Palmas no meio da sala e um rastro de som que demora a morrer: é a reverberação, e ela costuma ser a primeira coisa que alguém tenta medir depois de pendurar o primeiro painel. O número que todo mundo procura é o RT60. O problema é que pouca gente sabe qual valor perseguir, e menos gente ainda sabe que, numa sala de casa, esse número só faz sentido em parte do espectro. Este guia mostra o que as normas de salas de audição de referência pedem, como transformar isso em meta para home theater, estúdio caseiro e sala de música, e como medir sem se enganar.
O que é RT60, sem rodeio
RT60 é o tempo que o som leva para cair 60 dB depois que a fonte para. Ninguém mede 60 dB inteiros numa sala comum: o ruído de fundo não deixa. A recomendação técnica da EBU (Tech 3276) descreve a medição a partir de 5 dB abaixo do nível inicial até pelo menos 25 dB abaixo, em bandas de 1/3 de oitava, usando as próprias caixas da sala como fonte.
Dois pontos importam desde já. Primeiro, o RT60 depende da frequência: uma sala pode ter 0,6 s em 125 Hz e 0,25 s em 4 kHz. Segundo, a fórmula de Sabine, que a gente usou no guia de acústica para home office e videochamada, serve para estimar e planejar, mas não substitui a medição.
Quanto é bom? O que dizem EBU e ITU
As duas referências mais citadas para salas de audição crítica são a EBU Tech 3276 e a Recomendação ITU-R BS.1116-3. Ambas usam a mesma régua: o tempo de reverberação nominal (Tm), que é a média dos valores medidos de 200 Hz a 4 kHz, deve seguir a fórmula
Tm = 0,25 × (V / V0)^(1/3) segundos, com V = volume da sala em m³ e V0 = 100 m³.
EBU Tech 3276 e ITU-R BS.1116-3
A EBU acrescenta uma faixa: Tm entre 0,2 e 0,4 s, crescendo com o tamanho da sala para que o ambiente continue soando “natural”. Aplicando a fórmula a salas brasileiras típicas:
- Sala de 4 × 5 m, pé-direito de 2,7 m (54 m³): cerca de 0,20 s.
- Sala de 5 × 7 m, pé-direito de 2,7 m (94,5 m³): cerca de 0,25 s.
- Home theater dedicado de 6 × 8 m, pé-direito de 2,8 m (134 m³): cerca de 0,28 s.
Um cuidado: essas normas foram escritas para salas de referência maiores do que o quarto médio. A EBU pede no mínimo 40 m² de piso para a sala de referência; a ITU indica de 20 a 60 m² para estéreo e de 30 a 70 m² para multicanal. Num quarto de 12 m², a fórmula daria menos de 0,2 s, e perseguir esse número costuma levar a uma sala “morta”, abafada e cansativa. Use a fórmula como norte, não como lei.
Traduzindo para cada uso
Home theater
Filmes são mixados em salas tratadas e já trazem a ambiência da cena na trilha. Uma sala muito viva soma a própria reverberação à do filme e embola os diálogos. Mirar no intervalo da EBU (0,2 a 0,4 s, com a fórmula indicando o ponto dentro dele) é um bom alvo. A prioridade, porém, costuma ser outra: controlar as primeiras reflexões e o grave, como explicamos no guia de tratamento de home theater sem obra.
Estúdio caseiro e mixagem
Aqui o alvo das normas faz mais sentido, porque a ideia é ouvir a gravação e não a sala. Mais importante que o valor médio é a curva: a EBU pede que, entre bandas vizinhas de 1/3 de oitava, a diferença não passe de 0,05 s de 200 Hz a 8 kHz, e não passe de 25% do maior valor abaixo de 200 Hz. Uma sala com 0,3 s nos médios e 0,1 s nos agudos, típica de quem cobriu tudo com espuma fina, está fora da máscara mesmo com média “bonita”.
Sala de música (estéreo)
Para ouvir música por prazer, muita gente prefere um ambiente um pouco mais vivo que o de mixagem. Não há norma para gosto. Nossa opinião: ficar perto do teto da faixa da EBU (0,4 s) já dá vida suficiente, e o equilíbrio entre graves, médios e agudos importa mais do que o número exato.
O RT60 não vale para o grave da sua sala
O conceito de tempo de reverberação pressupõe um campo sonoro difuso. A documentação do REW, o programa gratuito mais usado para medir salas, é direta: cômodos domésticos costumam ser pequenos demais para ter algo perto de um campo difuso nos graves, e o RT60 em geral não é significativo abaixo de algumas centenas de hertz. Ali mandam os modos de sala, que se analisam no waterfall, no espectrograma e no gráfico de decaimento, não num único número. A própria ITU anota que há dificuldade em medir tempos curtos em baixas frequências.
Como medir sem se enganar
- Use microfone de medição calibrado. O passo a passo completo com REW está no nosso guia como medir a acústica da sala com REW.
- Leia T20 e T30, e olhe o EDT. O REW calcula EDT (queda de 0 a -10 dB), T20 (-5 a -25 dB) e T30 (-5 a -35 dB). Segundo a documentação, em salas pequenas com caixas direcionais o T20 e o T30 podem subestimar o RT60; um EDT baixo indica mais clareza naquele ponto de escuta.
- Confira a confiabilidade. O REW mostra um coeficiente de correlação; valores com módulo abaixo de 0,99 sinalizam que o número daquela banda pode não ser confiável, e o programa os destaca em itálico.
- Compare antes e depois. Meça a sala vazia de tratamento, aplique uma mudança por vez e meça de novo.
Onde comprar
- miniDSP UMIK-1 — Ver na Amazon · Ver no Mercado Livre
- Behringer ECM8000 — Ver na Amazon · Ver no Mercado Livre
O UMIK-1 liga direto na USB e, segundo a ficha técnica publicada por revendedores, traz arquivo de calibração individual baixado pelo número de série; o ECM8000 é XLR e exige interface de áudio com phantom power.