Quase todo mundo que gravou uma voz ou um violão em casa na última década passou por uma caixinha vermelha com dois botões grandes de ganho. Pouca gente sabe que a Focusrite, dona da linha Scarlett, nasceu do outro lado do espectro: numa encomenda de George Martin, o produtor dos Beatles, a um dos engenheiros mais reverenciados da história do áudio, Rupert Neve. Entre o luxo absoluto de 1985 e a interface de bolso de hoje, há uma falência, um ex-técnico de som do Led Zeppelin e uma empresa listada na bolsa de Londres com mais de dez marcas no portfólio.
1985: George Martin chama Rupert Neve
Neve já era lenda quando fundou a Focusrite, anos depois de ter vendido a empresa que levava seu nome. O primeiro trabalho veio de George Martin, que queria ampliar os consoles Neve do AIR Studios com um pré-amplificador de microfone e um equalizador sem concessões. Dali saiu o ISA 110, que, nas palavras da própria Focusrite, estabeleceu um novo padrão de clareza e musicalidade. A sigla ISA, aliás, sobrevive até hoje no catálogo da marca.
O passo seguinte foi ambicioso demais. Em 1988, a Focusrite apresentou o Forte, um console de gravação pensado para ser a mesa definitiva, com os melhores componentes disponíveis. Era caríssimo de fabricar e chegou num momento ruim para o mercado de grandes consoles. Segundo a Focusrite plc, pouquíssimas unidades foram produzidas, e a empresa entrou em insolvência.
1989: entra Phil Dudderidge
Em abril de 1989, Phil Dudderidge comprou os ativos da empresa (marca, projetos e o negócio dos módulos ISA) e fundou a Focusrite Audio Engineering. Ele não era um investidor qualquer: nos anos 1960, dirigia a van de bandas como Fairport Convention e Soft Machine, cuidou do som da turnê de primavera de 1970 do Led Zeppelin e, em 1973, cofundou a Soundcraft, pioneira em mesas para som ao vivo.
A tentativa de seguir fabricando consoles ainda rendeu o Focusrite Studio Console, de 1990, feito em tiragem mínima. A virada veio quando Dudderidge percebeu que o futuro estava em equipamentos de rack, os chamados periféricos (outboard).
Decidimos sair completamente do negócio de consoles e nos reinventar como uma empresa de periféricos.
Phil Dudderidge, em entrevista à Sound On Sound (2019)
Red, Green, Platinum: descendo a escada de preços
Em 1993 chegou a Red Range, com o circuito ISA reembalado em painéis vermelhos que viraram assinatura visual da marca. Depois vieram a linha Green, voltada aos home studios que gravavam em fitas ADAT, e a Platinum, ainda mais barata e mais tarde fabricada na China. Cada degrau abria a porta para um público maior, e a Focusrite também desenhou para a Digidesign a superfície de controle Control 24, do Pro Tools.
A lógica ficou clara: levar o som dos estúdios caros para cada vez mais gente, sem jogar fora a reputação construída com o ISA. Em 2004 veio o Liquid Channel, e no mesmo ano a empresa comprou a Novation, fabricante britânica de sintetizadores e controladores que, em 2009, lançaria o Launchpad.
Saffire e Scarlett: a revolução do home studio
Em 2005, a linha Saffire marcou a entrada firme da Focusrite nas interfaces de áudio digitais. Mas o grande salto veio com a Scarlett, que a marca data de 2012, ano da primeira Scarlett 2i2. A fórmula (pré-amplificadores decentes, conversores honestos, construção de metal e preço acessível) casou com a explosão dos podcasts, do YouTube e da produção musical no quarto.
A linha foi renovada em 2016 (2ª geração), 2019 (3ª) e 2023 (4ª geração, com ganho automático e modo Air aprimorado). A Clarett, de 2015, ocupou a faixa intermediária com Thunderbolt. Nós analisamos a Scarlett 2i2 de 4ª geração, e ela também aparece no nosso ranking de interfaces para home studio.
Bolsa de Londres e as compras
Em 12 de dezembro de 2014, a empresa estreou como Focusrite plc no AIM, o mercado de acesso da Bolsa de Londres, com o código TUNE. Com o caixa da Scarlett, começou uma sequência de aquisições que transformou a marca num grupo:
- 2019: ADAM Audio, fabricante alemã de monitores de estúdio, em julho; e a britânica Martin Audio, de sistemas de PA, em dezembro.
- 2021: Sequential, a empresa de Dave Smith, criador do Prophet-5; no mesmo ano nasceu a Optimal Audio.
- 2022: Linea Research (por £ 12,6 milhões), os direitos da marca Oberheim e a Sonnox, de plugins.
- 2023 e 2024: OutBoard, dona da tecnologia de áudio imersivo TiMax, e a Innovate Audio, do sistema panLab.
O crescimento aparece nos números. Em 2018, segundo a Sound On Sound, a Focusrite faturava £ 75 milhões. Nos resultados divulgados em 29 de junho de 2026, que cobrem 18 meses até fevereiro de 2026 (a empresa mudou o fim do seu ano fiscal), a receita chegou a £ 245,5 milhões, ou £ 164,6 milhões em base anual pro forma. O CEO Tim Carroll, no cargo desde 2017, atribuiu o resultado à disciplina de preços, à gestão da cadeia de suprimentos e ao crescimento das vendas diretas ao consumidor.
40 anos depois
Rupert Neve morreu em 2021, aos 94 anos, e a Focusrite comemorou quatro décadas em 2025 com uma Scarlett de edição especial. O ISA voltou ao centro da vitrine com a ISA C8X, e a empresa diz ter lançado em 2026 uma plataforma própria de chips. Depois de 37 anos no comando, Dudderidge passa a presidência do conselho a Ian Barkshire, ex-CEO da Oxford Instruments, após a assembleia de julho de 2026, mas continua no conselho.
A história da Focusrite é, no fundo, a história da democratização da gravação. A marca que nasceu para servir George Martin sobreviveu porque aceitou servir também ao garoto que grava no quarto. Dá para discutir se a Scarlett soa como um ISA de verdade (não soa, e nem precisa). Mas sem ela, boa parte da música e dos podcasts dos últimos quinze anos teria sido gravada com equipamento bem pior.