Música & Cultura 06 JUL 2026

Bang & Olufsen: 100 anos transformando áudio em arte — da Dinamarca para o mundo

De uma oficina no sótão de uma mansão dinamarquesa à coleção permanente do MoMA: como Peter Bang e Svend Olufsen criaram a marca de áudio mais icônica do design mundial

MÚSICA & CULTURA

Em 2025, a Bang & Olufsen completou 100 anos — um feito extraordinário para qualquer empresa, e ainda mais impressionante no volátil mercado de eletrônicos. Mas a B&O não é apenas uma fabricante de áudio: é uma instituição do design que transformou caixas acústicas, televisores e headphones em objetos de arte. Esta é a história de um século de inovação na interseção entre tecnologia e beleza.

Dois amigos, um sótão e uma revolução

Em 1925, o engenheiro Peter Bang e o empresário Svend Olufsen fundaram a empresa no sótão da mansão Quistrup, na pequena cidade de Struer, Dinamarca — onde a sede permanece até hoje, 100 anos depois, numa cidade de apenas 10.000 habitantes.

Seu primeiro produto foi o “Eliminator”, um dispositivo que permitia que rádios funcionassem com energia elétrica da rede em vez de baterias — uma inovação revolucionária numa época em que a maioria dos rádios ainda dependia de pilhas. A divisão de trabalho era clara desde o início: Bang cuidava da engenharia, Olufsen do negócio.

A fábrica que renasceu das cinzas

Durante a Segunda Guerra Mundial, a fábrica da B&O em Gimsing foi incendiada por sabotadores pró-nazistas como punição pela recusa da empresa em colaborar com os ocupantes alemães. Notavelmente, a reconstrução começou apenas um mês depois, e as linhas de produção foram restauradas em menos de um ano. No pós-guerra, a empresa chegou a produzir barbeadores elétricos (até 1955) para diversificar enquanto se reconstruía.

Design como filosofia

O que distingue a B&O de todas as outras marcas de áudio é sua obsessão com o design industrial. Seus produtos não são concebidos como equipamentos eletrônicos, mas como objetos de arte que pertencem aos espaços de convívio. A revista Wired descreveu a filosofia como “entrega de mídia de qualidade via objetos impressionantes”.

A empresa contrata designers externos em vez de empregá-los internamente, preservando independência criativa. Em 1978, o Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York dedicou uma exposição inteira aos designs da B&O, e múltiplos produtos integram a coleção permanente do museu.

Os designers que definiram a marca

Jacob Jensen colaborou com a B&O de 1965 a 1989, projetando incríveis 234 produtos ao longo de 27 anos. Seus designs para as linhas Beomaster e Beogram definiram a estética minimalista que se tornou sinônimo da marca.

David Lewis, envolvido desde 1965, projetou o icônico BeoLab 8000 (1992) — uma caixa acústica em formato de coluna de alumínio inspirada em um tubo de órgão encontrado num mercado de pulgas. Essa coluna tornou-se “possivelmente o design de caixa acústica mais copiado de todos os tempos”.

Produtos que fizeram história

O Beogram 4000 (1972) foi o primeiro toca-discos do mundo com braço tangencial controlado eletronicamente — um marco de engenharia que entrou para a coleção permanente do MoMA no mesmo ano. Recentemente, foi relançado como Beogram 4000c Recreated Classic.

O BeoLab 90 (2015), criado para o 90º aniversário, é a caixa mais ambiciosa da marca: 18 drivers Scan-Speak por caixa, 18 amplificadores individuais entregando 8.200 watts por caixa. O preço original de US$ 78.000 o par subiu para US$ 211.800 em 2025, com edições limitadas do centenário chegando a US$ 520.000 o par.

Altos e baixos financeiros

Listada na Bolsa de Copenhague (Nasdaq Copenhagen) desde 1977, a B&O enfrentou crises severas. Na crise financeira de 2008, a receita despencou de US$ 853 milhões para US$ 528 milhões, e a ação caiu de US$ 52 para US$ 8,50. A empresa se recuperou, mas enfrentou nova crise em 2014-2015 com três anos consecutivos de prejuízo.

Em 2015, vendeu a divisão de áudio automotivo para a Harman International por US$ 157 milhões. Em 2018, a ação atingiu máxima histórica de DKK 85,40 — para depois cair à mínima de DKK 7,66 em outubro de 2022.

B&O Play e a busca por novos públicos

Em 2012, a B&O lançou a submarca B&O PLAY, com caixas portáteis e headphones a preços mais acessíveis, mirando consumidores mais jovens. Produtos como o Beoplay A1 e os headphones Beoplay H-series ampliaram o alcance da marca sem diluir o prestígio da linha principal. Posteriormente, a submarca foi reintegrada sob o nome Bang & Olufsen.

A B&O hoje: 100 anos e reinventando-se

O centenário em 2025 foi celebrado com edições especiais e releituras de clássicos, incluindo os headphones Beoplay H100 e o speaker wireless Beosound A5. A empresa mantém parcerias automotivas com Audi, BMW e Mercedes-AMG, além de licenciamento com HP e LG.

Com receita de aproximadamente DKK 2,5 bilhões (cerca de US$ 360 milhões) e margem bruta recorde de 58%, a B&O segue numa trajetória de reestruturação — buscando equilibrar seu legado de design premium com as demandas de um mercado cada vez mais digital e portátil.

Numa indústria obcecada por especificações e preços, a Bang & Olufsen insiste há 100 anos que um speaker pode ser tanto uma obra de arte quanto um instrumento musical. É uma aposta ousada que nem sempre agradou os acionistas — mas que garantiu um lugar permanente na história do design.

⌬ FIM · 4 min de leitura

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