Audio, ampliando o portfólio para microfones e sistemas sem fio.

Os produtos que definiram a marca

Mesas compactas

Para muita gente, a Allen & Heath é sinônimo de mesa analógica pequena e robusta, das linhas que equipam igrejas, bares e bandas de garagem. É a porta de entrada que mantém a marca visível fora dos grandes palcos.

Xone: o mixer de DJ

O Xone:92, cujo desenvolvimento começou em 2003, segundo a DJ Mag, virou referência em clubes de música eletrônica pelos filtros e pela construção, e levou a marca para um público que nunca tinha olhado para uma mesa de PA.

A era digital

Em 2015, a empresa apresentou o dLive, plataforma de mixagem digital com núcleo de 96 kHz e 128 entradas, segundo o audioXpress. Depois vieram a série SQ, o Avantis em 2019, com 64 canais e 42 barramentos, segundo o Sonicstate, e a série compacta CQ, lançada em agosto de 2023, segundo a Mix. Em maio de 2026, a marca anunciou as SQ5+, SQ6+ e SQ7+, com tela sensível ao toque de 9 polegadas e o mesmo núcleo de 48 entradas a 96 kHz, de acordo com o ProSoundWeb.

Por que a história importa

A trajetória da Allen & Heath mostra uma coisa que o mercado de áudio profissional tem de sobra: marcas de engenharia que sobrevivem a trocas de dono porque o produto continua sendo o motivo da compra. Da mesa feita para Alan Price ao console digital de turnê, a fabricante de Penryn manteve o foco em mixagem, e é isso que explica por que técnicos de som continuam reconhecendo o nome de longe.

Se você está escolhendo sua primeira mesa, vale ler o guia de como gravar podcast com mais de um microfone. Para outras histórias do áudio profissional, leia os perfis da Mackie e da Behringer.

Fontes

⌬ FIM · 4 min de leitura

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