Em 1965, os estúdios de Abbey Road compraram quatro gravadores Studer J37, e dois deles registraram as sessões de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Na mesma época, um gravador de rolo compacto da mesma fábrica suíça entrava em casas e rádios do mundo todo: o Revox A77, que vendeu mais de 400 mil unidades. As duas marcas, uma profissional e outra doméstica, saíram da cabeça de um único homem, Willi Studer. Separadas desde os anos 1990, ambas continuam em atividade, cada uma com outro dono.
Willi Studer, um autodidata do rádio
Wilhelm “Willi” Studer nasceu em 17 de dezembro de 1912, na Suíça. Segundo o Hi-Fi Hall of Fame, ele não tinha diploma de engenharia: aprendeu sozinho a projetar rádios e, em 1932, abriu a Tell, fabricante de receptores que durou pouco. Depois foi projetista-chefe em empresas de Zurique e, em 1943, cofundou em Herisau a Metrohm, que existe até hoje no ramo de instrumentos de laboratório.
Em 5 de janeiro de 1948 ele fundou sua própria fábrica de aparelhos eletrônicos, que começou fazendo osciloscópios para laboratórios de alta tensão. A virada para o áudio veio de uma encomenda. Segundo a revista Mix, a empresa foi contratada para adaptar 500 gravadores americanos ao padrão europeu e concluiu que podia fazer uma máquina melhor.
Do Dynavox ao Revox: o nascimento de duas marcas
O primeiro gravador de Studer saiu em 1949 com o nome Dynavox. Em 1951 ele foi rebatizado Revox T26, primeiro aparelho com a marca, que, segundo a linha do tempo oficial da Revox, já foi usado por emissoras de rádio. Em 1952 veio o Studer A27, primeiro gravador profissional de estúdio da casa. Nesse momento a empresa separou as linhas: Studer para estúdios e emissoras, Revox para audiófilos e uso doméstico.
A Revox ganhou o primeiro gravador estéreo doméstico, o D36, em 1960. Em 1966, uma subsidiária alemã em Löffingen, perto da fronteira suíça, começou a produzir o G36, segundo o arquivo histórico do site ReelToReel.de.
J37, o gravador de Sgt. Pepper’s
O Studer J37, de quatro pistas, entrou em produção em 1964, de acordo com o Museum of Magnetic Sound Recording. Abbey Road levou quatro unidades em 1965. Com só quatro pistas, a equipe de George Martin recorria à redução de pistas (bouncing), somando faixas de um J37 em outro para abrir espaço a novas camadas, técnica por trás da densidade de Sgt. Pepper’s, lançado em 1967. A própria Revox cita o J37 e o álbum dos Beatles entre os marcos da história da empresa.
A77 e B77: o rolo vai para a sala de casa
O Revox A77 apareceu em 1967 (a linha do tempo oficial da Revox o coloca em 1970 como a série de maior sucesso). Era transistorizado, com comandos por relé, e ocupava o espaço entre o aparelho doméstico e o profissional. A Mix e o Museum of Magnetic Sound Recording falam em mais de 400 mil unidades vendidas. Músicos também o adotaram: Robert Fripp, do King Crimson, fez suas Frippertronics com gravadores Revox.
O sucessor, o B77, tinha controle lógico e acionamento direto. O Museum of Magnetic Sound Recording registra produção de 1977 a 1999, e outras fontes situam o início um pouco depois. Ele e o PR99, versão semiprofissional apresentada em 1982, foram dos últimos gravadores de rolo da era clássica: segundo o ReelToReel.de, as versões finais saíram de linha em dezembro de 1997.
A80 e A800: a Studer nos grandes estúdios
No lado profissional, o Studer A80 (1970-1988) introduziu um projeto modular e, segundo o Museum of Magnetic Sound Recording, foi o gravador da marca com maior tempo de produção e mais unidades vendidas. Em 1978, o multipista A800 foi o primeiro gravador controlado por microprocessador, de acordo com a Mix. Vieram depois o multipista analógico A820, de 1985, e, a partir de 1989, os gravadores digitais D820 e D827 e as mesas digitais da série D940.
O reconhecimento veio também em títulos. Willi Studer recebeu doutorado honorário da ETH Zurique em 1978 e a Medalha de Ouro da Audio Engineering Society em 1982.
A venda e a separação
Em 1990, Studer vendeu o grupo Studer Revox para a suíça Motor-Columbus, que no ano seguinte o dividiu em três partes: Studer (profissional), Revox (hi-fi) e manufatura. Em 1994, a Studer foi vendida para a americana Harman International. A Revox ficou fora do negócio e passou para um grupo de investidores. Willi Studer morreu em 1º de março de 1996, aos 84 anos.
Onde estão as marcas hoje
Studer: sob a Harman, a marca se concentrou em mesas digitais para broadcast, como a série Vista. Em janeiro de 2021, a canadense Evertz anunciou a compra da marca, da tecnologia e dos ativos relacionados. As mesas Vista seguem no catálogo da Evertz, integradas às suas soluções para TV.
Revox: segundo o site oficial, a empresa tem sede suíça em Dietikon e fábrica em Villingen-Schwenningen, no sul da Alemanha, além de escritório em Salzburgo. Nas últimas décadas a marca apostou em sistemas multiroom e caixas acústicas. Nos anos 2020, voltou às origens. Em 2023 relançou o B77 em série limitada, e em 2024 apresentou o B77 MK III, redesenhado com eletrônica atual e os motores Revox originais. A audioXpress informou preço de US$ 15.950 e produção de no máximo 20 unidades por mês. A empresa também passou a gravar fitas master em Villingen e lançou o toca-discos T77 em 2025.
Gosta de histórias de gravadores de rolo? Leia também a trajetória da TEAC e TASCAM e da Universal Audio, outra marca nascida dentro dos estúdios.
Fontes
- Revox: Milestones (linha do tempo oficial)
- Revox: The Company
- Museum of Magnetic Sound Recording: Studer / ReVox
- ReelToReel.de: The Revox company history
- Hi-Fi Hall of Fame: Willi Studer
- Mix: Studer at 70 (cobertura secundária)
- audioXpress: The Return of an Icon, B77 MK III (cobertura secundária)
- Evertz: comunicado sobre a aquisição dos ativos da Studer
Foto de destaque: Revox A77 MkIV — Putput / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 3.0.