A história da AKG começa onde tantas grandes histórias do áudio europeu começam: nos escombros. Em 1947, a Áustria mal começava a se reconstruir dos horrores da Segunda Guerra Mundial quando o físico Rudolf Görike e o engenheiro Ernst Pless fundaram em Viena a Akustische und Kino-Geräte Gesellschaft m.b.H. — Sociedade de Equipamentos Acústicos e de Cinema. O nome era comprido, a ambição era maior.
Do cinema para o microfone
O negócio inicial era fornecer equipamento técnico para cinemas: alto-falantes, projetores de filme e fotômetros. Era o que a Viena do pós-guerra precisava — entretenimento para uma população traumatizada. Mas Görike e Pless rapidamente perceberam que a tecnologia acústica que desenvolviam para cinemas podia ser aplicada a algo mais amplo.
A empresa se expandiu para buzinas de automóvel, intercomunicadores, cápsulas de microfone de carbono e, finalmente, para os produtos que definiriam seu legado: microfones profissionais e fones de ouvido. Em 1949, a AKG começou a produzir os fones K120 DYN, e no mesmo período desenvolveu patentes de tecnologia de bobina móvel que ampliariam a resposta em frequência dos seus transdutores muito além do que era possível na época.
D12: o primeiro cardioide dinâmico do mundo
Em 1953, a AKG lançou o D12 — o primeiro microfone dinâmico com padrão cardioide do mundo. O D12 estabeleceu o padrão para captação de voz em broadcast e se tornou um dos microfones mais reconhecidos internacionalmente. Era robusto, confiável e soava melhor que qualquer concorrente da época. Para uma empresa austríaca de seis anos, competir com gigantes americanas e alemãs no mercado de microfones profissionais era um feito notável.
C12 e CK12: a cápsula que definiu o som de estúdio
Se o D12 colocou a AKG no mapa, o C12 a inscreveu na eternidade. O microfone condensador de tubo C12, com a cápsula CK12 projetada pelo engenheiro Konrad Wolf, se tornou uma referência absoluta em estúdios de gravação. A CK12 era — e continua sendo — considerada uma das melhores cápsulas de diafragma grande já fabricadas, com uma resposta em frequência sedosa nos agudos que engenheiros de som descreviam como mágica.
Do C12 descendeu o C414, lançado em 1971, que se tornaria o microfone condensador multipadrão mais popular do mundo. Presente em virtualmente todo estúdio profissional do planeta, o C414 já gravou de Frank Sinatra a Radiohead, de orquestras filarmônicas a guitarras de metal.
K240: o fone que equipou os estúdios
Em 1975, a AKG lançou o K240, um fone over-ear semi-aberto que revolucionou o monitoramento em estúdio. A tecnologia de diafragma aprimorada entregava resposta de graves e imagem estéreo superiores ao que existia, e o conforto para uso prolongado era incomparável. O K240 se tornou padrão em estúdios de gravação, emissoras de rádio e estações de TV — e permanece em produção até hoje, quase 50 anos depois.
A era Harman e a ambição global
Em 1984, a AKG abriu capital na bolsa de Viena e se tornou uma blue chip austríaca. Um escritório nos EUA foi inaugurado em Northridge, Califórnia, em 1985, expandindo a presença da marca no mercado americano. Mas em 1994 veio a mudança que definiria o futuro da empresa: a Harman International adquiriu a AKG, incorporando-a ao mesmo grupo que já incluía JBL, Harman Kardon e Crown.
Sob a Harman, a AKG manteve sua sede em Viena e continuou desenvolvendo produtos de referência. Em 2005, lançou o K701, um fone aberto que se tornou queridinho de audiófilos pela sua apresentação arejada e detalhada. Em 2010, a parceria com Quincy Jones produziu a linha Q de fones — incluindo o Q701, que combinava a acústica do K701 com a assinatura do produtor mais premiado do Grammy (79 indicações).
No mesmo ano de 2010, a AKG recebeu o Grammy Técnico por suas contribuições ao campo da gravação — um reconhecimento que poucas marcas de áudio podem ostentar.
Samsung, mudança para a Califórnia e o êxodo vienense
Em 2017, a Samsung Electronics comprou a Harman International por US$ 8 bilhões, e a AKG se tornou propriedade do conglomerado sul-coreano. A decisão mais controversa veio logo depois: a Harman fechou todas as instalações de Viena, transferindo a sede da marca para a Califórnia e a produção para fábricas no exterior.
Para uma empresa fundada na Viena do pós-guerra, com 70 anos de engenharia austríaca, o fechamento das instalações originais foi um choque. Um grupo de ex-engenheiros da AKG — os mesmos que projetaram os microfones e fones que construíram a reputação da marca — se recusou a aceitar o fim e fundou a Austrian Audio, uma nova empresa sediada em Viena que se posiciona como a verdadeira herdeira do legado acústico da AKG.
O legado
Hoje, a AKG opera como subsidiária da Harman/Samsung com cerca de 170 funcionários, fabricando microfones, fones de ouvido e sistemas wireless. A marca AKG aparece em fones inclusos com smartphones Samsung Galaxy, um uso que divide opiniões entre os puristas.
Mas o legado é inegável: o C414 ainda está em todo estúdio sério, o K240 ainda equipa consoles de mixagem, e microfones AKG foram usados na estação espacial MIR. Poucas marcas de áudio podem dizer que seu som ecoou tanto na Terra quanto no espaço.