Poucas marcas de monitores de estúdio são reconhecidas pelo tweeter, de longe, antes mesmo de alguém ler o logotipo. A ADAM Audio é uma delas. Aquele retângulo dobrado como uma sanfona no alto das caixas, o tweeter de fita plissada que a empresa batizou de ART, virou assinatura visual e técnica de uma fabricante que nasceu em Berlim em 1999, quase quebrou em 2014 e hoje faz parte de um dos maiores grupos de áudio profissional do mundo. É uma história de engenharia teimosa, de crescimento rápido demais e de reinvenção.
Berlim, 1999: Advanced Dynamic Audio Monitors
Segundo o histórico publicado pela própria empresa no aniversário de 25 anos, a ADAM (sigla de Advanced Dynamic Audio Monitors) foi fundada em março de 1999, perto da Moritzplatz, no centro de Berlim, numa cidade que fervia com a cultura techno e dos clubes. Os fundadores foram Klaus Heinz e Roland Stenz. Na entrevista de história oral gravada pela NAMM em 2013, Heinz aparece como CEO da empresa e é descrito como alguém que cresceu fascinado por engenharia e alto-falantes.
O ponto de partida não era uma caixa, mas um transdutor. Heinz desenvolveu o tweeter ART, inspirado no Air Motion Transformer, o transdutor que o físico alemão Oskar Heil inventou nos anos 1960. A empresa grafa o nome por extenso como Accelerated Ribbon Technology, e a ficha da NAMM usa Accelerating Ribbon Technology: as duas formas circulam.
Como funciona o tweeter ART
Em vez de um domo que se move para frente e para trás como um pistão, o ART usa uma membrana fina dobrada em pregas, com condutores dentro de um campo magnético. Quando o sinal passa, as pregas se abrem e se fecham, espremendo o ar para fora como um fole. O princípio é o de Heil: a área de membrana é maior que a área da boca do transdutor, de modo que o ar é acelerado mais rápido do que a própria membrana se move. Na teoria, isso significa massa móvel baixa e boa resposta a transientes. A ADAM afirma que até hoje esses tweeters são montados à mão na fábrica de Berlim.
S3A, A7 e a conquista dos estúdios
O reconhecimento veio com a primeira geração da Série S, no início dos anos 2000. A empresa chama o S3A, um monitor de três vias com o tweeter ART, de “divisor de águas”. Em seguida vieram linhas mais acessíveis, a Série P e a primeira Série A, e o pequeno A7 se tornou, nas palavras da fabricante, um dos monitores de campo próximo de maior sucesso da sua época.
Em 2009 a ADAM se mudou para a Ederstraße, ainda em Berlim, para ter mais espaço de pesquisa, desenvolvimento e produção. No mesmo período estreou o tweeter X-ART, uma evolução do ART, nas séries SX e AX. Foi a geração do A7X, que, ainda segundo a empresa, foi o monitor mais popular do catálogo por quase uma década. Quem frequentou home studios e estúdios de projeto nos anos 2010 provavelmente viu um par deles sobre a mesa.
2014: insolvência e resgate
O sucesso trouxe um problema clássico. Em novembro de 2014, a ADAM Professional Audio entrou com pedido de insolvência na Alemanha. Em comunicado reproduzido pela imprensa especializada, Klaus Heinz atribuiu a situação ao próprio crescimento da empresa, que teria criado necessidades de capital que ela não conseguia cobrir. O processo alemão permitia reestruturação em vez de liquidação, e foi o que aconteceu: em 11 de dezembro de 2014 a holding alemã CWM assumiu a ADAM Professional Audio, com a intenção declarada de investir para normalizar a produção.
DSP, U-ART e a Série A de 2022
Em 2017, a Série S foi relançada com processamento digital, usando um chip DSP SHARC, e permaneceu como linha topo, ainda montada à mão em Berlim. Em 2018 a empresa se mudou para Berlin Adlershof, polo de ciência e pesquisa, e lançou a Série T, de entrada, com o tweeter U-ART — a forma de levar o princípio da fita plissada à faixa de entrada, onde está quem monta o primeiro home studio.
Em julho de 2019, outro capítulo: o Focusrite Group anunciou a compra da Pro Audio GmbH, holding da ADAM Audio, por 18 milhões de euros. Segundo o anúncio publicado pela ADAM, a empresa seguiria operando a partir de Berlim, sob a direção de Christian Hellinger. Para o grupo britânico, já dono da Focusrite e da Novation, era a peça que faltava: monitoração. Contamos a trajetória do comprador no nosso perfil da história da Focusrite.
Em 2022 chegou a nova Série A, sucessora da AX, com guia de onda giratório, correção de sala baseada em DSP e o software A Control para ajustes remotos, que também abre integração com o SoundID Reference, da Sonarworks. Junto, a fabricante mantém uma linha de subwoofers para complementar os monitores e passou a oferecer, segundo a própria empresa, cinco anos de garantia estendida para monitores e subwoofers registrados.
O que a ADAM representa
A importância da ADAM não está em ter inventado o transdutor de fita plissada, que é de Oskar Heil, mas em ter levado esse princípio para o monitor de estúdio de preço acessível e transformado o tweeter em linguagem de marca. Num mercado em que quase todo mundo usa domo de seda ou metal, ela insistiu numa solução diferente por mais de 25 anos e sobreviveu a uma insolvência para continuar fazendo isso.
Minha opinião: a lição mais interessante da ADAM não é técnica, é de gestão. A empresa tinha um produto que o mercado queria e quase desapareceu por não conseguir financiar o próprio crescimento. Hoje, dentro de um grupo maior, ela tem fôlego para fazer DSP, software e correção de sala, coisas que um monitor precisa ter em 2026. Se você está escolhendo monitores para começar, veja também nossa lista de monitores de estúdio ativos para home studio.
Fontes
- ADAM Audio — Celebrating 25 years of innovation (histórico oficial da empresa)
- ADAM Audio — ADAM Audio becomes a part of Focusrite Group (comunicado, julho de 2019)
- NAMM Oral History — Klaus Heinz (entrevista de 2013)
- FutureMusic — CWM Buys ADAM Professional Audio (cobertura secundária, dezembro de 2014)
- Pro Audio Central — cobertura secundária do pedido de insolvência de 2014